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Diversidade na TV: a singular batalha por uma tela plural
Gabriel
Priolli*
Um dos muitos
aspectos positivos da nova TV pública federal – e que, por
si só, já justificaria a resoluta aprovação da medida
provisória que a institui – é o debate que ela vem
suscitando sobre as relações entre o sistema de televisão
implantado no país e a sociedade a que ele serve. Inúmeros
grupos sociais, em particular os organizados, discutem
intensamente as deficiências da televisão comercial e as
limitações da televisão pública existente, apresentando as
suas propostas de correção de rumos e as suas demandas
específicas.
O movimento negro, por exemplo. Ou as feministas. Nas
últimas semanas, dois eventos realizados em São Paulo
dedicaram-se a examinar a questão da diversidade na
televisão, no primeiro caso a de etnia, no segundo a de
gênero. O ciclo de debates "Ações afirmativas: Ações para
ampliar a democracia", organizado pela Secretaria de
Promoção da Igualdade Racial, do governo federal, e pela
PUC-SP, analisou o impacto dessas ações na comunicação
social. E o ciclo "A mulher e a mídia", do Instituto
Patrícia Galvão, pôs em foco o papel da TV pública na
expressão da diversidade.
Como expositor nos dois eventos, tive a oportunidade de
organizar algumas idéias em torno desse tema central da
democracia – a diversidade. Também pude testemunhar, mais
uma vez entre outras tantas numa longa carreira de
militância, como são complexas as implicações psicossociais
e políticas dessa questão, e como é fácil a análise racional
perder terreno para o emocionalismo, em seu debate. Séculos
de opressão, inconformismo e frustração geram uma formidável
panela de pressão que pode explodir facilmente em raiva e
vociferação, em prejuízo da análise serena dos fatos e da
superação dos problemas pelo diálogo democrático.
Quintal dos EUA
A primeira questão a considerar, no debate sobre a
diversidade na TV, é conceitual. De que diversidade estamos
falando? Aquela restrita aos conceitos de gênero, etnia e
orientação sexual? Ou aquela mais ampla, relativa à
multiplicidade de experiências do ser humano, em todas as
suas dimensões e em todas as partes do globo – a diversidade
cultural? Os grupos militantes, compreensivelmente,
priorizam a visão mais restrita, focados que estão na sua
missão imediata. Mas é conveniente pensar a questão
amplamente, considerando que a diversidade cultural é o
grande valor a ser instaurado na televisão brasileira e que
as representações de gênero, etnia e outras serão abrangidas
por ele, quando o culto ao diverso for sagrado entre as
emissoras.
A televisão brasileira, sem a menor dúvida, está a anos-luz
da diversidade. Nas emissoras comerciais, a programação
cultiva o oposto – a uniformidade –, quase como traço
distintivo. Todas, no fundo, querem oferecer ao público a
mesma grade, a que mais se aproxime da Globo, líder de
mercado. Todas querem fazer novelas, shows, telejornais;
todas querem transmitir futebol, filmes, desenhos animados,
programas femininos. As que não oferecem alguns desses
gêneros, não o fazem apenas por falta de recursos. Se
pudessem, clonariam a grade da Globo com o mesmo empenho com
que faz a Record. Uma fórmula de sucesso, na TV comercial, é
sempre vista como filão aurífero que se deve garimpar até o
esgotamento.
Também contribui muito para a uniformidade da programação o
monopólio norte-americano na distribuição de filmes,
desenhos e seriados. Da mesma forma como ele controla o
mercado de exibição de cinema, domina amplamente as vendas
para as emissoras brasileiras, graças ao marketing
avassalador, que faz os produtos conhecidos dos brasileiros
antes de surgirem por aqui, e às vendas casadas de produtos,
que derrubam os preços. Não sobra nada para a televisão da
França, Itália, Inglaterra ou de qualquer outro país fazer
por aqui. O Brasil é quintal, jardim, garagem e playground
da indústria audiovisual dos Estados Unidos.
Política indutiva
Na televisão pública, a situação é melhor, mas está
longe do ideal. Há uma preocupação com a diversidade e a
percepção de que a sua falta é um déficit democrático do
país, mas isso não se traduz automaticamente em políticas
universalistas de produção e de aquisição de programas. Os
canais públicos têm, certamente, pautas culturais de
abrangência muito mais ampla que os canais comerciais, e
também exibem muito mais material europeu, asiático ou
latino-americano. Mas estão aquém do que os programadores
desejariam, em razão dos baixos orçamentos com que operam. A
TV pública brasileira não faz co-produções com as suas
congêneres de outros países, prática comum em outras
regiões, nem prospecta programas regularmente em fontes
produtoras incomuns. Quando escapa dos EUA, é para comprar
na Europa Ocidental e no Japão.
Daí porque se deve saudar experiências como a do projeto
"DOC TV Ibero América", que mobiliza governos, emissoras
públicas e produtores independentes de 15 países. Uma
inteligente engenharia de produção, proposta pelo Ministério
da Cultura do Brasil, permite que os produtores tenham
recursos para realizar documentários e que as emissoras
públicas os compartilhem, gerando trocas culturais bastante
significativas. Da mesma forma, é alentadora a disposição
anunciada pela direção da TV Brasil, o novo canal público
federal, de cobrir intensamente a realidade política e
cultural da América Latina e da África, regiões com as quais
o país tem laços étnicos e históricos profundos.
Se há muito por fazer, no tocante à diversidade cultural
ampla, na TV comercial ou na pública, há ainda mais a
perseguir para a melhor representação de grupos étnicos, de
mulheres e de minorias sexuais na tela. As organizações
militantes queixam-se de que as suas temáticas não encontram
o acolhimento desejável nas pautas dos programas, em
particular nos telejornais. Mas ressentem-se, sobretudo, de
maior equilíbrio na participação dos diversos grupos nas
equipes profissionais da televisão, seja as da frente do
vídeo, seja as da retaguarda.
De fato, ainda estamos em terreno privilegiado da "elite
branca", aquela apontada pelo ex-governador paulista Cláudio
Lembo. A TV ainda mostra pouquíssimos negros e mestiços, se
considerada a sua presença na população brasileira. Os
afrodescendentes têm visibilidade equivalente à dos
orientais, o que é um óbvio falseamento da composição étnica
do país. Os índios, por sua vez, inexistem na tela e os
homossexuais são quase sempre caricaturas. Há maior
equilíbrio apenas na participação de mulheres, mas boa parte
das faces femininas no vídeo não são consideradas, por suas
pares, efetivamente representativas das aspirações de
identidade e autonomia das mulheres.
Na retaguarda, nas equipes técnicas e de produção, também se
repete o desequilíbrio observado na tela. E é para
enfrentá-lo que os movimentos organizados propõem ações
afirmativas, entre elas uma política de cotas igual à
utilizada hoje para o preenchimento de vagas em
universidades. Ou seja: uma política indutiva, impositiva,
para promover mudanças profundas em prazo curto.
Avançar o debate
As questões que essa proposta coloca são inúmeras. Em
primeiro lugar, há que considerar se é o caso de impor o
equilíbrio na representação de gênero-etnia-orientação
sexual, por força de lei, ou de fomentá-lo com políticas de
estímulo às emissoras. Em outras palavras: obrigar as
emissoras, penalizando-as com punições, ou convencê-las,
premiando-as pela conversão à causa?
Vale lembrar que a Constituição federal não obriga os meios
de comunicação à diversidade, embora o espírito do artigo
221 seja exatamente esse, ao estabelecer como princípios da
produção e da programação do rádio e da TV a "promoção da
cultura nacional e regional e estímulo à produção
independente que objetive sua divulgação" (inciso II) e a
"regionalização da produção cultural, artística e
jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei"
(inciso III). Se obedecidos esses preceitos, haveria um
aumento notável da diversidade na tela.
Mas, avançando nas questões, o equilíbrio de representação
que se busca deve ser matemático, considerado o perfil da
população brasileira, ou admite-se alguma flexibilidade? O
programador de TV deve ser livre para escolher seu elenco,
seus produtores e seus técnicos por critérios de competência
individual, ou deve obedecer a cotas para fazê-lo? Quais
serão os critérios de aplicação de uma política de cotas na
televisão? Como serão definidos e por quem? Essa política
deve ser temporária ou permanente? E, acima de tudo: como os
seus critérios interagirão com a criação artística e a
informação jornalística, sem cerceá-las?
A televisão – em uníssono, privada ou pública – teme perder
a liberdade de ação. Teme defrontar-se com uma situação em
que montar uma equipe de produção, um elenco de novela, um
time de apresentadores ou uma grade de programação exija uma
complexíssima matriz combinatória, para acomodar todas as
demandas de representação que se apresentam atualmente. Teme
ser forçada a privilegiar o equilíbrio de representação em
vez da qualificação individual de cada aspirante a um posto
profissional.
Responder às questões acima, portanto, é imperioso, para
fazer avançar o debate sobre a diversidade na TV. Os grupos
organizados têm sido competentes em levantar o problema, mas
devem evoluir para as proposições mais objetivas. E devem
manter a pressão sobre as emissoras, seus organismos de
gestão e suas entidades representativas, para trazê-las à
discussão conseqüente e à disposição de mudar.
Será uma batalha difícil, mas vale a pena lutá-la.
* Gabriel Priolli é jornalista e presidente de honra
da ABTU (Associação Brasileira de Televisão Universitária).
Publicado no
Observatório da Imprensa, 11/12/07. |