O seminário contou com a apresentação de
experiências de mulheres que produzem comunicação alternativa (veja
matéria a seguir) e com um debate sobre a intervenção das mulheres
no cenário das políticas de comunicação. Também construiu a relação
da luta pela democratização da comunicação com a luta pela reforma
política ampla, democrática e participativa. A jornalista Aline
Lucena, da Sinos, falou sobre o contexto atual da luta pela
democratização da comunicação e a afirmou como condição material
para a efetivação do direito à comunicação. “Não podemos pensar em
democracia na comunicação sem pensar no modelo oligopolista, baseado
nas concessões a empresas privadas, instrumento a serviço do modelo
econômico”, disse, exemplificando com a recém criada Frente
Parlamentar da Comunicação Social, que “nada mais é, senão um espaço
para defender os interesses da indústria de comunicação”.
“Não é possível que se apropriem do discurso
da liberdade de expressão para falar em liberdade de expressão
comercial”, pontua.
Para Ana Veloso, é preciso que as mulheres
comecem a fazer política de forma comunicacional. “Hoje, é sujeito
político quem tem voz ativa na esfera pública”, diz. “Se, no
passado, afirmamos que o nosso corpo é nosso, hoje temos que afirmar
que nossa voz é nossa”.
As jornalistas afirmam a necessidade de as mulheres ocuparem os
espaços de discussão em relação aos temas candentes da comunicação
hoje, como a TV Pública, as concessões de rádio e TV e a Conferência
Nacional de Comunicação. São muitos os desafios até o encontro, que
ainda não foi convocado pelo executivo, e o movimento de comunicação
luta para que seja realizado em 2009. “A luta por um conteúdo não
machista é necessária e permite que avancemos sob o ponto de vista
da sensibilização e da formação. No entanto, é preciso saltar para
ações estruturantes, que mexam nas políticas de comunicação e
promovam uma regulamentação que coíba o que hoje acontece: violações
de direitos na mídia e do próprio direito à comunicação, impunes por
falta de estrutura democrática que regule este setor”, afirma
Rosário de Pompéia, jornalista e pesquisadora do Observatório de
Mídia Regional, da UFPE.
Para Rosário, Aline e Ana, as mulheres
precisam construir uma intervenção nos espaços em que está em debate
a comunicação: o plano de políticas para as mulheres (o eixo 8 versa
sobre a imagem da mulher na mídia); a plataforma dos movimentos
sociais para a reforma política (o eixo 4 versa sobre a
democratização da comunicação); e a própria conferência nacional,
caso ela aconteça.
* Leia mais sobre o processo de construção da
Conferência Nacional de Comunicação em
www.proconferencia.com.br/
* Saiba mais sobre a Campanha por Democracia e
Transparência nas Concessões de Rádio e TV em
www.quemmandaevoce.org.br.
Três
experiências de comunicação feminista
“Sujeito político é aquele(a) que tem voz
ativa na esfera pública. O feminismo é um pensamento crítico e
político de mulheres que querem construir a liberdade. E isso não
cabe na grande mídia”. Seguindo estes preceitos, mulheres de
Pernambuco demonstraram as suas contribuições para a construção de
uma esfera pública mais democrática.
Durante o seminário “Democratizar a
Comunicação para democratizar a vida social”, apresentaram
experiências comunicativas e de intervenção política no cenário da
comunicação.
Eliane Nascimento, do Programa Rádio Mulher,
falou sobre a sua experiência à frente do programa que tem 11 anos e
é transmitido hoje em dia pela Rádio Quilombo dos Palmares. Fruto de
um projeto da ONG Mulheres do Cabo, o programa é feito para e por
mulheres da região de canavial, em Pernambuco. “No começo, era um
verdadeiro desastre, porque não tínhamos técnica para produzir e
falar, mas com o tempo, descobrimos que o discurso da técnica serve
apenas para impedir que as pessoas arrisquem. Hoje, eu opero até
mesa de som”, conta Eliane. “As mulheres ligam para a rádio e nos
abordam na rua, para dizer que parece que falamos diretamente com
elas”, diz. Ela conta que o programa é feminista, usa linguagem de
gênero, e trata de temas cotidianos e da vida das mulheres, com
informações de interesse público. “Sabemos que, inclusive entre os
homens, temos uma grande audiência”, conta Eliane. Para ela, um dos
grandes resultados da rádio é a reorganização da Articulação de
Mulheres da Mata Sul. “Dentro de um contexto rural e repressor,
conseguimos um espaço em que as
mulheres têm voz e vez. Isso permite que nós
falemos de nossos problemas e façamos política”, conclui.
Gigi Bandler, do grupo de teatro Loucas de
Pedra Lilás, apresentou a proposta ousada das artistas que estão
juntas desde 1989. “Tínhamos uma inquietação e queríamos fazer o
feminismo descer mais redondo com humor, irreverência e sem ter medo
do ridículo”, conta, parodiando o bordão de uma marca de cerveja. Em
1996, as ‘Loucas’ (como são carinhosamente conhecidas e chamadas) se
tornaram uma ONG, com o objetivo de dar visibilidade, pela arte, aos
direitos das mulheres.
“Nossas expressões são principalmente
espetáculos teatrais, instalações, canto, programas de rádio e
clipes de TV”, conta Gigi. Hoje, as ‘Loucas’ têm um espaço na TV
Universitária local onde exibem seus clipes da série “Loucas por
direitos”, em que falam de direitos das mulheres.
A terceira experiência apresentada foi a da assessoria de imprensa
do Fórum de Mulheres de Pernambuco. A jornalista Manuela Marinho
contou como o trabalho de assessoria tem contribuído para ampliar o
poder de fala das mulheres e a visibilidade pública dos seus
direitos.
“Nossos principais objetivos são de usar a comunicação como
instrumento político de ação; pautar a mídia em relação aos temas
dos
direitos das
mulheres; e sensibilizar os profissionais de comunicação para estes
temas”, afirma Manuela. Para Rosario de Pompéia, do Centro de
Cultura Luis Freire e do Observatório de Mídia Regional da UFPE, não
podemos contar com o apoio da mídia. “Precisamos atuar nas brechas
de conteúdo, mas é fundamental que construamos uma intervenção na
estrutura”, diz. Para Gigi, das Loucas de Pedra Lilás, fazendo
comunicação, as mulheres se tornam sujeitos históricos ativos
isso já é uma forma de fazer contra-cultura. A jornalista Aline
Lucena, da Sinos, afirma estas iniciativas são “fissuras no modelo
comunicacional em que vivemos” e é preciso
integrar estas práticas com a luta por políticas públicas para mudar
de forma consistente e perene o cenário das comunicações no Brasil.
Leia mais no site da Abong:
http://www.abong.org.br