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Desencaixotando o machismo
 


Silvana Conti*

 

Em pleno século XXI é com muito pesar e indignação que li a matéria da Zero Hora de domingo do dia 30 de março**, em que Marco Aurélio assina uma matéria perniciosa a respeito das candidatas ao governo municipal de Porto Alegre para as próximas eleições, sendo elas: Manuela D’Ávila, Maria do Rosário e Luciana Genro.

Na página 54 está indicado que é um espaço de humor. Não identifico em nenhuma linha desta matéria escrita por Marco Aurélio qualquer indício de graça, e sim, um espaço repleto de preconceitos, palavras desrespeitosas, machistas e um grande toque de sarcasmo e mau gosto.

As mulheres e os homens de Porto Alegre, que compreendem o que está por detrás deste “humor” raso e sorrateiro, devem repudiar este tipo de matéria que reforça o quanto ainda nossa sociedade está engatinhando na questão da igualdade de oportunidades entre mulheres e homens.

Desqualificar as mulheres direcionando suas potencialidades, capacidades, qualificação profissional, inteligência, nada mais é do que ainda acreditar que devemos nos restringir aos espaços privados, ficar em casa cuidando dos filhos e do marido, que não temos capacidade intelectual e só pensamos em nossa estética, que todas somos patricinhas, que todas falamos muito e pensamos pouco, enfim, classificando as mulheres de Porto Alegre como incapazes de ocupar espaços de visibilidade, espaços de poder, espaços de decisão.

Um machista de plantão sempre acaba mostrando suas reais intenções, e desta vez ficaram explícitos quais são os conceitos que alicerçaram esta matéria de domingo:

Marco Aurélio tem preconceito:

Tal como a palavra expressa, trata-se de um conceito pré-estabelecido, sempre de caráter depreciativo. O preconceito leva a estereotipar pessoas ou grupos de pessoas e a cristalizar crenças e clichês. Outra característica do preconceito é a generalização errônea: ”As mulheres falam demais” por exemplo. Preconceito e discriminação reforçam-se mutuamente, sendo que o preconceito cria uma base ideológica para a discriminação (1).

Marco Aurélio é machista:

O machismo é uma ideologia e prática que considera o sexo masculino superior ao feminino. Manifesta-se explicitamente no desejo de poder dos homens sobre as mulheres. Sua base histórica é o patriarcado, que pôs o macho no centro das decisões históricas, políticas, sociais (2).

O que desejo ver estampado nas páginas de todos os jornais, em todas as revistas, nas redes de TV, nos rádios e em toda mídia, é:

Porto Alegre deve estar mais alegre por contar com candidatas tão qualificadas, com trajetórias legítimas, com mulheres guerreiras, poderosas, inteligentes, competentes, com ideais políticos revolucionários, que acreditam que uma sociedade justa deve ter mulheres e homens trabalhando juntas(os), com igualdade de salário, com igualdade de oportunidades, sem qualquer tipo de violência e opressão, sem racismo, sem machismo, sem opressão de uma classe sobre a outra, sem lesbofobia, sem homofobia, sem preconceitos, sem fundamentalismos. Uma Porto Alegre mais humana, com políticas públicas para mulheres e homens, que valorize a educação, a saúde, a moradia, a implementação na íntegra da Lei Maria da Penha, que ofereça possibilidades de geração de renda para todas as pessoas, que valorize a participação da juventude, que valorize a experiência das pessoas mais velhas, que respeite todas as cidadãs e cidadãos, compreendendo que não basta ser mulher, compreendendo que o que faz a diferença são os programas de governo, são as escolhas políticas do que é ou não prioridade para nossa cidade.

Para finalizar quero compartilhar das idéias e dos ideais da valorosa Loreta Valadares (3), grande feminista gaúcha que lutou nos tempos da ditadura e em todos os momentos da sua vida, por uma sociedade socialista, sem qualquer tipo de opressão.

Não será fácil uma luta desse tipo.

A força estrutural/cultural da opressão de gênero será, certamente, sentida em todo o processo de construção do socialismo.


Assim, não pode ser formal a garantia de igualdade nas relações de gênero. Serão necessárias medidas concretas que retirem do confinamento privado a ‘economia doméstica’, redimensionem o papel da mulher na produção (o trabalho tem dois sexos), estabeleçam a função social da reprodução, ao tempo em que promovam real participação política da mulher em todas as esferas do poder”.

* Silvana Conti - Lésbica feminista, é presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre, articuladora nacional da Liga Brasileira de Lésbicas e membro da Executiva Municipal da UBM - União Brasileira de Mulheres.

(1) Fonte: revista Maria Maria (UNIFEM). Ano 3, nº 2, segundo semestre de 2001.

(2) Idem.

(3) Fonte: Valadares, Loreta. "A visibilidade do Invisível", in Presença da Mulher, nº 31, Anita Garibaldi, São Paulo, 1998.

** Para acessar o artigo do Zero Hora, clique aqui e depois procure no final da página: Humor / Marco Aurélio (página 54) e clique novamente para acessar o texto em pdf.

 

Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher
 
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram que as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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