Quem acredita que o
feminismo foi um movimento vitorioso do século passado, que ajudou
as mulheres a conquistar seu lugar no mundo, que virou história e
não tem mais razão de ser, deveria dar uma olhada nos jornais da
semana.
Duas notícias fazem pensar no assunto e concluir que, se do ponto
de vista institucional – pelo menos em boa parte do mundo – as
mulheres já têm seus direitos assegurados, quando se trata de mídia
e religião a situação continua ruim.
A primeira comprovação vem com o relato da homilia da Sexta-Feira
Santa feita em Roma pelo padre Raniero Cantalamessa, que falou em
nome do papa. Os jornais reproduziram a fala oficial:
"O Vaticano quer a era das mulheres: uma era de coração, de
compaixão. A experiência cotidiana demonstra que as mulheres
podem contribuir para salvar nossa sociedade de alguns males
inveterados que a ameaçam, como a violência, o desejo de poder,
a aridez espiritual e o desapreço pela vida."
Conivência ou preguiça
A pegadinha – que os editores de jornais não se preocuparam em
discutir – é como as mulheres poderão desempenhar esse papel tão
importante, na opinião da Igreja Católica:
"As mulheres não podem se precipitar e devem parar de agir
como homens para conquistar espaço na sociedade e se abster de
tentar apagar as diferenças entre os sexos."
Segundo o padre Cantalamessa, "as discípulas seguiram Jesus não
porque buscavam poder ou tinham expectativa de fazer carreira, mas
por acreditarem nele". Então os seguidores homens estariam somente
em busca de poder ou carreira, e não por fé?
Na opinião do Vaticano, basta ter paciência, deixar as coisas
como estão e se limitar ao papel que a igreja considera adequado
para que as mulheres eventualmente herdem o reino dos céus. Aquelas
que precisam trabalham ou que sonham em fazer uma carreira talvez
até tenham permissão para isso, desde que continuem agindo como
mulheres, isto é, que aceitem as regras do jogo e não fiquem
disputando o lugar que – pela ordem natural e divina das coisas –
pertence aos homens.
A igreja católica continua tentando manter as mulheres em segundo
plano. Até aí nada de novo. O surpreendente é a mídia ser conivente
– ou preguiçosa – e deixar passar a oportunidade de discutir o
assunto, questionando a mensagem contida no discurso oficial da
Sexta-Feira Santa.
A visão da imprensa
O preconceito da mídia é tratado pela própria mídia no artigo "O
ataque dos machistas radicais", da jornalista inglesa Polly Toynbee,
publicado pelo Estado de S. Paulo no domingo (8/4). No
artigo, a jornalista mostra a cobertura dos jornais ingleses na
libertação dos marinheiros britânicos presos no Irã, mostrando o
tratamento dado à única mulher do grupo: "Ela estava predestinada a
concentrar todos os preconceitos contraditórios em relação às
mulheres que trabalham, mulheres na guerra e religiões opressivas
que são contra as mulheres."
O pior de tudo, diz Polly Toynbee, é que os jornais usam mulheres
para fazer esse trabalho. Ela cita como exemplo o texto do London
Daily Mail (feito por uma mulher) que critica a marinheira
britânica por deixar a filha em casa e ir para a guerra "em nome do
que chamamos igualdade, mas que, na verdade, é uma crença equivocada
de que os homens e mulheres são iguais".
A conclusão do artigo – "a revolução feminina, até agora, só foi
vencida pela metade" – mostra que o feminismo não é coisa do século
passado. Entre outras coisas, falta mudar a visão que a imprensa tem
– ou pelo menos divulga – das mulheres.