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Maioria acha que mulheres podem melhorar a política
 

O Estado de S.Paulo, 13/01/08.
 
Maior aceitação da presença feminina deve-se à gestão Lula e a figuras de destaque internacional, diz analista

Carlos Marchi

Existe um amplo espaço na política para ser ocupado pelas mulheres: 67% dos brasileiros acham que uma presença mais forte do público feminino melhoraria o nível da política no País, segundo pesquisa Estado/Ipsos. Num cenário de decepção com os rumos políticos, 58% dos eleitores brasileiros acham que a participação da mulher na política é “menor do que deveria ser”. Em universo similar, 57% dizem que já votaram em alguma candidata. “Nas eleições municipais de 2008 as mulheres terão uma chance especial”, afirma a analista de pesquisas Fátima Pacheco Jordão.

Há um processo de maturação em curso, constata ela, apontando para a gradual aceitação das mulheres no topo do poder. Esse fenômeno, segundo Fátima, é resultado de duas influências. Uma, a atribuição de muitos cargos de poder às mulheres pelo governo Lula; outra, o destaque de mulheres que disputam e, em alguns casos, ganham o poder em seus países, como as presidentes Michelle Bachelet, no Chile, Cristina Kirchner, na Argentina, e a primeira-ministra Angela Merkel, na Alemanha. Mas a influência maior vem da candidata Hillary Clinton, nos Estados Unidos.

A lenta redução do velho preconceito tem, também, uma importante razão, destaca Fátima: o desencanto com as representações políticas dominadas pelos homens nos três Poderes . A pesquisa revelou, no entanto, pontos que mostram aspectos preservados do preconceito. Se 68% dos brasileiros rechaçam o velho chavão de que “política é coisa pra homem”, 31% dos eleitores do País, quase um terço do eleitorado, ainda endossam o velho ditado e formam o epicentro do grupo de rejeição às mulheres na política.

O VOTO NELAS

Votar ou não numa mulher, para o eleitor brasileiro, depende do nível do cargo: 80% votariam numa mulher para vereadora, mas o porcentual se reduz para cargos mais importantes: 78% votariam numa mulher para prefeita; 76%, para deputada estadual; 75%, para deputada federal; 73%, para senadora; 72%, para governadora de Estado; e, finalmente, 69%, para presidente da República. Ao revés, 19% ainda negam o voto a uma mulher candidata a vereadora e 30% dizem que não votariam numa mulher para presidente.

O cenário coletado pela pesquisa mostra um espaço potencialmente vazio entre os 57% que disseram já ter votado numa mulher e os 69% que admitem votar numa candidata a qualquer cargo, de vereadora a presidente. “Há uma faixa de tolerância que é maior do que a prática eleitoral já provada. Há eleitores que nunca votaram numa mulher, mas que se dispõem a fazê-lo”, constata Fátima.

Para ela, a pesquisa demonstra que o País não está inteiramente maduro para aceitar a plena participação da mulher na política, mas há elementos que apontam para uma progressiva superação do preconceito. “Muitas barreiras foram vencidas”, diz Fátima, “mas ainda existem eleitores que não votam numa candidata simplesmente porque ela é mulher.”

MAIS HONESTA

Acima de todos os preconceitos, os eleitores brasileiros - homens e mulheres - acham que na política a mulher é mais honesta que o homem: enquanto 43% não distinguem gêneros e acham que o grau de honestidade é igual entre políticos homens e mulheres, 48% entendem que a mulher é mais honesta que o homem e só 6% pensam que o homem é mais honesto. Importante: 44% dos homens acham que a mulher é mais honesta. “Se pedirmos ao eleitor para citar dez personalidades envolvidas com corrupção na política, dificilmente aparecerá um nome de mulher nessa lista”, explica Fátima.

Talvez porque mulheres ainda não ocupem espaços expressivos no comando do poder, ressalva ela. Mas a percepção do eleitor também premia a competência da mulher: 49% acham que o nível de competência é o mesmo entre homens e mulheres, mas 35% afirmam que a mulher é mais competente e apenas 14% premiam os homens no quesito. Como tradicionalmente a mulher ocupa poucos espaços de poder, essa concepção só pode vir de uma projeção do estereótipo de gênero - a mulher como gestora da prole e da casa - sobre o estereótipo do poder, diz Fátima.

A especialista diz que a pesquisa mostra um cenário que favorece as mulheres nas eleições municipais de 2008, até porque estarão em disputa os cargos de menor importância na hierarquia do Estado brasileiro - prefeitos e vereadores - e que, por isso, se situam num arco maior de tolerância à participação da mulher.

A pesquisa ouviu 1.000 eleitores numa amostra representativa do eleitorado, entre 11 e 17 de dezembro, com margem de erro de 3 pontos porcentuais.

Políticas reclamam que têm pouco espaço

Senadora aponta bloqueio; Erundina critica machismo

A bênção do eleitorado se justifica. As mulheres não apenas acham que talvez possam melhorar o Brasil - elas têm certeza. Quase unânimes, elas fazem coro com o eleitorado: o Brasil será melhor se for comandado por mulheres. “O mundo é comandado pelas gravatas”, protesta a escritora Nélida Piñon. “As mulheres no poder reduziriam a corrupção”, assegura a atriz Beatriz Segall, concordando com a manifestação popular.

Uma lei obriga os partidos brasileiros a dedicarem 30% das vagas a que têm direito em cada eleição a candidatas mulheres. Mas o mundo político tem outra dimensão. No Senado, elas são 10, em 81 vagas (12,3%); na Câmara, são 45, em 513 deputados (8,8%). Uma mulher nunca participou da Mesa Diretora da Câmara nem nunca presidiu as mais importantes comissões técnicas Casa, a de Constituição e Justiça e a de Economia.

DISTANTE DO PODER

O governo Lula aumentou o número de mulheres dirigindo ministérios e secretarias, mas nos dois casos a deputada Luíza Erundina (PSB-SP) atesta que a idéia central é manter a mulher longe do poder real: “Tirando a Dilma (Rousseff, chefe da Casa Civil), vai olhar o orçamento das outras”, exclama.

Tem mais. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) denuncia que as poucas mulheres que chegam ao Congresso enfrentam uma barreira invisível: são sempre tangidas para áreas dos “assuntos de mulher” - questões femininas, dos jovens e da infância, educação. “Duro é entrar no debate que interessa, a discussão dos temas econômicos”, constata Kátia, que conseguiu furar o bloqueio e foi relatora da medida provisória que prorrogava a CPMF.

A ascensão das mulheres tem dois fortes estímulos, explica a historiadora Mary del Priore, da USP: “De um lado, os Legislativos horrendos que temos; de outro, o exemplo que vem de fora.” Ela entende que, diante do “papelão” dos políticos homens, o povo está olhando para a mulher, que historicamente cumpre o papel de mãe e de controle da casa. “Daí para entregar-lhe em caráter quase messiânico o posto de mãe de todos e de gestora da grande casa, o Estado, é um pulo.”

Quando passou a disputar o mercado de trabalho e o espaço político, a mulher não abandonou o seu papel de gestora da casa e da prole, complementa a deputada Maria do Rosário (PT-RS), que luta dentro do seu partido para sair candidata a prefeita de Porto Alegre. Essa missão histórica é que gera a expectativa da sociedade de que, na vida política, ela será mais dedicada. A honestidade vem daí, diz Rosário: “A mulher se doa. Se tem pouco alimento à mesa, ela não será a primeira a comer.”

Mas é sempre mais difícil para a mulher lutar pela ocupação dos espaços políticos: “O homem é educado para ocupar os espaços públicos e a mulher é treinada para ocupar os espaços privados”, diz Erundina. Nélida vai na mesma toada: “A mulher é treinada para manter-se reclusa e exercitar a pequena moral familiar é que a faz íntegra.” Mas Beatriz acredita que aos poucos o preconceito vai se reduzindo e o País se tornará mais maduro.

Erundina se queixa, ainda hoje, de que os caciques do PT lhe deram pouco apoio em 1988: “Lula nem foi à minha posse.” O passado da ex-prefeita atesta uma reclamação atual de Rosário: os partidos de esquerda são tão machistas quanto os de direita. No entanto, a presença da mulher na política é essencial para colorir a democracia, atalha a ex-deputada Denise Frossard (PPS), agora candidata à prefeitura do Rio.

“A mulher tem outra percepção das coisas. E tem uma vantagem: no mundo inteiro, participa da política sem se envolver muito com a corrupção”, diz. Ela reconhece que a mulher, às vezes, não sabe fazer o jogo do poder. “Um homem diz que vai fazer o metrô até a lua. Já a mulher não tem coragem de fazer demagogia.”

 

Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher
 
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram que as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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Pesquisa Ibope
 
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão

§ 91% consideram muito grave o fato de mulheres serem agredidas pelos maridos e namorados

§ 30% acreditam que a violência contra a mulher dentro e fora de casa é o problema que mais preocupa

§ 90% acham que o agressor deveria ser processado e encaminhado para reeducação
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