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Elas são eternas

Para marcar o Dia Internacional da Mulher, comemorado ontem, pedimos a pesquisadores que listassem mulheres consideradas imortais

Publicado na Revista do Correio, 09/03/08.

 

Edma Cristina de Góis
Da equipe do Correio

Simone de Beauvoir, Leila Diniz, Bertha Lutz, Marie Curie, Carmem da Silva. O que essas mulheres têm em comum? Umas são mais populares que as outras, é certo. Mas todas tiveram uma visão singular de mundo, quebraram paradigmas e acabaram deixando um legado para a história. Além disso, elas se aproximam na defesa de interesses femininos. O exemplo delas abriu caminho pata as gerações mais novas e foi fundamental para conquistar espaços significativos, como ter direito ao voto, escolher parceiros, viver sua sexualidade como bem entender, trabalhar, estudar e ter posições de comando. A lista a seguir traz alguns nomes capazes de representar tantas mulheres cuja trajetória foi fundamental para garantir direitos e, por que não, evidenciar o viés revolucionário do gênero feminino. Eles foram citados pelos pesquisadores Gabriel Pugliese, da Universidade de São Paulo (USP), Heloísa Buarque de Almeida, do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Universidade de Campinas (Unicamp), Jacira Melo, filósofa e diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, e a socióloga Bila Sorj, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


 
Bertha Lutz
 
Leila Diniz
 
Janete Clair
 


Simone de Beauvoir
Ela é obrigatoriamente o primeiro nome a ser citado por unanimidade. A razão disso é que não há nenhuma discussão sobre a condição feminina sem a referência aos seus pressupostos. “Ela iniciou um processo de reflexão teórica importante, de perceber que as diferenças de poder, de espaço e atuação entre homens e mulheres não decorrem da diferença sexual, mas sim da forma como a sociedade constrói e trata essas diferenças”, explica a pesquisadora Heloísa Buarque de Almeida. Beauvoir escreveu a obra definitiva sobre a condição das mulheres, O segundo sexo, em 1949. A obra virou o livro capital do movimento feminista e uma de suas frases célebres tornou-se uma espécie de grito de guerra: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Bertha Lutz
Feminista precursora na história brasileira, ainda que hoje alguns dos seus posicionamentos pareçam conservadores. Foi uma cientista brilhante, numa época em que as mulheres tinham menos acesso ainda às ciências. Depois se lançou na política a favor das mulheres e deu continuidade à trilha da qual fez parte Nísia Floresta, na luta pelos direitos das mulheres. Bertha foi uma personalidade fundamental para a discussão sobre o voto feminino e o voto secreto. Participou da comissão de elaboração do anteprojeto à Constituição de 1934.

Ela também foi candidata indicada para representar o movimento feminista na Câmara Legislativa Federal. Feministas, como a historiadora norte-americana June Hahner, consideram que Bertha Lutz contribuiu ao máximo para a modernização das relações de gênero numa sociedade autoritária, patriarcal e capitalista.

Carmem da Silva
Esqueça as revistas femininas que só falam de sexo e receitas de amor eterno. Mesmo no passado, havia publicações com conteúdo revolucionário. Durante 22 anos, a revista Cláudia trouxe a coluna A Arte de Ser Mulher, escrita pela jornalista Carmem da Silva. O posicionamento da colunista foi fundamental para propor novas concepções de sociedade. Muita gente não acreditava como aquela senhora distinta pudesse pregar o divórcio e a autonomia da mulher fora e dentro do espaço doméstico. “Ela contribuiu para que várias gerações dessem um salto na percepção de mulher”, analisa a filósofa Jacira Melo.

Betty Friedan
Autora de Mística feminina, Betty Friedan foi uma das feministas mais influentes de todos os tempos. Na época de seu lançamento, o livro se tornou best-seller nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que a imprensa o rejeitou. Qual a razão disso? Betty Friedan discutia a crise de identidade feminina, analisando minuciosamente a construção da imagem da mulher como a dona-de-casa perfeita, mãe e esposa. Ela também se tornou um dos principais desencadeadores da chamada segunda onda feminista que varreu o Ocidente. A idéia do livro surgiu em um encontro de ex-alunos do Smith College, no qual a feminista estudou. Ela comprovou que suas antigas colegas estavam insatisfeitas com a vida doméstica e que esse mal-estar não tinha relação com classe, idade, credo e etnia.

Nísia Floresta
Educadora, poetisa e escritora, teve 15 livros publicados ainda na primeira metade do século 19. Nísia Floresta foi uma defensora árdua dos direitos das mulheres. Sua obra, dividida em várias nuanças literárias, alcançou reconhecimento internacional. Seu primeiro livro, Direito das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, contesta a situação vivida pelas mulheres de seu tempo, com limitada formação escolar. Ela não é lembrada apenas como escritora, porque na verdade era uma ativista em tudo que resolvia fazer.

Leila Diniz
Faz parte do imaginário de brasileiros de várias gerações. Uma das imagens mais lembradas de Leila Diniz é a da atriz, de biquíni, grávida, em Ipanema. A atriz chocou as sociedades dos anos 1960 e 1970 por seu comportamento, suas declarações em entrevistas polêmicas como a publicada pelo jornal O Pasquim, em 1969. Na definição da diretora do Instituto Patrícia Galvão, Jacira Melo, ela é um “símbolo de busca de expressão e de liberdade da mulher. Profissional, mãe, alegre, triste, Leila tinha uma coisa inovadora. A cada atitude, ela se afirmava como mulher”, disse. “Uma mulher que sempre apareceu frente ao mundo e frente à sociedade como uma fortaleza, cheia de espontaneidade. Lembro dela na minha juventude. Ela fazia a maior diferença”, completa.

Janete Clair
No país em que novela é um espelho social, Janete Clair é nome praticamente obrigatório na lista de mulheres eternas. Ela foi uma das principais novelistas do país, com uma atuação primorosa que influencia a teledramaturgia brasileira até hoje. Ela buscava mostrar o papel positivo da igualdade entre homens e mulheres, além das relações de conflito, de lugar de poder em casa e em outros espaços sociais. Comunista de carteirinha, propunha mudanças na sociedade e não tratava a telenovela como mero entretenimento.

Pagu
Ela já foi cantada por Rita Lee e mais recentemente por Maria Rita. Mas será que todo mundo sabe quem foi Pagu? Patrícia Galvão, ou Pagu, é mais uma personagem feminina marcante do Brasil modernista em que intelectuais de várias áreas viam na arte uma possibilidade de expressão política. Escritora e jornalista atuante, Pagu é exemplo de defesa dos direitos humanos. Foi militante do Partido Comunista, tendo inclusive, em várias ocasiões, abdicado da vida privada e da família por determinação do partido. Ela também foi uma das mais conhecidas companheiras do escritor Oswald de Andrade, com quem teve um filho.

Marie Curie
A cientista Marie Curie, nascida em Varsóvia, Polônia, mas radicada na França, foi a primeira a cunhar o termo radiatividade. Primeira professora da Universidade da Sorbonne, dividiu o Nobel de física em 1903 e ganhou o de Química em 1911. Seu discurso durante a criação do Instituto de Radium, em Paris, em julho de 1914, hoje fala por ela. Veja um trecho: “Se as conquistas úteis à humanidade vos comovem; se ficais pasmados diante da telegrafia elétrica, da fotografia, da anestesia, e de tantas outras descobertas; se estais orgulhosos e conscientes da parte que cabe ao vosso país na conquista dessas maravilhas, tomai interesse, eu vos conjuro, por esses recintos sagrados que chamamos de laboratórios. Façais o possível para que eles se multipliquem. Eles representam os templos do futuro, da riqueza e do bem-estar social. É por intermédio deles que a humanidade melhora e cresce. É neles que o homem aprende a ler os segredos da natureza e da harmonia universal, enquanto as obras do homem são quase sempre obras de barbárie, de fanatismo e de destruição...”


Fadas, rainhas e santas

A socióloga mexicana Martha Robles, uma das mais destacadas escritoras contemporâneas do seu país, compilou uma série de nomes de mulheres, na sua avaliação, fundamentais para a história da humanidade. A lista compõe a obra Mujeres, mitos y diosas e é dividida em mulheres contemporâneas, personagens religiosas, mulheres lembradas nas origens do mundo até fadas, rainhas e mitos. Reais ou fictícias, Martha Robles lê a trajetória dessas mulheres como fatos vitais para a compreensão dos dilemas dos tempos atuais.

Das origens
Do judaísmo pós-bíblico à mitologia, Lilith é lembrada como a primeira mulher de Adão. Alguns historiadores definem Lilith como um ser alado e de cabelos longos, bastante semelhante à representação dos querubins. Outros a apresentam com caninos ferozes e dizem que seu marido é o próprio demônio. Absolutamente transgressora, Lilith não sucumbiu aos mandos de Adão e terminou o abandonando. A partir desse episódio, ela passou a ser vista como uma mulher ruim, traiçoeira e dada aos prazeres sexuais. Por fim, o próprio demônio. Na descrição de Martha Robles: “Lilith não é somente a abandonada, sem leito próprio, que viaja pelo mundo em busca de vingança com as mãos tingidas de sangue jovem; também representa a mulher suplantada por outra que lhe é inferior e submissa. A mão de Lilith é percebida nas brigas matrimoniais, nos desejos insatisfeitos, na separação dos casais, na emancipação frustrada e nos castigos que recaem sobre as mulheres que desafiam as normas sociais”.

As rainhas
Elizabeth I, protagonizada por Cate Blanchet em Elizabeth – a era de ouro, reinou na Inglaterra por 45 anos. Conhecida como “Rainha Virgem”, porque não casou nem teve filhos, ela é lembrada como uma monarca justa, solidária e contrária à guerra. Também porque lutou contra a tirania de Felipe da Espanha. Elizabeth defendeu o protestantismo do seu povo, assim como enfrentou os rebeldes católicos. Na descrição feita em primeira pessoa por Robles, Elizabeth I teria dito: “Escolhi meus ministros, os homens mais próximos ao trono, as vozes prudentes e, sobretudo, as personalidades mais fiéis com o mesmo cuidado com que se escolhem as coisas que mais apreciamos. É por isso que me chamam ‘a grande rainha’, porque cultivei o amor de meu povo através dos sucessos de grandes personalidades em todos os âmbitos sociais, inclusive o dos negócios. Sob a minha proteção floresceram as artes e ampliei o prestígio de minha nação, interna e externamente”.

Dos caminhos de Deus
A Virgem Maria faz parte do imaginário ocidental, cristão ou não. Não se sabe muito sobre a sua vida privada. Mas, além do Novo Testamento, a mãe de Jesus Cristo está rodeada de mistério. Na Espanha, contam cerca de 22 mil invocações diferentes. Ela também embala o maior de todos os mistérios do cristianismo: a maternidade sendo virgem. Maria é a mulher mais influente do Evangelho, determinando transformações reveladoras sobre seu ambiente tribal.

 
 

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§ 91% consideram muito grave o fato de mulheres serem agredidas pelos maridos e namorados

§ 30% acreditam que a violência contra a mulher dentro e fora de casa é o problema que mais preocupa

§ 90% acham que o agressor deveria ser processado e encaminhado para reeducação
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