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A Perspectiva de Gênero e Raça na Mídia*
Jacira
Melo**
Hoje, o protagonismo da mulher não
está refletido na mídia. O protagonismo feminino é muito maior do que o
que a mídia retrata. Os meios de comunicação de massa têm mostrado
enorme dificuldade para entender como ator legítimo tudo o que escapa do
tradicional, do poder político tradicional.
A mídia é muito colada aos poderes
Executivo, Legislativo e Judiciário. E nesses espaços de poder temos uma
quase ausência das perspectivas de gênero e de raça.
A agenda feminina e o protagonismo da
mulher em vários aspectos, como no mercado de trabalho, na educação e na
política, ainda são destacados apenas nos casos em que se pode dizer: “é
a primeira mulher” ou “é a única mulher”. As mulheres são destaques
apenas em casos excepcionais.
Se forem contadas as fotografias de
homens e de mulheres que são publicadas nos jornais, fica claro que há
um desequilíbrio entre a representação masculina e a feminina na mídia.
Há também um desequilíbrio entre a representação feminina branca e a
negra. Há um maior espaço para as mulheres brancas. Em se tratando da
mídia informativa, pode-se dizer que a mídia brasileira tem gênero e
raça: é do gênero masculino e é branca. Para conferir esta afirmação,
basta observar os artigos assinados e as cartas de leitores publicados
nos principais jornais e revistas do país.
Voltando à agenda feminina, fica
bastante evidenciado nas eleições municipais deste ano que as mulheres
querem uma outra agenda de debates.
Vejam, novamente as mulheres estão
definindo as eleições. Trata-se de um voto mais exigente. As mulheres
são as principais usuárias dos serviços públicos. Pesquisas em
profundidade mostraram que há um eleitorado que quer modificar a agenda
político-eleitoral. E, em relação à questão da mulher, modernizar essa
agenda significa dar mais espaço para o cotidiano, para os problemas
reais na área da saúde, da educação e do trabalho.
Pesquisas realizadas para o Jornal
Nacional sobre como as mulheres vêem o telejornal de maior audiência
indicam: as mulheres querem saber o que uma notícia nacional ou
internacional tem a ver com sua vida, da sua família e da sua
comunidade. As mulheres querem mais informação de serviços nos jornais.
Talvez estas indicações possam ajudar a compreender a queda no número de
leitoras dos jornais impressos.
Pode-se dizer que a mídia está muito
atrasada em relação à agenda da sociedade, pois ela tem tido dificuldade
de cobrir temas essenciais, como creches e pré-escola. Com a expansão da
presença da mulher no mercado de trabalho, a necessidade de creches e
pré-escolas é um assunto de vital importância para a economia
brasileira. Mas estes temas ainda são abordados na mídia como assunto de
interesse só das mulheres.
Segundo dados do IBGE (2000) apenas
11% das crianças de 0 a 3 anos têm acesso a creches e 52% das crianças
de 4 a 6 anos freqüentam a pré-escola.
Há uma expansão da participação da
mulher no mercado de trabalho a partir do final da década de 70. Hoje
as mulheres brasileiras representam 45% da PEA (População Economicamente
Ativa). Isto quer dizer que a 8ª economia do mundo não conseguiu dar uma
resposta positiva para uma questão-chave para o desenvolvimento humano.
A mídia ainda aborda com espanto as
estatísticas que mostram que 50% das famílias de baixa renda são
chefiadas por mulheres. Ao dar essa notícia, a imprensa não dá a devida
atenção a aspectos importantes, como as conseqüências da extrema pobreza
dessas famílias sobre questões como criminalidade, educação dos filhos e
desenvolvimento humano. E, o mais importante, a questão racial tem tido
pouco relevo neste debate sobre mulheres chefes de família. É preciso
lembrar a imprensa que as famílias de baixa renda são chefiadas em sua
maioria por mulheres negras.
A mídia parece desconhecer que a
variável raça promove desigualdades entre as mulheres. Mas, é necessário
dizer que a mídia não está só nesta miopia: estudiosos e estudiosas
também não olham com a devida nitidez este aspecto.
A mídia sabe cobrir o poder,
sobretudo no plano político. Cobre Brasília, partidos políticos e uma
parcela institucional muito reduzida da sociedade. Mas quando é pautado
um debate sobre educação ou saúde, ninguém na redação pensa em procurar
lideranças comunitárias para que exponham propostas inovadoras que estão
sendo desenvolvidas país afora. Isto quer dizer: o mapa da sociedade
civil não está na redação. Aqui é preciso acrescentar: o mapa, com os
recortes de gênero e raça, também não está nas redações.
O debate sobre a perspectiva
de raça na mídia é um debate quase que exclusivo do movimento negro. No
processo de preparação da Conferência Mundial Contra o Racismo, em 2001,
houve um grande esforço para pautar este debate. Mas, é preciso
reconhecer, o mito da democracia racial não tem o mesmo suporte que
tinha na grande mídia brasileira de 10 anos atrás. Hoje, além do
movimento negro, há diversos estudiosos e articulistas questionando o
mito da democracia racial na mídia.
Também já é possível
computar alguns fatores positivos: os estudos sobre o racismo têm
crescido tanto dentro dos institutos de pesquisas de órgãos
governamentais quanto em centros de estudos nas mais importantes
universidades do país. Estes números e estatísticas têm conquistado as
primeiras páginas dos jornais. Têm sido pauta de telejornais, como
ocorreu com o Jornal Nacional, que em 2001 fez uma série de reportagens
sobre a desigualdade racial.
Mesmo com pesquisas de
abrangência nacional que trazem dados contundentes sobre a desigualdade
racial, ainda hoje o reconhecimento do racismo no Brasil é uma realidade
estatística, uma realidade virtual. Porque não temos como decorrência
propostas de ações para o enfrentamento desta desigualdade, seja do
conjunto da sociedade, dos movimentos sociais ou da mídia. As propostas
da área governamental são tímidas e localizadas.
O racismo – o não-reconhecimento da
desigualdade racial e das suas perversas conseqüências – se expressa em
várias dimensões da vida social: no mercado de trabalho, nos meios de
comunicação, na educação, na saúde. O Brasil sempre teve como ideologia
afirmar-se como país branco. A mídia televisiva expressa como nenhum
outro instrumento este projeto de nação. A ação afirmativa da Rede
Globo, com a maior audiência do país, continua firme e forte: são um
mínimo de 3 e um máximo de 6 atores e atrizes negros no elenco de suas
novelas, que têm em geral mais de 100 personagens.
*
Este artigo é baseado na apresentação realizada no Seminário "As
Perspectivas de Gênero e Raça nas Políticas Públicas e na Mídia",
promovido em São Paulo, em 16/09/04, pela Secretaria da Cultura do
Estado de São Paulo - Assessoria de Gênero e Etnias e pelo Consulado
Geral dos Estados Unidos da América.
**Jacira
Vieira de Melo é bacharel em filosofia pela Universidade de São
Paulo, mestre em ciências da comunicação pela Escola de Comunicação e
Artes da Universidade de São Paulo e diretora geral do Instituto
Patrícia Galvão. E-mail:
jaciramelo@uol.com.br |