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Presença feminina cresce na Internet


O Estado de S.Paulo, 03/03/08.
 

Estudo aponta que meninas adolescentes já produzem mais conteúdo online do que meninos da mesma idade

Stephanie Rosenbloon, The New York Times

O protótipo do gênio do computador na imaginação popular pálido, desajeitado e homem não se manteve à altura da sua reputação. Pesquisas mostram que entre os mais jovens usuários de Internet, os principais criadores de conteúdo para a rede (blogs e sites) não são mais como os Pistoleiros Solitários, personagens da série Arquivo X. Pelo contrário, os ciberpioneiros são meninas adolescentes, que vêm se mostrando muito efusivas nesse campo.

"Muitos garotos não tem paciência para esse tipo de coisa", disse Nicole Dominguez, 13 anos, cujos passatempos incluem o design de ícones, layouts, animações e de páginas para outras adolescentes no MySpace. "É realmente difícil." Nicole posta seus gráficos e seus próprios códigos para HTML e CSS (ela é autodidata) nas paginas rosa e violeta do Sodevious.net, que sua mãe comprou para ela em outubro. "Se você fizer uma pesquisa acho que vai perceber que os meninos raramente têm sites", disse. "Na maioria, são as meninas que possuem".

De fato, um estudo publicado em dezembro pela Pew Internet & American Life Project, concluiu que, dos usuários de internet entre 12 e 17 anos, um número significativamente maior de meninas têm seu blog (35% de garotas, comparados com 20% de meninos) e criam ou trabalham em suas próprias páginas (32% de meninas, frente a 22% de meninos).

As garotas também deixam os meninos para trás quando se trata de criar ou trabalhar em sites para outras pessoas e criar perfis em redes de relacionamento social (70% de garotas de 15 a 17 anos, frente a 57% de garotos). A publicação de vídeos é a única área em que os meninos superam as meninas: eles são quase o dobro em relação às suas contrapartes.

As explicações para esse desequilíbrio são quase tão variadas quanto as próprias garotas do espaço virtual. Entre as meninas há blogueiras que pontificam sobre os eternos problemas de adolescência como "professores maus", a sensação de estar sempre de castigo e aspiram se tornar futuras Marthas Stewarts empresárias cujas atividades online geram mais dinheiro do que trabalhar como baby-sitter durante o verão. "Fui a primeira podcaster adolescente a receber um importante patrocínio", disse Martina Butler, 17 anos, que durante três anos vem gravando um show de música independente, Emo Girl Talk, no sótão de sua casa. Seu primeiro patrocínio foi da Nature's Cure, um remédio contra espinhas.

A partir daí, diversas empresas, incluindo a Go Daddy, provedora de hospedagem e domínio na internet, pagaram para serem mencionadas nos podcasts de Martina, que são postados todos os domingos no site Emogirltakl.com.

"Realmente está crescendo", disse Martina, que aspira ser apresentadora de rádio e TV, radiante ao saber do estudo da Pew. "Não me surpreende porque as garotas são muito criativas, às vezes mais criativas do que os homens. Somos arrojadas. E os meninos..."(e ela pára por aí para concluir com uma risada).

Essa tendência de domínio feminino na área de criação de conteúdo surgiu há alguns anos. Um estudo da Pew publicado em 2005 concluiu que as adolescentes eram as principais criadoras de conteúdo. Mas a defasagem entre os dois sexos, particularmente em nos blogs, ampliou. Como o número de blogueiros adolescentes dobrou de 2004 para 2006, quase todo esse crescimento foi por causa da "atividade cada vez mais intensa das meninas", diz o estudo da Pew.

As conclusões da pesquisa têm implicações que vão além dos blogs, segundo a Pew, porque estes "têm mais probabilidade de se engajar em outras atividades de criação de conteúdo do que os adolescentes que não se dedicam a blogar".

Embora as garotas há anos venham tendo um desempenho superior aos dos meninos em leitura e escrita, segundo o Centro Nacional de Estatísticas em Educação, isso não se traduz automaticamente numa ânsia coletiva para criar um blog ou ter uma página no MySpace. Em vez disso, afirmam alguns desses estudiosos, as meninas vêm predominando na criação de conteúdo online porque ambos os sexos sofrem a influência das expectativas culturais.

"As meninas são treinadas para criar histórias sobre elas mesmas", disse Pat Gill, diretora interina do Instituto de Pesquisa em Comunicação na Universidade de Illinois. "Desde muito cedo elas aprendem que são objetos, de modo que aprendem como se descrever. Historicamente o que se espera é que elas sejam sociáveis, atuem em comunidades e sejam hábeis nas artes decorativas. "Os meninos, acrescentou, em geral são ensinados a "assumir posturas que não sejam confessionais nem emocionais".

Pesquisas da Faculdade de Direito de Harvard envolvendo grupos de discussão e entrevistas com jovens entre 13 e 22 anos indicaram que as práticas online das garotas tendem a envolver o seu desejo de se expressarem, e de colocar à mostra especialmente sua originalidade. "No caso das meninas, é como elas se expressam para os outros, da mesma maneira que usam determinadas roupas para ir à escola", disse John Palfrey da universidade. "Isso está associado a uma expressão da identidade no mundo real".

Esse desejo fica mais evidente quando as meninas criticam imitadores online, que basicamente roubam seus gráficos e papéis de parede para páginas na internet (ligando à imagem de outra pessoa, de modo que eles aparecem na página dessa pessoa na web). Isso é o equivalente digital a alguém chegar numa festa usando o mesmo vestido que uma outra garota, disse o professor Palfrey.

Embora a criação de conteúdo permita às meninas aprenderem como desejam se apresentar para o mundo, elas também estão, obviamente, interessadas em manter e forjar relacionamentos.Quando Lauren Renner, 16 anos, estava no quinto ano, ela e sua amiga, Sarada Cleary, hoje com 14, começaram a escrever sobre as suas vidas no Agirlsworld.com, site interativo de jovens com artigos escritos por e para meninas.

"Garotas de todas as partes liam e perguntavam sobre como deviam resolver um problema", disse Lauren. ""Acho que as meninas gostam de ajudar quando outras pessoas têm problemas, algo do tipo maternal".

Hoje Lauren e Sarada estão entre as mais de mil meninas que regularmente fornecem conteúdo para Agirlsworld. Elas conseguem um dinheiro extra escrevendo artigos online e imaginando atividades para as férias, como também receitas para o café do Dia das Mães, que são postadas nos sites. "Na escola existe apenas um certo tipo de pessoas", disse Sarada. "Online você pode entrar em contato com outras culturas."

A única área em que os meninos superam as meninas é na postagem de vídeos. Não porque as meninas não sejam usuárias capacitadas da tecnologia, disse o professor Palfrey. Segundo ele, isso, com freqüência, têm a ver menos com a expressão pessoal e mais com o desejo de impressionar os outros. É a maneira ideal para membros de uma subcultura, dos skatistas, dos praticantes de snowboard, demonstrar sua capacidade atlética, disse ele.

Para Zach Saltzman, 17 anos, de Memphis, a criação de conteúdo entre seu círculo de amigos significa apenas um perfil no Facebook e a postagem de vídeos de jogos e filmes no YouTube. "Na verdade nunca pensei em criar meu próprio website", disse ele.

"Nunca me interessou e não tenho tempo para ficar acompanhando. "Indagado se achava exatas as conclusões da pesquisa da Pew, Zach respondeu que "é o que estou vendo acontecer".

 

Pesquisa Ibope
 
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