Antropóloga estudou condição feminina
e se projetou com Comunidade Solidária
Antes de se tornar nacionalmente conhecida como mulher
do então presidente Fernando Henrique Cardoso,
Ruth Corrêa Leite Cardoso, 77, já tinha uma longa carreira como
antropóloga dedicada a estudos de gênero e de aculturação.
Veja fotos de Ruth Cardoso
Contudo, ela só ganhou projeção nacional no governo
FHC por implantar o programa Comunidade Solidária que, de 1995 a 2002,
alfabetizou 3 milhões de jovens, capacitou outros 114 mil para o mercado
de trabalho e estimulou a organização de mulheres artesãs em
cooperativas de produção.
| 17.out.2007 Bruno Miranda/Folha
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A ex-primeira-dama Ruth Cardoso
durante entrevista à Folha, em São Paulo |
Apesar disso, o programa era criticado até mesmo por
aliados do governo, como o senador baiano Antonio Carlos Magalhães
(PFL-BA), e pelo ministro das Comunicações, Sérgio Motta, que declarou:
"Essa masturbação sociológica me irrita". FHC respondeu secamente:
"Ministro não critica governo". Motta silenciou.
Discreta, Ruth criticou várias vezes a imprensa por
considerar que tinha sua vida privada invadida com freqüência.
Na área acadêmica, a antropóloga criou na USP o Núcleo
de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero. Também se destacou
por suas duas teses sobre aculturação dos japoneses no Brasil, que
ganharam especial repercussão neste ano em razão do centenário da
imigração japonesa.
Decidida a estudar filosofia, Ruth mudou-se de
Araraquara (SP), sua cidade natal, onde nasceu em 19 de setembro de
1930, para São Paulo aos 19 anos. Na USP, conheceu FHC, um ano mais novo
do que ela. Eles se formaram em 1952 e se casaram no ano seguinte. Mas,
enquanto FHC se dedicava à carreira acadêmica, ela trabalhou também como
assistente na área de recursos humanos da USP e cuidava dos três filhos
do casal, o que fez com que sua produção científica progredisse mais
lentamente que a dele.
Defendeu seu mestrado em 1970 com o "Papel das
Associações Juvenis na Aculturação dos Japoneses", e seu doutorado em
1972, com a tese "Estrutura Familiar e Mobilidade Social: estudo dos
japoneses no Estado de São Paulo". Fez pós-doutorado na Universidade
Columbia (EUA). Publicou ainda "A Aventura Antropológica".
Seus estudos não tiveram a mesma repercussão que os de
FHC, conhecido internacionalmente pela teoria da dependência, mas a
levaram a lecionar nas universidades de Berkeley (EUA) e Cambridge
(Inglaterra). Quando seu marido foi aposentado compulsoriamente pelo
AI-5 em 1968, Ruth permaneceu vinculada à USP, enquanto ele se dedicou a
fundar o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Em 1975,
ela se tornou coordenadora da pós-graduação de ciência política --área
onde atuou até sua morte. Ruth só entrou para o Cebrap depois que FHC
deixou o instituto.
---Publicado na
Folha de S.Paulo, 25/06/08.
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Saiba mais sobre a carreira de Ruth Cardoso em matéria
publicada em
O Estado de S.Paulo, 25/06/08.
Uma vida acadêmica marcante
Antropóloga da USP desvendou
tendências, enfrentou exílio e criou Comunidade Solidária
Carlos Marchi
A antropóloga Ruth Cardoso tinha luz
própria. No meio acadêmico brasileiro, ela foi uma das primeiras a
perceber a emergência dos movimentos sociais ligados a diversidades -
como os feministas, os étnico-raciais e os de orientação sexual. Até a
década de 70, a academia considerava que esses movimentos não tinham
status para merecer a atenção da universidade, mas Ruth já os chamava de
“novos movimentos sociais”, conta a antropóloga Jacira Melo, aluna dela
na Universidade de São Paulo (USP) nos anos 70.
Ela marcaria sua carreira acadêmica pela inovação. Quando o tema ainda
era muito árido e distante, estudou a imigração japonesa para São Paulo,
lembra o ex-ministro da Cultura Francisco Weffort, e a transformou em
tese universitária. Depois do golpe de 1964, enfrentou o exílio ao lado
do marido: no Chile, enquanto Fernando Henrique trabalhava na Comissão
Econômica para a América Latina (Cepal), ela foi professora da Faculdade
Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), que recebia alunos de
muitos países. Depois os dois foram para a França e, de volta ao Brasil,
fundaram o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que
marcaria a pesquisa social no Brasil.
No início dos anos 80, enquanto Fernando Henrique se envolvia na
aventura política que o levaria ao Senado e mais tarde à Presidência,
Ruth se aprofundou na vida acadêmica.
No Cebrap, num tempo em que poucos perceberam a emergência dos
movimentos sociais, ela montou uma primeira equipe para pesquisá-los,
quando as organizações não-governamentais ainda eram desconhecidas.
Depois diria que desde a década de 70, em plenos anos de chumbo, já
percebia os sinais da construção de uma sociedade participativa no
Brasil.
Ainda na fase de transição para a montagem do governo FHC, Ruth concebeu
a criação do programa Comunidade Solidária. Separou como ninguém o
público e o privado: só os amigos antigos tinham livre trânsito na
residência presidencial, conta o ex-secretário da Presidência Eduardo
Jorge.
Ao mesmo tempo, Ruth revelou-se como o lado franco e progressista do
governo. Quando alguém lhe perguntou sobre o então senador Antonio
Carlos Magalhães, disse, sem meias medidas, que o PFL tinha dois lados e
ACM era o lado ruim. Com a declaração, criou um contencioso que custou a
ser resolvido pelo marido. O então ministro José Serra dizia que recebia
ordens dela, mas não de FHC.
Vanguarda eles já eram há muito tempo. Quando os filósofos Jean Paul
Sartre e Simone de Beauvoir, sua mulher, vieram a São Paulo, em 1960, na
primeira fila do auditório acadêmico que os ouvia estava um casal
marcante de professores da USP - Fernando Henrique e Ruth Cardoso.
Nascida em Araraquara, ela e Fernando Henrique se conheceram na USP e se
casaram em 1953. Apesar de sua aversão à prática política - “Partido não
é comigo”, disse uma vez, segundo registrou sua amiga Fátima Pacheco
Jordão -, Ruth foi uma das principais conselheiras do marido, enquanto
ele esteve no governo.
Era doutora pela USP e pós-doutora pela Universidade de Columbia, nos
EUA. Presidiu o conselho assessor do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID) sobre Mulher e Desenvolvimento e integrou a junta
diretiva da Comissão da Organização Internacional do Trabalho (OIT)
sobre as Dimensões Sociais da Globalização.
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