O consumo de imagens e palavras estereotipadas pode reforçar padrões comportamentais*
Vera Vieira**
Em um jornal do Rio Grande do Norte, a imagem de uma mulher espancada e o slogan ‘Tá na cara que precisa’ parecem compor apenas mais uma peça publicitária, neste caso, a de uma funilaria. A resposta dos ‘criadores da preciosidade’, para mulheres indignadas de várias regiões brasileiras, é simplista: ‘bando de feministas frustradas’. No bar, o apoio do copo de bebida dispara outra ‘pérola’: ‘Mulher e cerveja - especialidades da casa’ - este é, aliás, o produto que mais reduz o corpo feminino à isca de consumo. Ao chegar em casa e ligar a televisão, não é preciso esperar muito para se deparar com a propaganda que mostra, durante uma cerimônia religiosa de casamento, o noivo condicionar o juramento de fidelidade à promessa da noiva de permanecer gostosa para sempre, preocupação esta justificada ao apontar a figura da mãe ali também presente e que ‘virou um bucho’. No programa infantil, a historinha veiculada mostra que a boneca negra virou bruxa e foi queimada. ‘Minha netinha, chorando muito, me dizia que não queria ser negra’, conta uma ativista do movimento durante um seminário. Um breve olhar às apresentadoras de programas infantis revela o quanto elas reforçam padrões conservadores de feminilidade e beleza, estética branca, além de incutir a imagem de um país cuja cultura e modernidade se baseiam no consumismo. Ao folhear livros, percebe-se que a linguagem escrita e imagética também contribui para a naturalização dos estereótipos: ‘denegrir a imagem’, ‘judiar das pessoas’, ‘salvar o planeta é tarefa do homem’; figuras da mulher desempenhando tarefas domésticas e do homem em cargos executivos, e por aí afora...
Não se tratam de detalhes inconseqüentes, pois a realidade é construída a partir de aspectos objetivos e subjetivos. Ao constatar que ‘é mais difícil desagregar um preconceito do que um átomo’, Einstein colocava em xeque as forças subjetivas com as objetivas. A constituição do imaginário das pessoas se reflete numa realidade que vem impondo relações desiguais de poder e oportunidades na sociedade. E nesse emaranhado dinâmico das estruturas do imaginário vão se tecendo laços que podem ser fortalecidos - no sentido de perpetuar as desigualdades - ou afrouxados, visando desfazer os moldes dos papéis estabelecidos pela dinâmica social. É uma construção cultural, portanto, pode e deve ser mudada.
Atentar para as sérias conseqüências das mensagens discriminatórias - que são bombardeadas em nosso cotidiano - é tarefa de quem busca promover a cidadania para um mundo melhor, com valores éticos, de eqüidade (igualdade, com respeito às diferenças) e justiça social. Na chamada Era da Informação, onde prevalece o slogan ‘estou na mídia, logo, existo!’, a maioria da população brasileira não encontra referenciais de identidade, mas, pelo contrário, um reforço das relações de subordinação impostas às pessoas que fogem ao modelo ocidental: homem, branco, magro, sem deficiências, jovem, heterossexual, culto, e que vem sendo construído culturalmente, ao longo dos milênios. As mulheres vêm conseguindo um lugar ao sol no espaço público, através da luta dos últimos trinta anos, mas ainda encontram muitas dificuldades para desconstruir os mitos da identidade feminina ‘a la Barbie’, a boneca que apresenta padrões irreais de beleza - sem contar que foi criada por um alemão desempregado, que a idealizou como uma garota de programa, vendendo-a em casas de prostituição.
Não é ‘papo pra boi dormir’ e nem puro discurso de movimentos sectários, mas uma realidade cruel facilmente demonstrável por estatísticas confiáveis de órgãos nacionais e internacionais: a cada 15 segundos uma mulher brasileira é espancada (a maioria, dentro de casa); alto índice de adolescentes com anorexia e bulimia; a mulher recebe salário 40% menor do que o do homem num mesmo cargo, embora com o mesmo nível universitário e experiência profissional; o homem negro recebe menos que o branco e a mulher negra, menos que a mulher branca. Assim sendo, as discriminações de gênero e raça são os principais fatores estruturais e estruturantes das condições de pobreza e desigualdades sociais.
O primeiro passo para alterar essa realidade é conscientizar-se de que, ao romper com as discriminações na linguagem escrita e imagética, avança-se na influência do modo de percepção da realidade pelas pessoas, quebrando-se padrões comportamentais. Soma-se a isso, a adoção de mecanismos de intervenção, que levam, sem sombra de dúvidas, a resultados positivos ao considerarmos que vivemos em um mundo onde as forças de mercado tentam se equilibrar ao sofrer pressão de um público com consciência cidadã. Como bem escreveu Mikhail Bakhtin, “a fórmula estereotipada adapta-se, em qualquer lugar, ao canal de interação social que lhe é reservado, refletindo ideologicamente o tipo, a estrutura, os objetivos e a composição social do grupo”.
* Publicado na Revista do Idec - Consumidor S.A, nº 79, São Paulo, junho/2004.
** Vera Vieira é jornalista, com especialização em Gestão de Processos Comunicacionais e mestrado na área de Comunicação/Educação, pela USP/ECA. Atualmente é coordenadora-executiva da ONG Rede Mulher de Educação. E-mail: vera@redemulher.org.br
|