Obama para todos os gostos
Correio Braziliense, 12/01/08.
A onda de
mudanças políticas que parecia fenômeno latino-americano atinge as
eleições presidenciais dos EUA. Em cada lugar ela se manifesta de
diferentes maneiras guardando respeito às características culturais e
políticas de cada país ou região, mas elas têm em comum os ventos de
mudança.
Nada mais
emblemático do que a polarização das candidaturas do senador negro
Barack Obama e a senadora Hillary Clinton pela indicação do Partido
Democrata para a sucessão do presidente George Bush na Casa Branca.
Gênero e
raça são temas importantes na sociedade norte-americana porque
representam um desafio para a realização da igualdade. E a
possibilidade de um homem negro ou uma mulher branca se tornarem
presidente dos EUA renovam a confiança na vitalidade da democracia
americana, na sua capacidade de se renovar e se reinventar. Os que
simbolizam grupos historicamente excluídos ou discriminados são
chamados a ofertar originalidade, renovação, mudança e esperança na (des)ordem
do mundo.
Além do
interesse que desperta, a simbologia que cada candidato carrega
presta-se a variadas apropriações, em diferentes contextos, que
extrapolam os limites geográficos e os interesses em jogo naquele
país. A candidatura de Obama, com alto grau de adesão da população
branca norte-americana, é vista por analistas como sintoma do
progresso nas relações raciais nos EUA que nessa leitura significaria
ter ele se tornado opção eleitoral efetiva para grandes parcelas dos
norte-americanos a despeito de sua cor para uns, ou, para outros, da
suposta "neutralidade racial".
No Brasil,
em razão dessas supostas características, Obama tornou-se a nova arma
dos formadores de opinião que combatem as políticas de igualdade
racial, em especial as cotas nas universidades brasileiras. Em
chamadas de matérias da imprensa nacional sobre as prévias nos EUA,
lê-se, que "Obama tornou cor irrelevante na campanha". Outras reiteram
como aspecto mais interessante de sua candidatura o que analistas
consideram ser a sua "laicidade" ou "desenraizamento " racial Há os
que atribuem as características ao pertencimento birracial. Outros
artigos destacam trechos de seu livro "A audácia da esperança", em que
ele discorre sobre a necessidade de ajustes nas políticas raciais
norte-americanas.
Curiosamente, a inferida neutralidade racial atribuída a Obama e tão
enfatizada por certos analistas nacionais, tanto quanto o fato dele
ser filho de mãe branca e pai negro e ter parentes de diferentes
tonalidades, não são capazes de fazer que ele seja percebido dentro e
fora dos EUA como apenas um candidato à Presidência dos EUA. Ele é
sempre referido como candidato negro e só seria viável por não se
fazer perceber como tal.
Tem-se,
nesse caso, uma perversão daquela sentença que diz que à mulher de
César não lhe basta ser honesta. Ela deve também parecer honesta. No
caso dos negros essa idéia adquire bizarra formulação: pode-se até ser
negro, mas não se deve parecer negro.
Em outra
dimensão, as abordagens sobre a candidatura de Obama expõem também as
contradições em que são enredadas as candidaturas negras lá e cá. De
um lado, ser um negro que faz da política de identidade racial o motor
do posicionamento político é visto como limitador ou impeditivo para
que o candidato possa alcançar um universo mais amplo de eleitores ou
representar interesses coletivos. De outro, relativizar a política de
identidade numa estratégia política tornaria o candidato um
desenraizado, menos negro. No entanto, em qualquer desses
enquadramentos, o candidato permanece sempre negro. A reiteração
constante da negritude de Obama presta-se para negá-la.
Porém, o
senador negro não cai facilmente na armadilha de prestar-se ao velho
jogo, sempre proposto pelo poder branco, de usar um negro de sucesso
para reiterar os estigmas que pesam contra os outros e barra-lhes as
reivindicações. No livro A audácia da esperança, ele descreve o que
denomina de "ritual de mesquinharias" que todo homem negro tem que
suportar: de segurança que o seguiram em lojas de departamentos,
casais brancos entregando a chave do carro a ele do lado de fora de
restaurantes, confundindo-o com o manobrista. "(...) Eu sei como é
quando as pessoas me dizem que não posso fazer algo por causa da minha
cor e eu sei o gosto amargo do orgulho negro engolido."
Como ele
declarou num programa de TV: "Na calada da noite, em uma rua deserta
de qualquer grande cidade, um motorista de táxi iria vê-lo com certa
suspeita em vez de exclamar olha aí, um cara legal, meio branco, meio
negro.
Os que
preferem ver em Obama "neutralidade racial" são os que nos propõem a
dissolução da negritude num universalismo que suprime,
autoritariamente, as nossas identidades. Desvendando essa trama, Aimée
Cesaire ensinou que "há duas maneiras de se perder: por segregação na
particularidade ou por diluição na universalidade".
Há muitas formas de viver e politizar a negritude. Obama é uma delas.
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