O anúncio da
composição do Conselho Curador da Empresa Brasileira de
Comunicação (organização que vai abrigar a nova TV
pública) não trouxe surpresas [ver
aqui]. Infelizmente. Desde que o processo passou às
mãos da Secretaria de Comunicação Social, do ministro
Franklin Martins, ficou claro que a composição do
conselho, pretensamente representativo da sociedade, seria
decidida unicamente pelo Executivo, a partir de critérios
próprios.
A TV pública nasce vítima do modelo que
o governo criou. Em vez de optar por uma arquitetura
pública de participação, preferiu manter o controle e ser
responsável direto por todas as indicações. Feita essa
opção, recaiu sobre ele o ônus de provar que não era
autoritário e que não queria criar a "TV Lula". Fez tanto
esforço para isso que criou um conselho conservador e
elitista.
Assim, criou-se um aparente paradoxo: no
afã de legitimar o projeto da TV pública com setores da
direita, o governo abriu mão do caráter público e deu à
emissora um perfil governamental. Mais: criou no conselho
uma composição que traz uma penca de empresários e nenhum
representante dos trabalhadores, seja da comunicação seja
do campo geral. Também indicou apenas uma pessoa com
atuação no debate das políticas públicas de comunicação (o
advogado José Paulo Cavalcanti), que mesmo assim não vinha
participando dos debates da TV pública.
Aliás, essa foi a tônica das indicações:
nenhum dos escolhidos participou do Fórum de TVs Públicas
nem representa setores que vinham se manifestando no
debate. Dirão as vozes governistas que esses setores são
representativos apenas de um pequeno setor da sociedade.
Mesmo se isso for verdade, esse setor (pequeno ou grande)
não pareceu digno de representação, a se julgar pela
ausência completa de nomes desse campo no conselho. Para
piorar, a idéia (positiva) de que o conselho não deve ser
composto somente por especialistas acabou sendo tão forte
que nenhum representante acadêmico da comunicação foi
indicado.
Comitês públicos
Há de se notar ainda a preocupação com a
questão da regionalidade e, minimamente, da diversidade
étnico-racial e de gênero. No entanto, isso se deu sem
diálogo com o próprio movimento negro, indígena ou
feminista, o que mostra que definitivamente
representatividade não foi um dos critérios nesse
processo. Critérios são sempre questionáveis, dirão
alguns. É justamente isso que se está fazendo aqui,
questionando-os, embora neste caso – um debate sobre uma
TV pretensamente pública, ressalte-se – os únicos
critérios que valham sejam aqueles decididos pelo governo.
Esse fato ilustra, a bem da verdade, um
problema de origem desse conselho. A lógica de um órgão
representativo da sociedade escolhido pelo governo, sem
sequer um processo de indicação, é paternalista e
antidemocrática. Assessores do ministro vêm utilizando o
argumento de que "no Reino Unido é assim". Não é. No caso
da BBC, a composição do Trust ("conselho curador" de lá)
parte de um processo de seleção pelo "comitê de indicações
públicas", órgão independente que faz esse papel para mais
de 1.000 órgãos com participação social.
Esse comitê recebe indicações da
sociedade, e faz uma lista de candidatos a serem
entrevistados. A partir da fase de entrevistas, entra,
como um dos avaliadores, um representante do governo
inglês. Depois disso, as indicações são passadas ao
secretário de Estado, depois ao primeiro-ministro e,
finalmente, à rainha (que não manda nada, como indica o
próprio cargo, mas mostra que a decisão está acima do
governo da vez).
Além disso, embora haja, no final do
processo, esse "filtro" de governo, trata-se de um
mecanismo democrático de um país que é parlamentarista há
séculos, com uma forte tradição de debate público e de
equilíbrio na composição desses espaços. Ainda assim, o
BBC Trust já foi criado com dezenas de pesos e
contrapesos, checks and balances, mecanismos de
consulta, medidas para evitar o conflito de interesses dos
conselheiros, comitês públicos que analisam a programação,
isto é, vários mecanismos que estabelecem um forte
compromisso dos trustees com o conjunto da
sociedade. Por aqui, se depender da análise prévia,
começamos mal.
Opção consciente
De toda forma, o governo não precisaria
atravessar o Atlântico se quisesse encontrar modelos mais
democráticos de representação. Há nas próprias estruturas
do Estado brasileiro excelentes referências. Tanto o campo
da Saúde quanto o da Habitação, por exemplo, têm modelos
avançados de gestão, com conferências periódicas e
conselhos representativos, eleitos pelos setores
envolvidos por meio de mecanismos democráticos.
Se não quisesse sair da própria área da
comunicação, o governo poderia adotar o modelo do Comitê
Gestor da Internet, que também tem sua composição
determinada por voto direto dos setores interessados.
Embora esses conselhos tenham
atribuições diferentes do que aqui discutimos, todos eles
encontraram formas democráticas de a sociedade escolher
seus representantes. Mais que isso, nenhum desses
conselhos sofre do corporativismo que o governo usa como
justificativa para a não adoção desses modelos.
Se não foi por falta de opção nem de
aviso, o governo fez uma opção clara e consciente de
modelo. Resta torcer para os críticos desta proposta
estarmos errados. Não é o que indicam os prognósticos, mas
para quem acredita na necessidade de uma TV
verdadeiramente pública no Brasil, manter a esperança é
questão de sobrevivência.