» Capa » Mulheres e Poder

Mulheres ainda ficam de fora
 

O Tempo (MG), 21/07/08.

Participação feminina é tabu e políticas reclamam do preconceito

MARIANA LARA

O número de candidatas a prefeita não cresceu de 2004 para 2008. O fato é analisado pelas próprias candidatas como resultado da permanência do preconceito em relação às Mulheres na política. São 26 pretendentes ao cargo de chefe do Executivo nas capitais brasileiras - exatamente o mesmo número registrado em 2004. Em sete capitais houve queda no número de Mulheres na disputa pela prefeitura e em oito, a quantidade se manteve a mesma. Em seis delas, houve um pequeno aumento.

Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, conta com quatro candidatas à prefeitura, o que pode ser considerado uma exceção - a maioria das outras capitais conta em média com duas concorrentes. Em 2004, era apenas uma candidata. Na cidade que concentra o maior eleitorado do Brasil, São Paulo, o número passou de quatro para três - movimento contrário ao de Porto Alegre.

Para a vereadora Soninha Francine (PPS), candidata à Prefeitura de São Paulo, a pequena participação de Mulheres na política é um fator cultural. Ela explica que as Mulheres são participativas, mas não conseguem transformar a participação em representação política. "A imagem da política como algo masculino ainda está muito cristalizada. Assim, para começar, você tem muitas Mulheres que, mesmo sendo muito atuantes e exercendo papéis de liderança, não se vêem disputando um cargo eletivo. Ou seja, ainda é difícil ter candidatas em número significativo. Os homens se oferecem em número muito maior."

A candidata paulistana ainda questiona a visão que a sociedade tem da mulher que é política. "Por estar na política e ser este um meio tão masculino, a mulher é vista um pouco como ‘heroína’, alguém especial, valente, ungido com superpoderes. Por outro lado, alguém que a qualquer momento pode ser tapeado, deixado para trás, porque continua sendo uma mulher e, por isso, mais frágil. Não sei se a famosa sensibilidade feminina é mais valorizada do que as qualidades que, supostamente, são mais masculinas", analisa. Para Soninha, o problema é que os homens não aceitam que a mulher tenha poder sobre eles. "Mulher pode ser mãe, professora, enfermeira, psicóloga. Mas o poder sobre outros homens, por incrível que pareça, ainda é tabu."

Jô Moraes, candidata do PCdoB à Prefeitura de Belo Horizonte, também demonstra preocupação quanto à participação feminina em cargos eletivos. Ela lembra que em países vizinhos e na Europa já há uma mudança de comportamento. "Na América Latina, temos dois países governados por mulheres. Argentina e Chile são bons exemplos a serem seguidos. Na Europa, onde o pensamento machista também ainda é forte, temos a premiê alemã. Mas ainda há muito o que mudar no Brasil. Mulher no poder político, principalmente no Executivo, ainda é uma situação recente e sofre preconceito."

Para a deputada federal Jô Moraes a sociedade tem um olhar peculiar sobre a mulher. A sensibilidade feminina citada por Soninha Francine, para Jô, pode ser um fator a favor nas campanhas eleitorais. "A mulher é tida culturalmente como aquela que cuida dos filhos, dos doentes e da casa. Então, na administração, o que se espera da mulher política é que ela cuide. Que ela tenha essa preocupação, por ser mais humana que o homem."

A deputada federal Luciana Genro (PSOL), candidata à Prefeitura de Porto Alegre (RS), não vê diferença em relação à sensibilidade. "Tem Mulheres que são mais sensíveis aos aspectos sociais, mas há muitos homens também que têm este tipo de preocupação e prioridade em suas administrações. Existe uma tendência, mas temos exemplos de Mulheres que não tiveram administrações de cunho social e são bons exemplos na área."

Campanha com jeito feminino

A defesa pelos direitos da mulher na política está presente no trabalho e nos discursos das candidatas. Em seus sites pessoais e de campanha, a feminilidade está presente na maioria. A deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), por exemplo, destaca o ‘ela’ de seu nome e mantém um site na cor rosa, símbolo das meninas. Nem por isso, deixa a desejar nos conteúdos que insere nele, todos bastante atuais e em dia com a cena política brasileira.

Já a vereadora Soninha Francine (PPS-SP) e as deputadas federais Maria do Rosário (PT-RS) e Jô Moraes (PCdoB-MG) têm as suas mascotes. São caricaturas delas desenhadas como garotinhas. Mesmo com a manutenção da feminilidade no trabalho político, as candidatas propõem a igualdade social para alcançarem mais espaço.

Para Soninha Francine, a mudança deve ser social e humanizante. Para ela, é preciso incentivar a participação. “Não há nada melhor que aproximar a política das pessoas de modo geral porque o grande problema hoje é o desinteresse, o desencanto, o desprezo. Se for oferecida educação política para as pessoas, de modo que elas entendam o que é, como funciona, elas se sentirão mais interessadas e estimuladas a participar. Se a política for desmistificada, se demonstrarmos que políticos não são ‘eles’, personagens estereotipados, mas sim qualquer pessoa que se disponha a tomar parte, poderá haver uma renovação e diversificação. E isso inevitavelmente incluirá as mulheres”, prega.

A gaúcha Luciana Genro, que disputa a Prefeitura de Porto Alegre pelo PSOL, propõe que a mudança comece dentro de casa, entre os familiares. “O preconceito começa na própria família, com a criação dos pais. O que é normal porque a mulher com vida política é recente no Brasil. Mas é mudando na educação em casa que as oportunidades vão aparecendo do lado de fora. Hoje já temos Mulheres com carreira política que recebem apoio dos maridos para cuidar dos filhos e nos afazeres de casa. E é dando este tipo de exemplo que vamos modificando a sociedade e a participação política no nosso país”. (ML)

União no Sul do país

A eleição em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, é uma comprovação da união entre as Mulheres que desafiam um forte candidato – o prefeito José Fogaça (PPS), que tenta a reeleição. Quatro candidatas disputam: Luciana Genro (PSOL), Vera Guasso( PSTU), Manuela D’Ávila (PCdoB), e Maria do Rosário (PT).

Luciana Genro diz que a disputa na capital gaúcha ficou mais inusitada, com quatro Mulheres na disputa. “É raro acontecer algo assim. É bom repetir em outras capitais”. (ML)

 

Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher
 
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram que as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
Leia mais

 
 
 
Instituto Patrícia Galvão - Comunicação e Mídia
Av. Brig. Luiz Antonio, 2050 - cj. 141 - ala B - CEP 01318-002 - São Paulo/SP
Fones: (11) 3266.5434 / 3285.4951 e-mail: ipgalvao@uol.com.br
Apoios: Instituto Avon - CCR - Fundação Ford - Global Fund for Women - IWHC - UNIFEM