A ação
da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres tramitou
durante um ano no Conselho Nacional de Auto-Regulamentação
Publicitária (Conar) e saiu vitoriosa, com aprovação, por
unanimidade, do recurso apresentado contra a empresa de publicidade
Overcom. A criação usou como modelo a boxeadora sérvia Duda
Yancovich em outdoor com a seguinte frase “Bate que ela gosta”, para
o provedor de internet Crescenet Tecnologia da Informação Ltda
apresentar seus novos produtos para o público.
Os
membros da Câmara Revisora do Conar reformaram decisão de primeira
instância, acordando pela sustação de outdoor. Em seu parecer, a
relatora Fátima Pacheco Jordão deu razão aos argumentos da denúncia
e seu voto pela sustação da peça foi aceito por unanimidade.
A
denúncia chegou à Ouvidoria da SPM em 19 de abril do ano passado e,
no dia 31 do mesmo mês, foi encaminhada uma representação ao Conar.
Na primeira decisão, o Conselho, em 16 de novembro, considerou
“improcedente” e arquivou a queixa. O departamento jurídico da
agência Overcom, por meio da advogada Carla Lopes dos Santos, negou
a intenção de incentivar a violência doméstica: “Procuramos atingir
a mulher que busca o culto à beleza, mostrando que ela pode usar a
luta e desafiar qualquer um. Tanto é assim que a Duda, em vez de
estar toda machucada, está linda”, explicou.
No dia
1º de dezembro, a SPM apresentou recurso ao Conar, contra a decisão
de arquivamento do caso. A Secretaria confirmava o pedido de
retirada do outdoor. Como justificativa, destacava que a mensagem
publicitária “expressa de fato conteúdo discriminatório e de
incitação a violência contra a mulher, contrapondo o compromisso
assumido pelo atual governo federal de combater sistematicamente a
toda e qualquer ação que produza preconceito, discriminação e
violência contra as mulheres”.
Segundo o recurso da SPM, a idéia de que a mulher gosta de apanhar,
além de discriminatória – porque sugere a agressão contra pessoa do
sexo feminino – incentiva a violência contra a mulher: “Seria
inverossímil imaginar situação análoga cujo protagonista da peça
publicitária fosse, a citar, Éder Jofre utilizando a chamada ‘Bate
que ele gosta’. Não faria sentido, pois não estaria ancorado em
manifestações culturais de secular tradição machista”.
Na
ação, a SPM lembrou ainda o grau de influência que a mídia exerce
nos cidadãos, “sendo, sem dúvida, uma fonte de transmissão de
valores à sociedade”. Daí a preocupação com o caráter da frase, que
torna-se um incentivo à agressão. “Nem mesmo a violência intrínseca
ao boxe autoriza a idéia de que algum dos lutadores pratique o
esporte porque goste de apanhar”, segundo o documento.