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Violência contra a mulher rural: uma realidade cruel e
invisível
Vera Vieira*
34% das entrevistadas conhecem alguma mulher
que já foi estuprada e 25% disseram que aconteceu na
comunidade; 15% das mulheres agricultoras entrevistadas já
foram espancadas pelos seus maridos ou namorados; 53% já se
sentiram violentadas por palavras ou dizeres; 34% disseram
ter sido humilhadas por serem agricultoras; 64% das
entrevistadas disseram que não têm liberdade de tomar
decisão sem pedir licença; 52% das mulheres agricultoras
declaram que normalmente pedem licença ao marido para tomar
qualquer decisão. "Estes são alguns dados reveladores da
herança patriarcal, machista e capitalista que legitima a
violência praticada contra a mulher do campo", ressalta
Rosani Schiavini, do Movimento de Mulheres Camponesas de
Santa Catarina, que foi responsável por esta pesquisa
realizada em 2002, com 514 mulheres.
Mas, esta realidade alarmante encontrada no meio rural
permanece oculta. Foi principalmente por esta razão que se
realizou em Brasília, em 12 e 13 de novembro, o Seminário
Violência contra as mulheres no meio rural - diagnóstico,
desafios e propostas, com a presença de 20 mulheres,
lideranças do movimento de trabalhadoras rurais, lideranças
do movimento sindical rural, lideranças quilombolas,
ativistas feministas e pesquisadoras com acúmulo sobre o
tema da violência contra a mulher. O evento foi realizado
pela Associação Mulheres pela Paz, Instituto Patrícia
Galvão, CNMTR/Contag, Geledés - Instituto da Mulher Negra e
Rede Mulher de Educação, visando contribuir para a
formulação de um diagnóstico e de recomendações estratégicas
para o enfrentamento da violência contra as mulheres no meio
rural.
"A invisibilidade da violência contra as mulheres no
campo e na floresta é algo marcante no Brasil. Mesmo com
todo o debate sobre a Lei Maria da Penha e sua repercussão
nos meios de comunicação, não houve um olhar mais atento da
mídia para a situação das mulheres rurais. As tímidas e
escassas políticas públicas implementadas no país nas
últimas décadas - delegacias da mulher, casas abrigo,
assistência social, psicológica e jurídica - não chegam às
mulheres rurais", analisa Jacira Melo, coordenadora do
Instituto Patrícia Galvão - Comunicação e Mídia.
Diferentemente das mulheres urbanas, no campo e na
floresta há o grande empecilho da distância entre as
moradias, além de sérias dificuldades de locomoção, sendo
que o povoado ou cidade mais próxima fica distante 100 ou
200km. Assim, qualquer política pública voltada para a
mulher rural deve levar em conta esses fatores. "É preciso
construir espaços para que as mulheres do campo e da
floresta possam dar visibilidade as suas demandas e
necessidades. É preciso investimento imediato para se ter um
diagnóstico da situação atual e das respostas mais urgentes
por parte do Estado. É preciso promover debates sobre
propostas de política públicas com a presença de gestores e
gestoras, pesquisadores e pesquisadoras, ativistas do
movimento de mulheres e em especial lideranças dos
movimentos de mulheres rurais. Será preciso envolver
prefeituras, sindicatos, movimento comunitários, movimentos
sociais", acrescenta Jacira.
Fórum
O país já conta com o Fórum de Políticas contra a
Violência no Campo e na Floresta, instalado como resposta à
demanda da última Marcha das Margaridas, realizada em
Brasília, em setembro. "Trata-se de uma iniciativa pioneira
e da maior importância, mas o problema da violência contra
as mulheres rurais exige a mobilização de esforços do Estado
e do conjunto das organizações que lutam por direito e
justiça no país", enfatiza Jacira. O Fórum tem o objetivo de
debater e formular propostas de políticas publicas
relacionadas a esta problemática, adequadas à realidade das
mulheres trabalhadoras rurais.
Com o lema Contra a fome, a pobreza e a violência sexista,
a Marcha das Margaridas deste ano apresentou uma pauta de
reivindicações abordando os diversos âmbitos da vida da
trabalhadora rural, com ênfase na questão da violência. A
pauta, que foi apresentada às autoridades governamentais
federais, destaca que "o grande desafio atual é a
implementação da Política Nacional de Combate à Violência
contra a Mulher, a ser pactuada com os poderes Legislativo,
Judiciário e Executivo, nas diversas instâncias da
federação, com a garantia de orçamento público, espaços de
formulação e controle social, participação e
acompanhamento". E acrescenta: "A Lei Maria da Penha
significa um avanço no tratamento à violência contras as
mulheres, mas requer divulgação, pronto e efetivo
cumprimento, por meio de um conjunto de ações adaptadas ao
espaço e realidade rural, associadas a outros programas e
políticas para as mulheres trabalhadoras rurais".
Desafios
As trabalhadoras rurais e os movimentos que as apóiam se
deparam com inúmeros desafios para avançar no enfrentamento
da questão da violência contra as mulheres. "O primeiro é
efetivamente conhecer o problema, pois não se têm
informações e análises sobre a violência sofrida por essas
mulheres nos diferentes contextos em que vivem. A partir
desse conhecimento é preciso pensar em ações e políticas
voltadas para a articulação entre a violência cometida pelos
parceiros, a violência cometida pelos patrões/
latifundiários e pela polícia, além do problema das grandes
distâncias, do isolamento, da baixa escolaridade, da
presença (e da legitimação) das armas de fogo nos ambientes
doméstico e profissional. Não é pouca coisa. Nessa área,
trata-se de começar do zero, mas contando com a imensa
capacidade de articulação e mobilização, além do
conhecimento, das trabalhadoras rurais", ressalta Ana Paula
Portella, uma das coordenadoras do SOS Corpo, de Recife,
entidade que realizou, juntamente com a OMS e a Faculdade de
Medicina da USP, a pesquisa Violência doméstica e saúde da
mulher, em 2001, com mulheres de 15 a 49 anos, no município
de São Paulo e em 15 municípios da Zona da Mata de
Pernambuco (que possui área urbana e rural). Foi a primeira
pesquisa feita no Brasil em termos populacionais. "Há vários
aspectos alarmantes nesta pesquisa. O primeiro é a própria
magnitude do problema: uma em cada quatro mulheres em São
Paulo, uma em cada três mulheres na Zona da Mata e uma em
cada duas usuárias do SUS de Recife, já sofreram violência
física dos parceiros. Isso é muito alto e indica a
relevância e urgência do problema. O segundo é o diferencial
de gravidade entre Pernambuco e São Paulo, que chama a
atenção para a necessidade de se observar os contextos
específicos nos quais a violência acontece. Finalmente, esse
diferencial pode ser resultado da existência de serviços de
atenção às mulheres e de fatores como maior escolaridade e
maior acesso à informação, o que nos dá algumas pistas sobre
formas de enfrentamento do problema", avalia Ana Paula.
Apresentada no Seminário para subsidiar as discussões e
trabalhos em grupo, a pesquisa suscitou um rico debate entre
as lideranças participantes. Segundo uma das participantes, Vanete Almeida, que é coordenadora da Rede Lac (Rede de
Mulheres Rurais da América Latina e Caribe), "as políticas
públicas não atingem e não servem para as mulheres rurais,
pois elas vivem uma realidade diferenciada e por isso não
são contempladas. Por exemplo, as casas abrigo são poucas e
localizadas nos grandes centros e as delegacias da mulher só
existem nas capitais e cidades maiores, muito distantes das
comunidades rurais". Quanto a alterar essa realidade, Vanete
destaca que "estamos apenas iniciando a discussão da
violência contra a mulher rural e temos acúmulo insuficiente
para orientar políticas públicas que realmente as
contemplem". Concordando com Vanete, Jacira observa que "o
Brasil tem uma dívida histórica com as mulheres do campo. A
maioria das conquistas das mulheres brasileiras dos últimos
30 anos não teve repercussão na vida concreta das
trabalhadoras do campo. A violência contra as mulheres do
campo e a ausência de resposta do Estado é um dos exemplos
mais cruéis de violação de direitos humanos do país".
Daí a importância de iniciativas como este Seminário
realizado em Brasília, como um passo importante para o
acúmulo de informações e gestão de propostas pertinentes. "O
seminário foi uma das formas concretas para ajudar a romper
o silêncio e tornar mais conhecido o sofrimento cotidiano de
tantas mulheres, nos mais distantes rincões de nosso país,
no intuito de trocar experiências e estimular a ajuda
coletiva. Dar visibilidade a esta situação, só acontecerá se
as mulheres tiverem, cada vez mais, vez e voz, e com isso
abrir o caminho da mobilização e da solidariedade", finaliza
Clara Charf, coordenadora da Associação Mulheres pela Paz.
* Vera Vieira é coordenadora-executiva da
Rede Mulher de
Educação. |