Maioria acha que mulheres podem melhorar a política
|
Maior aceitação da presença
feminina deve-se à gestão Lula e a figuras de destaque
internacional, diz analista |
Carlos Marchi
Existe um
amplo espaço na política para ser ocupado pelas mulheres: 67% dos
brasileiros acham que uma presença mais forte do público feminino
melhoraria o nível da política no País, segundo pesquisa Estado/Ipsos.
Num cenário de decepção com os rumos políticos, 58% dos eleitores
brasileiros acham que a participação da mulher na política é “menor do
que deveria ser”. Em universo similar, 57% dizem que já votaram em
alguma candidata. “Nas eleições municipais de 2008 as mulheres terão uma
chance especial”, afirma a analista de pesquisas Fátima Pacheco Jordão.
Há um processo de maturação em curso, constata ela, apontando para a
gradual aceitação das mulheres no topo do poder. Esse fenômeno, segundo
Fátima, é resultado de duas influências. Uma, a atribuição de muitos
cargos de poder às mulheres pelo governo Lula; outra, o destaque de
mulheres que disputam e, em alguns casos, ganham o poder em seus países,
como as presidentes Michelle Bachelet, no Chile, Cristina Kirchner, na
Argentina, e a primeira-ministra Angela Merkel, na Alemanha. Mas a
influência maior vem da candidata Hillary Clinton, nos Estados Unidos.
A lenta redução do velho preconceito tem, também, uma importante razão,
destaca Fátima: o desencanto com as representações políticas dominadas
pelos homens nos três Poderes . A pesquisa revelou, no entanto, pontos
que mostram aspectos preservados do preconceito. Se 68% dos brasileiros
rechaçam o velho chavão de que “política é coisa pra homem”, 31% dos
eleitores do País, quase um terço do eleitorado, ainda endossam o velho
ditado e formam o epicentro do grupo de rejeição às mulheres na
política.
O VOTO NELAS
Votar ou não numa mulher, para o eleitor brasileiro, depende do nível do
cargo: 80% votariam numa mulher para vereadora, mas o porcentual se
reduz para cargos mais importantes: 78% votariam numa mulher para
prefeita; 76%, para deputada estadual; 75%, para deputada federal; 73%,
para senadora; 72%, para governadora de Estado; e, finalmente, 69%, para
presidente da República. Ao revés, 19% ainda negam o voto a uma mulher
candidata a vereadora e 30% dizem que não votariam numa mulher para
presidente.
O cenário coletado pela pesquisa mostra um espaço potencialmente vazio
entre os 57% que disseram já ter votado numa mulher e os 69% que admitem
votar numa candidata a qualquer cargo, de vereadora a presidente. “Há
uma faixa de tolerância que é maior do que a prática eleitoral já
provada. Há eleitores que nunca votaram numa mulher, mas que se dispõem
a fazê-lo”, constata Fátima.
Para ela, a pesquisa demonstra que o País não está inteiramente maduro
para aceitar a plena participação da mulher na política, mas há
elementos que apontam para uma progressiva superação do preconceito.
“Muitas barreiras foram vencidas”, diz Fátima, “mas ainda existem
eleitores que não votam numa candidata simplesmente porque ela é
mulher.”
MAIS HONESTA
Acima de todos os preconceitos, os eleitores brasileiros - homens e
mulheres - acham que na política a mulher é mais honesta que o homem:
enquanto 43% não distinguem gêneros e acham que o grau de honestidade é
igual entre políticos homens e mulheres, 48% entendem que a mulher é
mais honesta que o homem e só 6% pensam que o homem é mais honesto.
Importante: 44% dos homens acham que a mulher é mais honesta. “Se
pedirmos ao eleitor para citar dez personalidades envolvidas com
corrupção na política, dificilmente aparecerá um nome de mulher nessa
lista”, explica Fátima.
Talvez porque mulheres ainda não ocupem espaços expressivos no comando
do poder, ressalva ela. Mas a percepção do eleitor também premia a
competência da mulher: 49% acham que o nível de competência é o mesmo
entre homens e mulheres, mas 35% afirmam que a mulher é mais competente
e apenas 14% premiam os homens no quesito. Como tradicionalmente a
mulher ocupa poucos espaços de poder, essa concepção só pode vir de uma
projeção do estereótipo de gênero - a mulher como gestora da prole e da
casa - sobre o estereótipo do poder, diz Fátima.
A especialista diz que a pesquisa mostra um cenário que favorece as
mulheres nas eleições municipais de 2008, até porque estarão em disputa
os cargos de menor importância na hierarquia do Estado brasileiro -
prefeitos e vereadores - e que, por isso, se situam num arco maior de
tolerância à participação da mulher.
A pesquisa ouviu 1.000 eleitores numa amostra representativa do
eleitorado, entre 11 e 17 de dezembro, com margem de erro de 3 pontos
porcentuais.
Políticas reclamam que têm pouco espaço
Senadora aponta bloqueio; Erundina
critica machismo
A
bênção do eleitorado se justifica. As mulheres não apenas acham que
talvez possam melhorar o Brasil - elas têm certeza. Quase unânimes, elas
fazem coro com o eleitorado: o Brasil será melhor se for comandado por
mulheres. “O mundo é comandado pelas gravatas”, protesta a escritora
Nélida Piñon. “As mulheres no poder reduziriam a corrupção”, assegura a
atriz Beatriz Segall, concordando com a manifestação popular.
Uma lei obriga os partidos brasileiros a dedicarem 30% das vagas a que
têm direito em cada eleição a candidatas mulheres. Mas o mundo político
tem outra dimensão. No Senado, elas são 10, em 81 vagas (12,3%); na
Câmara, são 45, em 513 deputados (8,8%). Uma mulher nunca participou da
Mesa Diretora da Câmara nem nunca presidiu as mais importantes comissões
técnicas Casa, a de Constituição e Justiça e a de Economia.
DISTANTE DO PODER
O governo Lula aumentou o número de mulheres dirigindo ministérios e
secretarias, mas nos dois casos a deputada Luíza Erundina (PSB-SP)
atesta que a idéia central é manter a mulher longe do poder real:
“Tirando a Dilma (Rousseff, chefe da Casa Civil), vai olhar o orçamento
das outras”, exclama.
Tem mais. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) denuncia que as poucas
mulheres que chegam ao Congresso enfrentam uma barreira invisível: são
sempre tangidas para áreas dos “assuntos de mulher” - questões
femininas, dos jovens e da infância, educação. “Duro é entrar no debate
que interessa, a discussão dos temas econômicos”, constata Kátia, que
conseguiu furar o bloqueio e foi relatora da medida provisória que
prorrogava a CPMF.
A ascensão das mulheres tem dois fortes estímulos, explica a
historiadora Mary del Priore, da USP: “De um lado, os Legislativos
horrendos que temos; de outro, o exemplo que vem de fora.” Ela entende
que, diante do “papelão” dos políticos homens, o povo está olhando para
a mulher, que historicamente cumpre o papel de mãe e de controle da
casa. “Daí para entregar-lhe em caráter quase messiânico o posto de mãe
de todos e de gestora da grande casa, o Estado, é um pulo.”
Quando passou a disputar o mercado de trabalho e o espaço político, a
mulher não abandonou o seu papel de gestora da casa e da prole,
complementa a deputada Maria do Rosário (PT-RS), que luta dentro do seu
partido para sair candidata a prefeita de Porto Alegre. Essa missão
histórica é que gera a expectativa da sociedade de que, na vida
política, ela será mais dedicada. A honestidade vem daí, diz Rosário: “A
mulher se doa. Se tem pouco alimento à mesa, ela não será a primeira a
comer.”
Mas é sempre mais difícil para a mulher lutar pela ocupação dos espaços
políticos: “O homem é educado para ocupar os espaços públicos e a mulher
é treinada para ocupar os espaços privados”, diz Erundina. Nélida vai na
mesma toada: “A mulher é treinada para manter-se reclusa e exercitar a
pequena moral familiar é que a faz íntegra.” Mas Beatriz acredita que
aos poucos o preconceito vai se reduzindo e o País se tornará mais
maduro.
Erundina se queixa, ainda hoje, de que os caciques do PT lhe deram pouco
apoio em 1988: “Lula nem foi à minha posse.” O passado da ex-prefeita
atesta uma reclamação atual de Rosário: os partidos de esquerda são tão
machistas quanto os de direita. No entanto, a presença da mulher na
política é essencial para colorir a democracia, atalha a ex-deputada
Denise Frossard (PPS), agora candidata à prefeitura do Rio.
“A mulher tem outra percepção das coisas. E tem uma vantagem: no mundo
inteiro, participa da política sem se envolver muito com a corrupção”,
diz. Ela reconhece que a mulher, às vezes, não sabe fazer o jogo do
poder. “Um homem diz que vai fazer o metrô até a lua. Já a mulher não
tem coragem de fazer demagogia.”
|