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Mulheres-política: Sem igualdade, a democracia é incompleta
 

Por Miriam Mannak, da IPS

Cidade do Cabo, 17/04/2008 – As mulheres mudam as prioridades e, às vezes, a tonalidade dos congressos legislativos do mundo. Mas, a quantidade de deputadas e senadoras aumenta a passo lento, segundo o último estudo da União Interparlamentar (UIP). Em 1975, quando aconteceu a primeira Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Mulher, no México, 11% das cadeiras nos parlamentos unicamerais ou das câmaras baixas dos corpos legislativos estavam ocupados por legisladoras. Os parlamentos não avançaram muito desde então. Em 2008, apenas 18% dos legisladores do mundo são mulheres, muito abaixo dos 30% considerados necessários para que elas possam incidir na condução dos assuntos parlamentares.

É claro que a representação eqüitativa nesse âmbito é “um ideal, não uma realidade”, diz o informe “Equidade em política: Pesquisa de mulheres e homens nos parlamento”. O estudo analisa o assunto por vários ângulos, com base em entrevistas feitas com cerca de 300 parlamentares, dos quais 40% homens, de 110 países, paralelas à pesquisa “Política: Perspectiva de Mulheres”, publicada em 2000. “Equidade em política” foi divulgado na 118ª assembléia da UIP, organizaçao que reúne os parlamentos do mundo. A reunião começou no domingo e terminará amanhã.

A limitada representação de mulheres nos corpos legislativos deve se contrapor com tendências nacionais e regionais mais promissoras, diz o informe. Houve avanços na África e Ásia, onde as mulheres ocupam 17% das cadeiras das assembléias legislativas. Ruanda é um exemplo mundial, com 49% de mulheres na câmara baixa. Entre as nações onde as mulheres têm mais de 30% das cadeiras parlamentares a metade pertence ao Sul em desenvolvimento. “As nações em desenvolvimento e emergentes fizeram avanços importantes, nas assim chamadas velhas democracias”, disse o secretário-geral da UIP, Anders Johnsson. Mas, em geral, “apenas uma pequena proporção das mulheres que poderiam ser candidatas consideram se candidatar”, afirma o documento.

Os entrevistados consideram a falta de apoio dos eleitores como o principal fator que dissuade os homens de se dedicarem à política. No caso das mulheres, são as responsabilidades domésticas. Uma em cada três legisladoras entrevistadas não tem encargos familiares e possuem mais que o dobro de probabilidades que os homens de serem solteiras. “Em muitos países, especialmente na África, meninos e meninas são educados de maneira distinta. Os rapazes aprendem que é certo não lavar os pratos porque isso cabe à sua irmã fazer”, disse a vice-presidente da Assembléia Nacional da África do Sul, Gwendoline Mahlangu-Nikabinde.

Pediu-se aos entrevistados que propusessem medidas para fazer com que mais mulheres sejam eleitas. Entre as respostas se destaca a necessidade de mudar a percepção do lugar que elas ocupam na sociedade por meio de programas de educação e considera a implementação de creches para ajudar as mulheres a seguirem suas aspirações políticas. Também foram mencionadas várias possibilidades para que elas superem as diversas dificuldades que enfrentam no financiamento de suas campanhas eleitorais. O estudo destaca a utilidade em fixar cotas de mulheres nos corpos legislativos, e que os sistemas eleitoras de representação proporcional permitam a eleição de mais parlamentares do que os baseados em circunscrições.

Mas os entrevistados mostraram preocupação com o fato de as candidatas ocuparem um lugar nas listas partidárias que lhes permita chegar ao parlamenta. “Muitos partidos não têm regras claras em matéria de seleção de candidatos”, diz o informe. “Isso é importante, porque se o procedimento não é explícito, os candidatos acabam sendo designados pelos dirigentes partidários, que costumam ser homens”, diz o estudo. “Os partidos políticos costumam ser entidades fechadas e muitos mantêm redes de veteranos que dificultam a inserção das mulheres nas elites, explica. Não é apenas a sociedade e a estrutura parlamentar que deve se adaptar e evoluir para abrir espaço às mulheres. Os partidos políticos também devem questionar seu funcionamento”, disse Johnsson.

Alguns dos entrevistados para o estudo disseram que homens e mulheres parecem compartilhar certas prioridades política. Mas foram muitos mais os que destacaram as diferenças. Entre os assuntos de interesse das legisladoras figuram o alívio da pobreza, as aposentadorias, os direitos reprodutivos, o cuidado com as crianças e a violência de gênero. “A luta contra a violência de gênero é uma área em que as legisladoras de todo o mundo fizeram sentir sua presença”, diz o documento.

“As mulheres compreendem as necessidades de seus pares, conhecem os desafios que adultas e meninas devem enfrentar e entendem as conseqüências que esses desafios têm em suas vidas”, disse Yassina Fall, economista e assessora do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem). “Elas se dão conta de que, quando se dá poder às mulheres, se dá poderes à sociedade”, acrescentou. Poucos homens responderam que são necessárias mulheres, muitas mulheres, para que os parlamentos se concentrem nas necessidades da população”, concordou Johnsson.

As legisladoras parecem encabeçar assuntos de relevância para as mulheres, mas não são suas únicas preocupações, destaca o estudo. As legisladoras podem experimentar dificuldades na hora de traduzir suas prioridades em mudanças políticas. Isso se deve à indiferença dos partidos governantes ou ao fato de sua limitada presença nas assembléias legislativas impedir que participem das comissões parlamentares que estudam as leis. “As mulheres ficam fora das discussões por não poderem participar fisicamente ou por estarem sobrecarregadas com o trabalho da comissão, o que implica que não podem se dedicar à essa instancia tempo suficiente nem à investigação que requere”, diz o informe.

Entre as conclusões do estudo “Equidade em política” destaca-se a necessidade de uma mudança substancial em matéria de representação feminina nos corpos legislativos. “Homens e mulheres devem acordar e reconhecer que a inclusão e a participação eqüitativa nos processos parlamentares não só beneficia as sociedades, mas também é necessário para legitimar a democracia”. Nas palavras de uma legisladora irlandesa citada no estudo, “nossa democracia está inacabada pela ausência de mulheres nos processos de decisão”. (IPS/Envolverde)

(Envolverde/IPS)

 

Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher
 
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram que as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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