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A figura feminina no discurso social da canção massificada

Por Mariângela Ribeiro*

Circula atualmente pela internet um e-mail que denuncia a discriminação e o preconceito declarados numa canção da banda Mastruz com Leite. Refiro-me à Bomba no Cabaré, que diz o seguinte: "Jogaram uma bomba no cabaré/ voou pra todo canto pedaço de mulher/ foi tanto caco de puta voando pra todo lado/ dava pra apanhar de pá, de enxada e de colher!/ no meio da rua tava os braços da Tereza/ No meio fio tava as perna (sic) de Raché/ Em cima da telha os cabelo (sic) de Maria/ No terraço de uma casa os peito (sic) de Isabé!/ Aí eu juntei tudo e colei bem direitinho/ fiz uma rapariga mista, agora todo homem quer/ pode jogar uma bomba lá no cabaré/ que eu junto os cacos das putas/ pra fazer outra mulher".

O problema é que esse tipo de discurso é mais comum do que pode parecer aos ouvidos não poluídos pelos sons cotidianos de nossas cidades.

Em Bomba no cabaré encontramos um discurso social totalmente desrespeitoso com nós, mulheres em geral, e, particularmente, com as profissionais do sexo. Discurso que não é novo na música popular no Brasil (1). Mas que, atualmente, traz um teor de banalização a níveis antes inimagináveis. As letras criadas entre os anos 30 e os 70 parecerão inocentes... Aos mais relativistas, esta afirmação pode soar preconceituosa ou moralista. Mas não o é. Destaco apenas a substituição da poética (que colocou a nossa música como referência mundial) por um naturalismo sem graça, para não dizer preconceituoso e violentador do sublime, do humano.

E não estou sugerindo que falta inspiração ou cultura aos criadores individuais da atualidade. Mas lembro que estamos tratando de canções fabricadas por uma indústria poderosa, que trabalha com padronizações, estilizando (e piorando) os elementos absorvidos do popular. Esta indústria cultural é expressão de um tempo marcado por mudanças nas práticas culturais, econômicas, políticas e sociais que se traduzem num individualismo profundo.

Neste mundo fundamentado em modos mais flexíveis de acumulação de capital, a atuação e influência dos meios de comunicação tornaram-se complexas. Com a fragmentação do processo produtivo, os elementos culturais ganharam novas feições fundamentadas em tecnologias de ponta: "a fórmula substitui a forma". Para um público cada vez maior, novos produtos são criados com uma velocidade ímpar, legitimando o padrão cultural do "capitalismo tardio", isto é, o consumo enquanto "direito pessoal" que expressa "liberdade de escolhas".

Entendendo padrão cultural como a maneira de "estar no mundo", os valores que legitimam os comportamentos, conclui-se que "no processo de globalização, a cultura de consumo desfruta uma posição de destaque. [...] ela se transformou numa das principais instâncias mundiais de definição da legitimidade dos comportamentos e dos valores" (Ortiz: 1998, p.10). Dito de outra forma, eu sou o que consumo. Minha identidade está nas mercadorias materiais e simbólicas que adquiro.

Assim, independente da origem destas produções, elas revelam "denominadores comuns" do chão histórico em que são criados. Antônio Cândido nos ensina que estes denominadores são elementos sociais e psíquicos partilhados por uma determinada sociedade. A obra de cultura (nesse caso, a canção) é considerada, assim, um sistema simbólico que faz a mediação entre o indivíduo e o social.

Seguindo esta lógica, Bomba no Cabaré representa valores e comportamentos do nosso "senso comum" - que oferece elementos para a criação de bens simbólicos ao mesmo tempo em que é formado/confirmado pelo discurso divulgado pela mídia.

O pior, numa rápida busca na internet, vi que este tipo de discurso naturalista e agressivo/desrespeitoso às mulheres (e também aos homossexuais e aos transexuais, que aqui não tratarei) é encontrado nos gêneros musicais mais populares da atualidade, como os forrós estilizados e o funk carioca.

Mastruz com Leite está entre os chamados forrós estilizados e seu discurso não se distancia de tantos outros, como demonstram canções de Cavaleiros do Forró e Calcinha Preta. Na referida pesquisa virtual, as letras deste estilo trazem fortemente a ideologia machista clássica.

Uma do grupo Cavaleiros do Forro chamada "Esporte de mulher (Karatê)". Diz assim: "homem gosta de forró/ de cachaça e de mulher/ seu esporte é o futebol/ [...] mas o esporte de mulher é o karatê/ o cara ter um carro/ o cara ter dinheiro/ o cara ter fazenda/ não precisa ser solteiro/ não precisa ser bonito/ basta só o cara ter".

Segundo compositores como João Ribeiro (de "Esporte de mulher"), a mulher é colocada não só como um ser em busca de dinheiro, status financeiro, mas como alguém incapaz de pensar em outros meios de obtê-los. Não se cogita outras formas dela conseguir a posição/riqueza que deseja. A única saída é arrumar um homem que realize seu "sonho". Os politizados Racionais MC’s também afirmam esta idéia em "Mulheres vulgares":

"[...] se liga aí: derivada de uma sociedade feminista/ que considera e dizem que somos todos machistas/ não quer ser considerada símbolo sexual/ luta para chegar ao poder, provar a sua moral/ numa relação na qual/ não admite ser subjugada, passada para trás/ exige direitos iguais... / e o outro lado da moeda, como é que é? / pra ela, dinheiro é o mais importante/ seu jeito vulgar, suas idéias são repugnantes/ é uma inútil que ganha dinheiro fazendo sexo/ [...] Fique esperto com o mundo/ mulheres só querem preferem o que as favorecem/ dinheiro, ibope, te esquecem se não os tiverem...".

Para finalizar, no funk, temos "pérolas" da banda Furação 2000, como "Gorda baleia" (2) e "Quer bolete?". Esta última tem um erotismo cru, reforçando um discurso fálico segundo o qual a reclamação e choro feminino podem ser curados através de sexo oral: "alô mulherada.../ qué qué, qué bolete?/ tó toma, tó toma... pára de chorar/ toma bolete pára de reclamar". E sugere que a mulher, desde criança, é marcada pelo poder sedutor do falo: "quando você era pequena não parava de chorar/ me pedindo a chupetinha para você chupar/ agora tu cresceu e pra não esquecer/ com a boca aberta me pedindo pra botar".

Furacão 2000 fez fama ao cantar "Tapinha não dói", causando uma polêmica entre as feministas, tal como hoje Mastruz com Leite. Aliás, sucesso que foi celebrado por Caetano Veloso em shows de 2003.

Mas, "pra não dizer que não falei das flores", encontrei uma letra da funkeira Tati quebra barraco que diz: "tapinha nada/ nu meu homi/ eu dou porrada/ pára de marra e desce desse palco/ que aqui no meu cafofo/ sou eu que falo mais alto". O que, é claro, não afeta em nada o meu argumento. Inexiste neste discurso um questionamento sobre a forma como a mulher é exposta, o que fica confirmado por sua performance de palco, que reforça a idéia de "mulher objeto".

A resposta de Tati quebra barraco mostra que o desrespeito não vem só dos homens, revelando um tipo de sociabilidade que se fundamenta no uso da violência e, neste sentido, embrutece tanto homens como mulheres. Esta letra sugere que a igualdade entre homens e mulheres deve se dar oferecendo aos dois sexos a mesma condição para se "dar porrada", reforçando o ditado popular olho por olho, dente por dente.

É por isso que, contrariando outra máxima popular, gosto não se discute, devemos sim, refletir sobre o que significa essa produção cultural que se legitima na palavra "entretenimento". Tais produções de massa (e o consumo subseqüente) reafirmam uma visão de mundo machista, indo de encontro a todos os avanços legais e simbólicos que vêem tentando diluir as desigualdades de gênero.

E mesmo que se afirme que a maioria não gosta, simplesmente consome (porque aqui o reconhecimento significa estar informado sobre as últimas paradas de sucesso ou porque o ritmo sugere uma dança "maneira"), não teremos menores prejuízos. Quando não há constrangimento em cantar ou dançar canções que banalizam ou agridem a mulher, é porque os valores partilhados por nossa sociedade ainda o permitem.

A música é o mais cotidiano dos objetos culturais ao circular em todos os meios (cinema, televisão, propagandas publicitárias, rádios, ciber-espaço) e, neste sentido, muito pode revelar de nós mesmos e do mundo em que vivemos. Parafraseando Thomas Mann, "a música é sempre suspeita". Daí a importância de, como sugeriu a amiga que enviou o e-mail, nos mobilizarmos através de ações diversas contra bens simbólicos que insistam na reificação da figura feminina ou no incentivo à violência contra a mulher.

Referências:
BOURDIEU, P. O poder simbólico. São Paulo: Bertrand, 1999. 247 p.
CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. São Paulo: T.A. Queiroz, 2000. 193 p.
JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1997. 431 p.
MARTÍN-BARBERO, Jésus. De los medios a las mediaciones: comunicación, cultura y hegemonía. México: ed. G. Gili, 2002.
ORTIZ, Renato.  Mundialização e cultura. São Paulo: ed. Brasiliense, 1998.

Notas:
(1) O repertório que se consagrou como representante por excelência de nossa tradição musical canta o amor, a beleza e/ou temas que nos dizem respeito sem teor de discriminação e/ou preconceito. Porém, nos anos 20 e 30, momento de culto à malandragem e à boemia, comportamento e espaço por excelência masculino, era comum encontrar incentivo à violência contra mulher (Ver "Mulher indigesta", de Noel Rosa, e "Já Já", de Sinhô, por exemplo). Esta, ou era vista como mulher de malandro (que gosta de apanhar) ou idealizada e elogiada como rainha do lar ("Amélia", de Mario Lago). Na fase da consolidação da MPB (Bossa Nova ao Tropicalismo), embora não seja regra, encontramos canções que dão voz a esse mesmo lado "amélia" tido como natural das mulheres.
(2) Gorda baleia é claramente preconceituosa e sugere violência: "[...] você não é Carla Peres/ nem Luiza Brunet/ então presta atenção no que o Fabrício vai dizer/ gorda baleia/ vou te esculaxar/ bunda de borracha/ peito de maracujá".


* Mariângela Ribeiro é mestre em sociologia e faz parte da equipe do GAJOP (Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares)

Este artigo foi publicado originalmente no site da Adital (15/05/07).
 

Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher

NOVA
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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