Tem voz de mulher aqui
Rebeca Oliveira
Duarte*
Recebi dois ótimos artigos pela Internet. Eles vêm sendo veiculados
com força, pelo menos em Pernambuco. São de dois amigos, o escritor
e jornalista José Teles (intitulado “Tem rapariga aí?”, referindo-se
a uma frase usada em show de uma determinada banda brega), e o
cineasta e produtor cultural Anselmo Alves (intitulado “Quero meu
Sertão de Volta!”).
Os dois fazem denúncia de que bandas que se intitulam “forró” estão
invadindo cidades e espaços musicais para reproduzir chavões
machistas, agressivos e de péssimo gosto. Jovens adolescentes dançam
coreografias que induzem à exploração banalizada do sexo – mais
especificamente, à exploração do corpo feminino para a
comercialização dos shows, discos e DVD’s das ditas bandas.
Achei por bem, como mulher, continuar o debate. Na realidade, a
indignação pela coisificação da mulher, exploração do corpo feminino
e banalização do sexo diante de um público adolescente sempre foram
denunciados pelo movimento de mulheres e por “esse povo dos direitos
humanos”, povo do qual faço parte.
Quem acompanhou a indignação com as músicas “Pega ela aí, pega ela
aí, pra quê, pra passar batom” e “Veja os cabelos dela” e os
protestos da Marcha das Mulheres em outdoors nos quais o corpo
feminino era objetificado para o estímulo ao consumo, sabe que, há
bastante tempo, a voz da mulher se levanta contra sua exploração e a
discriminação a que ainda somos submetidas em determinação de
manifestações culturais.
No entanto, nossa voz é freqüentemente abafada no ruído dos
interesses comerciais e do descaso de juristas. E por que não
lembrar “companheiros” que rotulam tal indignação de “histeria” ou
de “complexo de mulheres feias e mal amadas”?
Um exemplo de descaso completo foi a resposta do procurador da
República Marcelo Mesquita Monte, do Ministério Público Federal de
Pernambuco, à representação de entidades do movimento de mulheres
feita contra cervejarias em 2005.
Naquele ano, nossos espaços sociais foram invadidos por outdoors e
propagandas comerciais da Antártica, Brahma e Skol que utilizavam o
corpo da mulher – aliás, partes dele, já que não usavam muito as
cabeças – como instrumento de comparação às cervejas a serem
consumidas. Ou seja, a coisificação do corpo feminino tal qual
objeto de consumo.
Pois. O tal procurador respondeu pelo arquivamento, com frases do
tipo “O homem adulto deseja conquistar a linda mulher de corpo
ideal”, “Ao visualizar o produto que a propaganda ligou ao seu
objetivo de felicidade, que chamaremos de desejo, o expectador tende
a sentir uma simpatia pela mercadoria, não pelo que ela é, mas pelo
que ela invoca”, “Temos que (...) nesses casos a agressão não é ao
congênere do desejo invocado para vender o produto, mas sim do
próprio consumidor, que é levado a comprar algo pelo motivo errado”,
ou seja, afirmou que “Na propaganda de cerveja não tenho como
agredidas as mulheres em geral, mas sim o próprio homem, que ao
invés de escolher determinada marca de bebida pelos seus motivos
intrínsecos, o faz em decorrência da semi-hipnose criada pela peça
publicitária”
Mas, gente, essa pérola é apenas um exemplo. A invisibilidade da
luta feminina por dignidade humana foi tão bem consolidada nos meios
jurídicos que a situação iniciada por um “Pega ela aí, pega ela aí”
declinou para jargões que não ouso escrever nesse site de tão bom
nível. Assim, continuamos, nós mulheres, a fazer as denúncias que
caem no vazio formalista de um país onde a tal “liberdade de
expressão” é mais usada para agredir pessoas com comentários
racistas, machistas e homófobos e para incentivar a pornografia que
explora adolescentes em shows, do que para a expressão pela
cidadania e pelos direitos humanos.
Enquanto nossa voz de protesto e nossas denúncias sobre propagandas
comerciais e sobre as tais bandas musicais – que fazem até apologia
ao abuso sexual de bebês meninas (em representação de fantasia
sexual entre “papai/homem e bebê/mulher”, como é o caso de “Colo de
Painho”, da Banda Bichinha Arrumada), forem invisibilizadas, é
certeiro que a qualidade das manifestações culturais massificadas
hão de cair sempre vertiginosamente, como vem acontecendo. E daí pra
baixo. Parece não haver limite para o mercado que se regozija com o
sucesso generalizado do mau-gosto sexista.
*Advogada política e coordenadora-adjunta do Observatório Negro.
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