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Seminário Democratizar a Comunicação para Democratizar a Vida Social
Mulheres discutem conteúdo e miram políticas de comunicação

 

Publicado no Informes Abong nº 427, de 5 a 19/08/08.
 

As cerca de 50 participantes do seminário “Democratizar a Comunicação para democratizar a vida social” estavam em busca de aprendizados e desafios. Encontraram a ousadia, a coragem e a irreverência da luta feminista no exercício do direito à comunicação. E construíram propostas que apontam para a necessidade de ocupar ainda mais espaços de produção de conteúdo e representação das mulheres na comunicação e também de ocupar espaços de tomada de decisão política neste setor, como a Conferência Nacional de Comunicação. O encontro aconteceu no dia 30 de julho, no SOS Corpo, em Recife, e tinha como objetivos fortalecer a ação do movimento feminista na luta pela democratização da comunicação; refletir sobre a ação de comunicação feminista; e favorecer o debate sobre a Plataforma dos Movimentos Sociais para a Reforma Política numa perspectiva feminista. “A opção por transformar a sociedade hoje é necessariamente uma opção por transformar a comunicação”, afirma Ana Veloso, do Centro das Mulheres do Cabo.

 

O seminário contou com a apresentação de experiências de mulheres que produzem comunicação alternativa (veja matéria a seguir) e com um debate sobre a intervenção das mulheres no cenário das políticas de comunicação. Também construiu a relação da luta pela democratização da comunicação com a luta pela reforma política ampla, democrática e participativa. A jornalista Aline Lucena, da Sinos, falou sobre o contexto atual da luta pela democratização da comunicação e a afirmou como condição material para a efetivação do direito à comunicação. “Não podemos pensar em democracia na comunicação sem pensar no modelo oligopolista, baseado nas concessões a empresas privadas, instrumento a serviço do modelo econômico”, disse, exemplificando com a recém criada Frente Parlamentar da Comunicação Social, que “nada mais é, senão um espaço para defender os interesses da indústria de comunicação”.

 

“Não é possível que se apropriem do discurso da liberdade de expressão para falar em liberdade de expressão comercial”, pontua.
 

Para Ana Veloso, é preciso que as mulheres comecem a fazer política de forma comunicacional. “Hoje, é sujeito político quem tem voz ativa na esfera pública”, diz. “Se, no passado, afirmamos que o nosso corpo é nosso, hoje temos que afirmar que nossa voz é nossa”.


As jornalistas afirmam a necessidade de as mulheres ocuparem os espaços de discussão em relação aos temas candentes da comunicação hoje, como a TV Pública, as concessões de rádio e TV e a Conferência Nacional de Comunicação. São muitos os desafios até o encontro, que ainda não foi convocado pelo executivo, e o movimento de comunicação luta para que seja realizado em 2009. “A luta por um conteúdo não machista é necessária e permite que avancemos sob o ponto de vista da sensibilização e da formação. No entanto, é preciso saltar para ações estruturantes, que mexam nas políticas de comunicação e promovam uma regulamentação que coíba o que hoje acontece: violações de direitos na mídia e do próprio direito à comunicação, impunes por falta de estrutura democrática que regule este setor”, afirma Rosário de Pompéia, jornalista e pesquisadora do Observatório de Mídia Regional, da UFPE.

 

Para Rosário, Aline e Ana, as mulheres precisam construir uma intervenção nos espaços em que está em debate a comunicação: o plano de políticas para as mulheres (o eixo 8 versa sobre a imagem da mulher na mídia); a plataforma dos movimentos sociais para a reforma política (o eixo 4 versa sobre a democratização da comunicação); e a própria conferência nacional, caso ela aconteça.

 

* Leia mais sobre o processo de construção da Conferência Nacional de Comunicação em www.proconferencia.com.br/

* Saiba mais sobre a Campanha por Democracia e Transparência nas Concessões de Rádio e TV em www.quemmandaevoce.org.br

 

Três experiências de comunicação feminista

 

“Sujeito político é aquele(a) que tem voz ativa na esfera pública. O feminismo é um pensamento crítico e político de mulheres que querem construir a liberdade. E isso não cabe na grande mídia”. Seguindo estes preceitos, mulheres de Pernambuco demonstraram as suas contribuições para a construção de uma esfera pública mais democrática.
 

Durante o seminário “Democratizar a Comunicação para democratizar a vida social”, apresentaram experiências comunicativas e de intervenção política no cenário da comunicação.
 

Eliane Nascimento, do Programa Rádio Mulher, falou sobre a sua experiência à frente do programa que tem 11 anos e é transmitido hoje em dia pela Rádio Quilombo dos Palmares. Fruto de um projeto da ONG Mulheres do Cabo, o programa é feito para e por mulheres da região de canavial, em Pernambuco. “No começo, era um verdadeiro desastre, porque não tínhamos técnica para produzir e falar, mas com o tempo, descobrimos que o discurso da técnica serve apenas para impedir que as pessoas arrisquem. Hoje, eu opero até mesa de som”, conta Eliane. “As mulheres ligam para a rádio e nos abordam na rua, para dizer que parece que falamos diretamente com elas”, diz. Ela conta que o programa é feminista, usa linguagem de gênero, e trata de temas cotidianos e da vida das mulheres, com informações de interesse público. “Sabemos que, inclusive entre os homens, temos uma grande audiência”, conta Eliane. Para ela, um dos grandes resultados da rádio é a reorganização da Articulação de Mulheres da Mata Sul. “Dentro de um contexto rural e repressor, conseguimos um espaço em que as

mulheres têm voz e vez. Isso permite que nós falemos de nossos problemas e façamos política”, conclui.
 

Gigi Bandler, do grupo de teatro Loucas de Pedra Lilás, apresentou a proposta ousada das artistas que estão juntas desde 1989. “Tínhamos uma inquietação e queríamos fazer o feminismo descer mais redondo com humor, irreverência e sem ter medo do ridículo”, conta, parodiando o bordão de uma marca de cerveja. Em 1996, as ‘Loucas’ (como são carinhosamente conhecidas e chamadas) se tornaram uma ONG, com o objetivo de dar visibilidade, pela arte, aos direitos das mulheres.

“Nossas expressões são principalmente espetáculos teatrais, instalações, canto, programas de rádio e clipes de TV”, conta Gigi. Hoje, as ‘Loucas’ têm um espaço na TV Universitária local onde exibem seus clipes da série “Loucas por direitos”, em que falam de direitos das mulheres.


A terceira experiência apresentada foi a da assessoria de imprensa do Fórum de Mulheres de Pernambuco. A jornalista Manuela Marinho contou como o trabalho de assessoria tem contribuído para ampliar o poder de fala das mulheres e a visibilidade pública dos seus direitos.


“Nossos principais objetivos são de usar a comunicação como instrumento político de ação; pautar a mídia em relação aos temas dos
direitos das mulheres; e sensibilizar os profissionais de comunicação para estes temas”, afirma Manuela. Para Rosario de Pompéia, do Centro de Cultura Luis Freire e do Observatório de Mídia Regional da UFPE, não podemos contar com o apoio da mídia. “Precisamos atuar nas brechas de conteúdo, mas é fundamental que construamos uma intervenção na estrutura”, diz. Para Gigi, das Loucas de Pedra Lilás, fazendo comunicação, as mulheres se tornam sujeitos históricos ativos  isso já é uma forma de fazer contra-cultura. A jornalista Aline Lucena, da Sinos, afirma estas iniciativas são “fissuras no modelo comunicacional em que vivemos” e é preciso integrar estas práticas com a luta por políticas públicas para mudar de forma consistente e perene o cenário das comunicações no Brasil.

 

Leia mais no site da Abong: http://www.abong.org.br

 

Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher
 
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram que as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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