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Seminário Nacional

Rio de Janeiro, 22 e 23 de setembro de 2007

Interatividade e participação: as mulheres rumo ao protagonismo nas novas TICs e mídas
Mudança de paradigma marca mídia mundial

Denise Gomide

Dia 23 de setembro (domingo)

14h - Mesa 4
As Mulheres e as Novas Fronteiras da Mídia

Interatividade; retorno instantâneo; acessibilidade; notícia-cidadã
Caio Túlio Costa – Jornalista / Presidente do IG
Magaly Pazello – Consultora em gênero e TICs / Emerge
Debatedora: Beatriz Barbosa – Jornalista / Intervozes
Coordenadora: Mafoane Odara P.Santos – Psicóloga / Área de Juventude da Ashoka Empreendedores Sociais

 

Novas tecnologias da informação e da comunicação (TICs), novas mídias, sociedade da informação, interatividade, caminhos para a participação. Mas também novas formas de disputas de poder. Estes foram alguns dos temas que animaram as complexas exposições e os debates da mesa As Mulheres e as Novas Fronteiras da Mídia – coordenada pela psicóloga e integrante da Área de Juventude da Ashoka Empreendedores Sociais, Mafoane Odara P. Santos –, que fechou o Seminário A Mulher e a Mídia 4.

Nessas novas fronteiras está em curso uma grande mudança de paradigma na mídia: a comunicação, que antes era unidirecional, passa a ser interativa, bidirecional, multidirecional. O que está relacionado, como mostrou o jornalista e presidente do IG, Caio Túlio Costa, com a entrada de um lado para o outro, de um centro de poder para o/a consumidor/a daquela comunicação.

Isso ocorre não apenas nas chamadas novas mídias e nem somente em função do colapso das mídias tradicionais, como apontou o jornalista. “Isto também está ocorrendo em função da emergência da tecnologia, de como as pessoas passaram a se relacionar depois de uma mudança muito importante na comunicação, que tende a ser cada vez o que se chama de “pervasiva” – uma tradução do termo em inglês pervasivo (difundido)–  e que estará cada vez mais no dia-a-dia das pessoas.

Concentração e dispersão
Entretanto, nesse cenário há fatores centrais a se considerar. Por exemplo, segundo a análise do presidente do IG, simultaneamente a “uma desagregação brutal da esfera pública”, em que conceitos e instituições sólidas se desagregam, há uma grande concentração econômica dos meios de comunicação. Se nos anos 1980 existiam cerca de 300 grandes empresas de comunicação no mundo, informou, na década de 1990 elas se reduzem a 27 e, no começo deste século, passam a ser apenas sete as grandes empresas de comunicação, que faturam bilhões de dólares, com quase 43% do faturamento de quase todas as empresas de comunicação do mundo.

Em torno dessas sete, há cerca de 70 empresas-satélites, que ou produzem conteúdos relacionados a elas, ou compram seus conteúdos, todas já localizadas espacialmente no Brasil. E são as empresas-satélites das grandes corporações de comunicação que se fundam cada vez mais na dispersão, ponderou o jornalista, “pois quanto mais dispersa a audiência – o/a telespectador/a, o/a internauta, o/a ouvinte –, mais se concentra a indústria da comunicação.”

Novas fronteiras?
“A Internet é o divisor de águas nessa mudança de paradigma”,   avaliou Magaly Pazello, consultora em gênero e TICs e integrante do Emerge/GLG, que relembrou que neste universo virtual muitas coisas estão disponíveis e acontecem: trocas de e-mails, conversas instantâneas, comunidades virtuais, websites, sistemas de busca, TV e jornais/revistas online, fotologs, várias ferramentas... enfim, é a “tentativa que deu certo” no âmbito das novas TICs.

Mas há também uma complexidade de ofertas fora desse mundo virtual, em que  rádios, jornais, canais de TV já propõem formas de interatividade, como as chamadas para leitores/as comentarem matérias ou opinarem ao vivo em programas de rádio ou TV. Diante disso, Magaly levantou duas questões: “Estamos falando de novas fronteiras ou modalidades? Ou se trata de reterritorialização da mídia a partir do fenômeno da mídia digital?”

Nessa direção, as participantes foram apresentadas a outras facetas do complexo mundo da Internet... que não é só um conjunto de computadores interligados, como ponderou Magaly, ao comparar a Internet a um bolo de noiva, “feito em camadas, e estas são o caminho das pedras para se atravessar o lago”: camada de aplicativos (interatividade e conteúdos); camada de transporte (convergência digital) – e por meio da qual uma determinada forma de se fazer a transmissão de dados também trará a TV e rádio digitais, o que foi possível com o desenvolvimento técnico; camada de rede, que “traduz os endereços de e-mails, por exemplo; e a camada física, que são os equipamentos – os chamados hardwares.

Mais: cada uma destas camadas só funciona se estiver interligada a outra. E, para além disto... “cada camada envolve uma disputa e move bilhões de dólares”, ressaltou Magaly. Há uma disputa feroz pela definição da tecnologia, pela expansão de conteúdos, por quem vai ganhar dinheiro, por quem controla isto.

E o/a comunicador/a?
Mas o que está acontecendo com o/a comunicador/a nesta Era “festejada em todo o mundo”, na opinião de Túlio Costa? Para ele, jornalistas, publicitários/as, pessoas que estão na base da mídia estão perdendo os seus papéis de atores principais da comunicação para o “príncipe eletrônico”. Portanto, analisou, mesmo o componente concentrador está perdendo o seu papel de principal ator das comunicações. “É isto que esta multidirecionalidade traz, mas muda o papel da comunicação, e isto tem de ser visto dentro de uma realidade de desagregação das instituições, de total liquidez de conceitos que vieram sólidos desde a modernidade, se liquefazem e tornam qualquer moralidade discutível. É nesta situação que nós vivemos: concentração, dispersão e multidirecionalidade.”

A possibilidade de qualquer pessoa poder comunicar-se mundialmente - com base em um algo que tenha ressonância global ou regional, nacional, na comunidade –, tira, de acordo com o presidente do IG, a centralidade do papel do/a comunicador/a da forma tradicional como exercida até então. É nesse quadro que emerge “o jornalismo cidadão” e, com este, a possibilidade de qualquer cidadão ou cidadã, organização ou rede poder interferir, ser ouvido/a. E também colocar seu recado em qualquer rede, ou em uma única rede como o YouTube, por exemplo - que pode, no entanto, ser usada tanto para o bem como para o mal, da pornografia à filosofia.

Contudo, a debatedora e jornalista Beatriz Barbosa, integrante da coordenação do Intervozes, advertiu que um cuidado tem de ser tomado com essa mudança de paradigma que tira, de certa forma, o poder dos/as tradicionalmente comunicadores/as e passa para as pessoas, do outro lado. “As possibilidades são maiores do que os riscos.”

Para ela, os problemas desta interação não estão só na Internet – cujo acesso é inviável para cerca de 80% da população brasileira, que ainda não têm contato com computadores: “vários veículos tradicionais estão se aproveitando do valor e importância que se deu à interatividade e passaram a promover veículos de maior interatividade nos seus veículos tradicionais. As rádios são especialistas nisso. Isto tem um papel importante, uma penetração que é dada para nós, como cidadãos comuns, mas não pode ser confundida com uma participação de fato.”

Príncipe eletrônico
Ao resgatar análises de reconhecidos intelectuais, Túlio Costa observou que, com a consagração da modernidade a história, que era conduzida pelo “princípe” de Maquiavel – aquele com “fortuna e virtude – passa, a seguir, no começo do século XX, a dar lugar ao partido político, segundo Antonio Gramsci. Hoje, com as novas mídias, a comunicação entra numa era não só pós-moderna, mas “líquida” –  segundo o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman –, em que o "príncipe eletrônico", do também sociólogo Octavio Ianni, passa a conduzir  o processo histórico. E a mídia é este príncipe eletrônico, “que é todo este conjunto, feito na concentração e na dispersão. Essa é a grande mudança de paradigma, que precisamos começar a entender para inclusive saber como agir em relação a ela, pois passamos a fazer parte dela.”

Os celulares – outra das novas mídias evidenciadas por Túlio Costa – são também uma importante forma de interagir e mudar rumos de situações do cotidiano, da história, como vários exemplos citados por ele durante o seminário. “No Brasil, há 120 milhões de celulares. E não estamos vendo o poder que esta mídia tem.”

As novas esferas de poder...
Magaly lançou um importante alerta sobre a Internet e suas camadas: é mais do que necessário que as mulheres saibam sobre todos os aspectos da Internet e se apropriem desta instância. “Precisamos saber disso para saber onde estamos metendo a colher, para ver se estamos avançando no debate sobre o feminismo, sobre os conteúdos, sobre o poder que isto leva, sobre o príncipe eletrônico, se queremos ser sujeitos neste outro lugar, porque as nossas cozinhas ainda não são nossas sem a nossa participação como sujeitos protagonistas.”

Nessas camadas, está uma nova esfera de poder, “cuja dinâmica tem proporcionado um reordenamento de forças políticas, assim como reinventado o cotidiano e as relações”, sentenciou a integrante do Emerge. Novamente, viu-se que ocorre algo que muda a forma de as pessoas se relacionarem com o mundo. “Diferentemente dos outros campos de poder e da comunicação–mídia, aqui há um amálgama da base tecnológica com aquilo que é mais visível para nós: os conteúdos, as formas de relacionamento e a nova experiência do tempo e da distância. A Internet traz de forma muito profunda e isto traz também disputas políticas. Por isso, muito mais do que pensar sobre os aplicativos, ferramentas, interatividade, é fundamental entender que a Internet é uma nova esfera de poder!”

... e os falsos dilemas
O fato de poucas mulheres atuarem nessa nova esfera de poder, ocasiona a preponderância do que Magaly chamou de “ falsos dilemas”, que estão no mesmo escopo político das novas TICs. Falsos dilemas que estigmatizam e mantêm ima mentalidade de que mulheres não são capazes e aptas para o desenvolvimento da tecnologia, da matemática, e devastam as mulheres como sujeitos da sua capacidade. Dessa forma, apaga-se a história de mulheres protagonistas como a matemática do século XIX Ada Byron (Lady Lovelace), considerada a primeira mulher programadora da história.

“Dilemas” também decorrentes da perversa questão da priorização das agendas – e de na hora de priorizar, as mulheres optarem por uma “pauta tradicional”, em que estão áreas como educação, saúde...  “Temos pouquíssimas mulheres atuando neste campo e menos ainda mulheres feministas. Mas grande parte da tecnofobia das mulheres se deve a terem apagado a história da qual fazemos parte”, criticou. “Temos fundamentalismos eletrônicos, com uma série de comunidades e redes sociais que existem para impedir o avanço das mulheres nesta área – até com ameaça de morte. E priorizar as agendas é algo perverso, se não nos dermos conta que temos de atuar aí para vivermos algo desta história. Temos de correr atrás.”

E na história das mulheres estão outros fatos não visibilizados pela mídia, como mostrado pelo vídeo “Loira gelada”, apresentado pela consultora: as mulheres representam 70% da população pobre do planeta; 2 milhões de mulheres e meninas sofrem mutilação por ano, em sua maior parte na Ásia e África; no Peru, 70% de todos os crimes são contra mulheres; no Estado de Pernambuco, uma mulher é morta a cada 28 horas; estima-se que 800 mil a 1 milhão de abortos são realizados por ano no Brasil.

Cúpula e Fórum Global
No âmbito das agendas, informaram Magaly e Beatriz, as mulheres têm de ficar atentas também a um acontecimento de importância global: no período de 12 a 15 de novembro, o Rio de Janeiro receberá o Fórum sobre a Governança da Internet (do inglês Internet Governance Forum - IGF), que terá como foco  A Governança da Internet para o Desenvolvimento. Beatriz explicou que o Fórum nasceu  com a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação (World Summit on Information Society – WSIS) – criada pela Organização das Nações Unidas –, e dele fazem parte não só governos, mas também a sociedade civil organizada, empresas e academia. “É uma oportunidade importante ter o Fórum aqui no Rio, para que possamos fazer pressão, mesmo que seja do lado de fora, pois é um espaço internacional de decisão que decidirá o futuro da Internet. É importante para fazer com que sejamos de fato protagonistas deste processo.”

A agenda, conforme destacou Magaly, inclui debates que vão desde aspectos estritamente técnicos da camada física e de transporte da Internet, até a camada mais externa, relacionada aos conteúdos, mas que também estão ligados com os aspectos técnicos, seja de tecnologia da informação ou jurídicos – em que estão assuntos como cibercrime, pedofilia, privacidade, segurança. E como se alinham as forças políticas neste Fórum?, problematizou Magaly. “Tal qual ocorre em outras arenas: há governos e empresas querendo garantir seu quinhão; outros, querendo garantir que não haverá interferência nas suas formas de expressão; mas há aqueles atores que têm atuado na esfera global contra a autonomia das mulheres e que usam táticas de alerta como a de que a Internet pode ser arriscada para as mulheres. Temos de prestar a atenção nisto”.

Nesse debate, Beatriz ressaltou o papel centralizador da norte-americana ICANN (Internet Corporation for Assigned Name and Numbers), responsável pelo sistema de registro de nomes de domínio. Em contrapartida, mostrou a importância do Comitê Gestor da Internet brasileiro (CGI.br): criado em 1995, é um dos poucos espaços constituídos por eleição, do qual participam membros de governo, do setor empresarial, da sociedade civil organizada (“terceiro setor”)  e da comunidade acadêmica e para o qual cada entidade se inscreve para poder votar, com alguns requisitos nos seus respectivos pares. Agora, o CGI está em processo de eleição para seu próximo mandato. “é um espaço de forte disputa de poder, porque dentro do setor sociedade civil entram vários tipos de entidades, como as ligadas ao setor bancário”.

Nota da redação:
Saiba mais sobre Internet e acompanhe discussões de âmbito mundial pelo site da Rede de Informações do Terceiro Setor (Rits): www.rits.org.br. Nesse site, estão disponíveis links importantes, para as instâncias que debatem a Internet no Brasil e no mundo – como o CGI.br (http://www.cgi.br) e o NIC.br, entidade criada para implementar as decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil (http://www.nic.br).
Sobre a democratização da comunicação: acompanhe debates atuais pelo site do Intervozes: www.intervozes.org.br e pelo Observatório do Direito à Comunicação:
www.direitoacomunicacao.org.br

(Acesse a apresentação de Magaly Pazello/411 Kb)
 

16h – Debate

Silêncio eloqüente

Angela Freitas

Às vezes “o silêncio diz mais do que muitas palavras”. Assim que se abriu o debate, as primeiras intervenções expressaram perplexidade com o volume de novidades trazidas pela Mesa 4, para uma audiência repleta de profissionais e militantes com experiência no uso da internet e das novas tecnologias de comunicação. “A mesa descortinou um universo enorme e é preciso uma alfabetização das mulheres neste assunto”, foi a reivindicação da psicóloga Rachel Moreno à SPM.

Adriana Coutinho, coordenadora do Centro de Referência e Atendimento à Mulher, de Petrópolis/RJ, considerou que o grande desafio para as feministas não se encontra no desenvolvimento de conteúdos, pois há uma trajetória de mais de 30 anos, com uma produção consistente. Para ela “a grande novidade, bem detectada no Seminário A Mulher e a Mídia, é a necessidade de debater aquilo sobre o que não temos propriedade: a máquina, o novo instrumento, a fronteira pesada que Magaly Pazello trouxe, da qual dependo no meu trabalho, no estudo, na vida com os filhos e o marido. (...) Não falemos só na TV digital e pública. Não se pode prever o que nos aguarda com relação às novas mídias e à concepção de quarto poder”.

Janaína, uma jovem jornalista, expressou logo de início sua preocupação com o futuro da profissão, indagando: “Se jornalista já não é mais o ator principal, como podemos nos colocar nesse espaço de mídia que já não é mais nosso?” Ao que o palestrante Caio Túlio Costa respondeu: “Nós vamos ter que entender que vamos ser coadjuvantes. Não seremos mais atores principais. Para a velha mídia, e para os jornalistas na nova mídia, o único espaço que sobra é o espaço ético. Fazer comunicação de uma maneira moralmente defensável. É a única fronteira que nos resta”.

Controlar ou não controlar: eis a questão
O principal foco do debate foi a questão do controle ou não-controle dessas novas fronteiras, à luz de episódios que mostram enormes possibilidades, e riscos, que as tecnologias de comunicação e informação trazem para as pessoas.

Preocupada com este tema, e com a necessidade de conhecer os canais que regulam esses conteúdos, a assessora de imprensa Micheline Américo, da Secretaria da Mulher do Estado de Pernambuco, lembrou o episódio dos "torpedos" enviados por celular no dia da votação para o Senado Federal em 2006. Foram milhares de mensagens dizendo para não votar na candidata Jandira Feghali (PCdoB/RJ) por ser uma "assassina", favorável ao aborto. Feghali vinha bem nas pesquisas e perdeu as eleições. Certamente a campanha contra ela, feita por organizações ligadas à Igreja Católica, foi fator decisivo para a virada. As tentativas de levar o caso à justiça caíram no vazio. Será que deveria haver controle sobre este tipo de campanha? Poderíamos nós, movimento de mulheres, utilizarmos mecanismos como este? Quais são os riscos do controle e as possibilidades do descontrole, para potencializar nossa ação?

Dois casos trazidos pela jornalista carioca Denise Viola ilustram as possibilidades de um casamento produtivo da internet com a velha tecnologia do rádio. “Na Iugoslávia um ditador foi derrubado a partir de uma elite universitária que, através de uma rádio comunitária, começou a colocar informações no ar. A reação de inconformismo da população fez com que o ditador tirasse a rádio do ar. Os universitários foram então para a internet, buscar mecanismos de proteção da rede internacional. O ditador interferiu novamente, preferindo voltar atrás e permitir os programas de rádio, que lhe pareciam menos ameaçadores do que uma mobilização internacional. A rádio retornou fortalecida, agora com retaguarda da rede internacional. O Globo noticiou em primeira página a verdadeira revolução da população chegando a pé, de caminhão, para dizer que não queria mais o ditador. E deu destaque ao trabalho dos universitários”.

A outra experiência foi a do Cemina, ONG feminista do Rio de Janeiro que desenvolveu o projeto Ciberela, visando “tirar as mulheres da cozinha do rádio para colocar no ciberespaço aliando as duas tecnologias”. Foram feitos treinamentos, com oferta de computadores e ferramentas para fazer o casamento rádio/internet. Hoje a Rede de Mulheres no Rádio está fortalecida por conta dessa experiência.

Viola indaga: “Por que não nos apropriamos desses espaços e fazemos também uma campanha a favor da legalização do aborto pelo celular? Quanto mais entendemos essa linguagem e o que ela proporciona, os riscos de controle, as possibilidades do descontrole, mais podemos ter domínio desse espaço e de fato contribuir para a construção de uma sociedade melhor para a gente, através da comunicação e da informação”.

Caio Túlio foi incisivo: “O tema do controle é de extrema gravidade e graças a Deus as coisas estão como estão. Poderiam estar piores. Estou falando em termos de controle. O que diferencia a nova realidade, da antiga realidade de controle? Antigamente era possível censurar uma carta, não permitir que ela chegasse ao destinatário”. Ele citou como hoje é difícil censurar um celular dentro da prisão, mas não impossível. E problematizou: “quando pensamos no criminoso comum não queremos que tenha acesso (a celular); já se for preso político queremos que tenha acesso”, para lembrar que há diferentes maneiras de ver a questão do controle. Mas foi incisivo:

“Eu não quero nenhum controle. E não haverá controle, por mais que as empresas se concentrem no ponto de vista que a Magaly mostrou. Se a lei do Eduardo Azeredo passa, e todo mundo que entra na internet tenha que se registrar, nós vamos entrar por fora, através de provedores de outros países que não exigem registro (Uruguai, Argentina, Paraguai, Estados Unidos). Não é possível controlar, e esta é a riqueza da rede. Sua dispersão leva ao descontrole. Está certo que há a questão da concentração econômica, do poder regulatório do Estado, da nossa responsabilidade enquanto cidadãos, da responsabilidade da sociedade civil. Esta questão nos obriga a exigir que não haja controle, sob o risco de alguém decidir que é permitido fazer campanha contra o aborto mas não a favor do aborto. Não quero que ninguém me diga isto, e ninguém nesta sala quer isto. Essa é a grande riqueza da nova mídia – até agora não conseguiram controlar. E não tenham dúvida que vão querer controlar, para o bem ou para o mal”.

O jornalista contou que a tecnologia da internet foi pensada para um momento de guerra, de modo a permitir a transferência de dados de, e para, determinado lugar o tempo inteiro (no caso de ataques múltiplos). Isto permite que os dados estejam em todo lugar, em todo mundo. “É diabólico”, afirmou, lembrando que hoje o acesso à internet ainda está caro, mas que daqui a pouco vai estar barato, o que é “uma das grandes coisas, que a gente não vê, mas que o capitalismo nos deu”: o crescimento em escala que barateia tudo.

Caio Túlio Costa trouxe estatísticas recentes do Brasil, com seus 120 milhões de celulares e 50 milhões de brasileiros com acesso à internet. Isto porque o preço dos celulares está accessível e há acesso gratuito à internet. “Só nas dez grandes regiões metropolitanas brasileiras temos 6 e meio milhões de internautas navegando em escolas ou locais públicos”, completou, dizendo que a rede, por si, “pressupõe uma liberdade democrática total” e que grandes corporações, governos de direita ou de esquerda vão querer controlar, mas até agora não conseguiram. Esta rede pressupõe uma liberdade democrática total e tem sido imune ao controle.

A jornalista Beatriz Barbosa, do Intervozes, complementou os dados mostrando o avanço brutal, entre 2005 e 2006, dobrando o número de municípios com provedores de internet. Mas este aumento segue os ventos do mercado. Ligada na democratização, Barbosa lembrou os 3 bilhões de reais do FUST (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), que poderia garantir acesso em banda larga para cidades e escolas que ainda não têm esta facilidade. Parece que 0,1% deste montante será finalmente utilizado para este fim. A inclusão digital está, portanto, intrinsecamente ligada às decisões no âmbito das políticas públicas.

No que diz respeito ao controle, Barbosa concorda com Costa que este pode ser usado para o bem e para o mal. E cita um exemplo de impossibilidade de acionar o Google por conta de veiculação de crimes de pedofilia, em razão de a empresa controladora estar localizada em outro país, com outra legislação: “Não defendo o controle, mas é preciso problematizar”, concluiu.

Concordando que há exemplos positivos e negativos, Magaly Pazello recordou os ataques do 11 de setembro no Estados Unidos, que possibilitaram a aprovação de um Ato (Patriot Act) que viola as liberdades civis, mas dada a situação de comoção nacional essas violações foram consentidas e, assim, desde esta época a rede é vigiada por poderosos softwares. Citou também o caso do Irã, onde uma ONG de Direitos Humanos bastante ativa nos debates sobre internet e novas tecnologias de informação e comunicação foi fechada, vários integrantes foram presos e um deles, seu colega de ativismo, está desaparecido: “não é tão simples assim escapulir deste controle”. Na Guatemala é assim, no Azerbaijão, no Cazaquistão, acrescentou Pazello.

Pesquisando novas fronteiras para chegar ao controle dos corpos
Pazello retomou a questão das “novas fronteiras”, afirmando mais uma vez que é importante que o movimento de mulheres se aproprie desta agenda: “este é um campo de interseção que produz coisas interessantes, mas também perversas”. É preciso explorar de dentro este ponto de interseção. Há uma briga de gato e rato no campo digital que envolve celular, internet, rádio com sinal analógico, e “quando se fala de internet, o que existe é uma complexidade que nos joga para um novo momento da História humana”. Pesquisando sobre o tema, ela encontrou uma notícia sobre uma grande invenção tecnológica: um tocador de MP3 instalado numa prótese de silicone para o seio. Pazello interroga sobre quais fantasias estão por detrás deste produto, que foi inclusive patenteado. Outro exemplo foi o registro feito por Bill Gates, algo mais ou menos como uso do corpo humano para transmissão de dados, um dispositivo de música que pode ser usado sob a pele humana e apreendido pelo ouvido.

Para Magaly Pazello, explorar as fronteiras do desenvolvimento tecnológico é como está descrito por Clarice Lispector em um trecho de Água Viva (1973):
Cada coisa tem o instante em que ela é. Eu quero apossar-me é da coisa. Pois o próximo instante é desconhecido”.

Ela entende que a rede nasceu livre, mas seus dispositivos de controle ameaçam a defesa da democracia, dos direitos humanos. Esta briga “nos diz respeito, particularmente na trincheira mais dura e mais longa da nossa autonomia e direitos a nossos corpos, à sexualidade, à reprodução”. A campanha da Igreja Católica contra a candidatura de Jandira Feghali estaria inserida neste contexto. Ela resultou na eleição de Dornelles, um conservador que está legislando no Senado e que já deu mostras a respeito do lado em que se encontra nessas temáticas. Entretanto, este episódio seria um ponto ínfimo, se considerarmos a forma como a hierarquia da Igreja Católica vem se posicionando nas discussões técnicas da internet. Por que tamanho interesse? Seria controle? O que mais seria? É preciso ficar de olho. O Opus Dei mostra interesse em defender a criação do domínio .fam (de família) na internet; esta proposta seria apresentada na ICANN, organização gestora dos nomes de domínio e da estabilidade da internet entre outros temas. A estudiosa afirma que essa proposta não tem futuro, até mesmo porque já foi apresentada anteriormente, mas lembra que este mercado levanta bilhões de dólares ao ano.

A título de conclusão
A coordenadora da mesa, jornalista Mafoane Santos, elogiou a presença da juventude no Seminário – com o papel importantíssimo que tem nesta questão e suas formas diferentes de trabalhar; e não pôde deixar de apontar a ausência do recorte de diversidade sexual e racial. Ficam os desafios para o próximo capítulo.
 

Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006
 

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram que as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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