Um tapinha não dói em quem se
acostumou com a dor
Revista
Envolverde, 03/06/08.
| Por Maria Helena Masquetti, para o Le
Monde Diplomatique |
Carinho é gostoso,
tapa é ruim. De quantas pesquisas necessitamos para ter certeza disso?
Lembrando Belchior em uma outra música, não precisamos que nos digam
de que lado nasce o sol porque bate lá nosso coração — e a esperança
de um futuro melhor para nossas crianças.
Amor próprio e consumismo dificilmente combinam. Quem sabe o que é
melhor para si não espera que lhe digam o que desejar. Já, quem
consome por impulso, aceita que outros lhe imponham um desejo não
genuinamente seu. Essa imposição acontece quando a pessoa é induzida,
desde cedo, a abrir mão do próprio desejo a fim de atender o de outro.
Porém, por mais que os pais se limitem a desejar que os filhos
expressem suas próprias capacidades, dividem hoje a educação dos
pequenos com uma outra autoridade: a comunicação mercadológica, cujo
objetivo é impor o desejo consumista principalmente nas mentes mais
jovens. Sob pena de se sentirem excluídos de seu meio social, crianças
e adolescentes são induzidos a consumir produtos, serviços e idéias
prontas. “Só falta você”, “Não fique fora dessa”, ”Todo mundo está
usando”. Convocações como essas têm como endereço certo a necessidade
natural das crianças em pertencer a um grupo. Tentando acalmar esta
aflição infantil, muitos pais também se confundem frente ao bombardeio
midiático.
Como nos clichês dos filmes sobre vampiros, em que a vítima constata
que todos os familiares foram igualmente mordidos, os pais se deparam
em todos os canais da mídia com a mesma legitimação do absurdo.
Temendo se sentirem ultrapassados, passam a duvidar da importância de
sua firmeza na educação dos filhos. Para a comunicação mercadológica,
meta alcançada. Filmes, novelas, programas de auditório e até os
noticiários, nada escapa ao contágio da febre consumista. Nada,
incluindo a música. “Um tapinha não dói”, “Dança do créu”, “Tapa na
cara” e outras produções do chamado gênero funk encabeçam a lista de
músicas vazias de respeito e carregadas de desprezo e violência,
principalmente contra as mulheres.
Há poucos dias, uma decisão judicial reconheceu a ofensa explícita em
“Um tapinha não dói”. Ao todo, foram sete anos de espera pelo
veredicto. Apesar da demora, tanto o acatamento da denúncia como a
respectiva multa de quinhentos mil reais aplicada aos autores,
significam que ainda temos chances de reverter esta penetração nefasta
da comunicação mercadológica em nossas vidas. E significam também que
não basta uma mensagem repercutir na mídia para ser boa. Os pais
precisam acreditar no que sabem e proteger os filhos. Quando uma
menina se põe a dançar e a repetir um refrão desse tipo, mostra o
quanto a humilhação e a violência estão sendo banalizadas dentro dela,
enquanto os autores da afronta embolsam fortunas por milhões de CDs
vendidos. É difícil conter a pergunta: “Quem está orientando essa
garota?” Embora não vejamos seu rosto, sabemos que esta doutrina
desequilibrada provém de uma indústria de entretenimento que há muito
vem atropelando a ética, deturpando a educação e aviltando a infância.
Sob a orientação perversa da ganância comercial, crianças e
adolescentes entram na dança frenética do “E daí, o que é quem tem?”.
E ao som de refrões repulsivos, aprendem sobre sua sexualidade
literalmente no tapa. Fossem tais palavras de ordem dirigidas apenas a
adultos – com juízo crítico formado – os danos talvez seriam menores.
Mas não é de hoje que as crianças estão sendo abordadas como adultos
para benefício das vendas. Há mais de duas décadas, Neil Postman já
alertava: “O novo ambiente midiático que está surgindo fornece a
todos, simultaneamente, a mesma informação. Dadas as condições que
acabo de descrever, a mídia eletrônica acha impossível reter quaisquer
segredos. Sem segredos, evidentemente, não pode haver uma coisa como
infância”.
Que importa aos loucos por lucro que as crianças e adolescentes se
encaminhem para relacionamentos perversos? Se não importa a eles, deve
importar à sociedade
Na busca da felicidade inalcançável, sempre tão perto dos olhos e
distante da realidade de cada um, as pessoas tendem a consumir mais e
mais. Sendo assim, que importa aos loucos por lucro que as crianças e
os adolescentes se encaminhem para relacionamentos perversos; para a
gravidez precoce ou para a degradação de seus sonhos? Se não importa a
eles, deve importar à sociedade. A natureza nada entende de
subterfúgios para a obtenção do prazer, muito menos de ataques
explícitos à feminilidade. Sua especialidade é o equilíbrio e a
temperança. Para tanto, ela determinou que, no período entre a segunda
infância e a adolescência, ocultaria das crianças os impulsos de ordem
sexual que elas ainda não podem compreender nem administrar, devido à
sua imaturidade física e mental.
Esse período, ao qual a psicanálise chamou de Latência, é um tempo
providencial por permitir às crianças o alcance da maturidade genital
e a construção das barreiras psíquicas necessárias ao controle dos
impulsos. Enquanto isso, elas brincam, criam e canalizam a produção da
energia ligada ao interesse sexual para sua socialização e
aprendizagem. Freud explicou isso também: “As influências externas da
sedução são capazes de provocar interrupções do período de Latência ou
mesmo sua cessação e, neste sentido, o instinto sexual das crianças se
revela, na verdade, perverso e polimorfo; parece, além do mais, que
qualquer atividade sexual prematura desta ordem diminui a
educabilidade da criança”. Se adultos conscientes incluem em sua
relação sexual a violência e a humilhação, provém da história de cada
um. Deixemos, portanto, às crianças o direito de desenvolverem em paz
sua sexualidade com a perspectiva de não machucarem nem a si nem a
ninguém.
"A idéia surgiu num dia em que dei um `tapinha corretivo’ em minha
filha e ela retrucou: `Pai, um tapinha não dói’”, eis a explicação do
autor aos jornais. “Sua boca vou beijar, tô visando tua bundinha,
maluquinho prá apertar”, eis um trecho da música. Difícil saber o que
dói mais ouvir. É preciso distinguir liberdade de expressão de
liberdade para ofender ou para abusar da imaturidade de crianças e
adolescentes, roubando-lhes a infância e a dignidade. Primitivos todos
fomos um dia, mas para que, afinal, lutamos para evoluir? A
viabilidade da vida em comunidade depende do acordo mútuo que
estabelecemos, em algum lugar do nosso passado, para controlar nossos
impulsos. Quem já participou de uma reunião de condomínio sabe por que
elas geralmente não são tão confortáveis. Uma coisa é um morador achar
prazeroso pular de tênis na piscina, outra é os demais concordarem.
Estabelecer regras de convivência não é fácil, no entanto é
imprescindível.
De todas as formas de comunicação, a música é a expressão cultural que
mais conservou sua dignidade. Pelo menos até levar esses tapas na
cara. Era o código para denunciar arbitrariedades, expor paixões e,
menos do que machucar, ela tentava lamber nossas feridas. O deboche e
a inversão dos valores ficavam por conta das marchinhas de carnaval
que, mesmo assim, por se enquadrarem em tal contexto de folia
passageira, confessavam sua obediência aos limites éticos e morais.
Carinho é gostoso, tapa é ruim. De quantas pesquisas necessitamos para
ter certeza disso? Lembrando Belchior em uma outra música, dessas que
não doem nada, mas ajudam a pensar melhor, não precisamos que nos
digam de que lado nasce o sol porque bate lá nosso coração e a
esperança de um futuro melhor para nossas crianças.
(Envolverde/Le Monde Diplomatique Brasil)
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