Dia 23 de setembro (domingo)
14h - Mesa 4
As Mulheres e as Novas Fronteiras da Mídia
Interatividade; retorno instantâneo;
acessibilidade; notícia-cidadã
Caio Túlio Costa – Jornalista / Presidente
do IG
Magaly Pazello – Consultora em gênero e TICs / Emerge
Debatedora: Beatriz Barbosa – Jornalista / Intervozes
Coordenadora: Mafoane Odara P.Santos – Psicóloga / Área de Juventude da
Ashoka Empreendedores Sociais
Novas tecnologias
da informação e da comunicação (TICs), novas mídias, sociedade da
informação, interatividade, caminhos para a participação. Mas também
novas formas de disputas de poder. Estes foram alguns dos temas que
animaram as complexas exposições e os debates da mesa As Mulheres e
as Novas Fronteiras da Mídia –
coordenada pela
psicóloga e integrante da Área de Juventude da Ashoka Empreendedores
Sociais, Mafoane Odara P. Santos –, que fechou o Seminário A Mulher e
a Mídia 4.
Nessas novas fronteiras está em curso uma grande mudança de
paradigma na mídia: a comunicação, que antes era unidirecional, passa a
ser interativa, bidirecional, multidirecional. O que está relacionado,
como mostrou o jornalista e presidente do IG, Caio Túlio Costa, com a
entrada de um lado para o outro, de um centro de poder para o/a
consumidor/a daquela comunicação.
Isso ocorre não apenas nas chamadas novas mídias e nem somente em função
do colapso das mídias tradicionais, como apontou o jornalista. “Isto
também está ocorrendo em função da emergência da tecnologia, de como as
pessoas passaram a se relacionar depois de uma mudança muito importante
na comunicação, que tende a ser cada vez o que se chama de “pervasiva” –
uma tradução do termo em inglês pervasivo (difundido)– e que
estará cada vez mais no dia-a-dia das pessoas.
Concentração e dispersão
Entretanto, nesse cenário há fatores centrais a se considerar. Por
exemplo, segundo a análise do presidente do IG, simultaneamente a “uma
desagregação brutal da esfera pública”, em que conceitos e instituições
sólidas se desagregam, há uma grande concentração econômica dos meios de
comunicação. Se nos anos 1980 existiam cerca de 300 grandes empresas de
comunicação no mundo, informou, na década de 1990 elas se reduzem a 27
e, no começo deste século, passam a ser apenas sete as grandes empresas
de comunicação, que faturam bilhões de dólares, com quase 43% do
faturamento de quase todas as empresas de comunicação do mundo.
Em torno dessas sete, há cerca de 70 empresas-satélites, que ou produzem
conteúdos relacionados a elas, ou compram seus conteúdos, todas já
localizadas espacialmente no Brasil. E são as empresas-satélites das
grandes corporações de comunicação que se fundam cada vez mais na
dispersão, ponderou o jornalista, “pois quanto mais dispersa a audiência
– o/a telespectador/a, o/a internauta, o/a ouvinte –, mais se concentra
a indústria da comunicação.”
Novas fronteiras?
“A
Internet é o divisor de águas nessa mudança de paradigma”, avaliou
Magaly Pazello, consultora em gênero e TICs e integrante do Emerge/GLG,
que relembrou que neste universo virtual muitas coisas estão disponíveis
e acontecem: trocas de e-mails, conversas instantâneas, comunidades
virtuais, websites, sistemas de busca, TV e jornais/revistas online,
fotologs, várias ferramentas... enfim, é a “tentativa que deu certo” no
âmbito das novas TICs.
Mas há também uma complexidade de ofertas fora desse mundo virtual, em
que rádios, jornais, canais de TV já propõem formas de interatividade,
como as chamadas para leitores/as comentarem matérias ou opinarem ao
vivo em programas de rádio ou TV. Diante disso, Magaly levantou duas
questões: “Estamos falando de novas fronteiras ou modalidades? Ou se
trata de reterritorialização da mídia a partir do fenômeno da mídia
digital?”
Nessa direção, as participantes foram apresentadas a outras facetas do
complexo mundo da Internet... que não é só um conjunto de computadores
interligados, como ponderou Magaly, ao comparar a Internet a um bolo de
noiva, “feito em camadas, e estas são o caminho das pedras para se
atravessar o lago”: camada de aplicativos (interatividade e conteúdos);
camada de transporte (convergência digital) – e por meio da qual uma
determinada forma de se fazer a transmissão de dados também trará a TV e
rádio digitais, o que foi possível com o desenvolvimento técnico; camada
de rede, que “traduz os endereços de e-mails, por exemplo; e a camada
física, que são os equipamentos – os chamados hardwares.
Mais: cada uma destas camadas só funciona se estiver interligada a
outra. E, para além disto... “cada camada envolve uma disputa e move
bilhões de dólares”, ressaltou Magaly. Há uma disputa feroz pela
definição da tecnologia, pela expansão de conteúdos, por quem vai ganhar
dinheiro, por quem controla isto.
E o/a comunicador/a?
Mas o que
está acontecendo com o/a comunicador/a nesta Era “festejada em todo o
mundo”, na opinião de Túlio Costa? Para ele, jornalistas,
publicitários/as, pessoas que estão na base da mídia estão perdendo os
seus papéis de atores principais da comunicação para o “príncipe
eletrônico”. Portanto, analisou, mesmo o componente concentrador está
perdendo o seu papel de principal ator das comunicações. “É isto que
esta multidirecionalidade traz, mas muda o papel da comunicação, e isto
tem de ser visto dentro de uma realidade de desagregação das
instituições, de total liquidez de conceitos que vieram sólidos desde a
modernidade, se liquefazem e tornam qualquer moralidade discutível. É
nesta situação que nós vivemos: concentração, dispersão e
multidirecionalidade.”
A possibilidade de qualquer pessoa poder comunicar-se mundialmente - com
base em um algo que tenha ressonância global ou regional, nacional, na
comunidade –, tira, de acordo com o presidente do IG, a centralidade do
papel do/a comunicador/a da forma tradicional como exercida até então. É
nesse quadro que emerge “o jornalismo cidadão” e, com este, a
possibilidade de qualquer cidadão ou cidadã, organização ou rede poder
interferir, ser ouvido/a. E também colocar seu recado em qualquer rede,
ou em uma única rede como o YouTube, por exemplo - que pode, no entanto,
ser usada tanto para o bem como para o mal, da pornografia à filosofia.
Contudo, a debatedora e jornalista Beatriz Barbosa, integrante da
coordenação do Intervozes, advertiu que um cuidado tem de ser tomado com
essa mudança de paradigma que tira, de certa forma, o poder dos/as
tradicionalmente comunicadores/as e passa para as pessoas, do outro
lado. “As possibilidades são maiores do que os riscos.”
Para ela, os problemas desta interação não estão só na Internet – cujo
acesso é inviável para cerca de 80% da população brasileira, que ainda
não têm contato com computadores: “vários veículos tradicionais estão se
aproveitando do valor e importância que se deu à interatividade e
passaram a promover veículos de maior interatividade nos seus veículos
tradicionais. As rádios são especialistas nisso. Isto tem um papel
importante, uma penetração que é dada para nós, como cidadãos comuns,
mas não pode ser confundida com uma participação de fato.”
Príncipe eletrônico
Ao
resgatar análises de reconhecidos intelectuais, Túlio Costa observou
que, com a consagração da modernidade a história, que era conduzida pelo
“princípe” de Maquiavel – aquele com “fortuna e virtude – passa, a
seguir, no começo do século XX, a dar lugar ao partido político, segundo
Antonio Gramsci. Hoje, com as novas mídias, a comunicação entra numa era
não só pós-moderna, mas “líquida” – segundo o sociólogo polonês,
Zygmunt Bauman –, em que o "príncipe eletrônico", do também sociólogo
Octavio Ianni, passa a conduzir o processo histórico. E a mídia é este
príncipe eletrônico, “que é todo este conjunto, feito na concentração e
na dispersão. Essa é a grande mudança de paradigma, que precisamos
começar a entender para inclusive saber como agir em relação a ela, pois
passamos a fazer parte dela.”
Os celulares – outra das novas mídias evidenciadas por Túlio Costa – são
também uma importante forma de interagir e mudar rumos de situações do
cotidiano, da história, como vários exemplos citados por ele durante o
seminário. “No Brasil, há 120 milhões de celulares. E não estamos vendo
o poder que esta mídia tem.”
As novas
esferas de poder...
Magaly
lançou um importante alerta sobre a Internet e suas camadas: é mais do
que necessário que as mulheres saibam sobre todos os aspectos da
Internet e se apropriem desta instância. “Precisamos saber disso para
saber onde estamos metendo a colher, para ver se estamos avançando no
debate sobre o feminismo, sobre os conteúdos, sobre o poder que isto
leva, sobre o príncipe eletrônico, se queremos ser sujeitos neste outro
lugar, porque as nossas cozinhas ainda não são nossas sem a nossa
participação como sujeitos protagonistas.”
Nessas camadas, está uma nova esfera de poder, “cuja dinâmica tem
proporcionado um reordenamento de forças políticas, assim como
reinventado o cotidiano e as relações”, sentenciou a integrante do
Emerge. Novamente, viu-se que ocorre algo que muda a forma de as pessoas
se relacionarem com o mundo. “Diferentemente dos outros campos de poder
e da comunicação–mídia, aqui há um amálgama da base tecnológica com
aquilo que é mais visível para nós: os conteúdos, as formas de
relacionamento e a nova experiência do tempo e da distância. A Internet
traz de forma muito profunda e isto traz também disputas políticas. Por
isso, muito mais do que pensar sobre os aplicativos, ferramentas,
interatividade, é fundamental entender que a Internet é uma nova esfera
de poder!”
... e os
falsos dilemas
O fato de
poucas mulheres atuarem nessa nova esfera de poder, ocasiona a
preponderância do que Magaly chamou de “ falsos dilemas”, que estão no
mesmo escopo político das novas TICs. Falsos dilemas que estigmatizam e
mantêm ima mentalidade de que mulheres não são capazes e aptas para o
desenvolvimento da tecnologia, da matemática, e devastam as mulheres
como sujeitos da sua capacidade. Dessa forma, apaga-se a história de
mulheres protagonistas como a matemática do século XIX
Ada Byron (Lady
Lovelace), considerada a primeira mulher programadora da história.
“Dilemas”
também decorrentes da perversa questão da priorização das agendas – e de
na hora de priorizar, as mulheres optarem por uma “pauta tradicional”,
em que estão áreas como educação, saúde... “Temos pouquíssimas mulheres
atuando neste campo e menos ainda mulheres feministas. Mas grande parte
da tecnofobia das mulheres se deve a terem apagado a história da qual
fazemos parte”, criticou. “Temos fundamentalismos eletrônicos, com uma
série de comunidades e redes sociais que existem para impedir o avanço
das mulheres nesta área – até com ameaça de morte. E priorizar as
agendas é algo perverso, se não nos dermos conta que temos de atuar aí
para vivermos algo desta história. Temos de correr atrás.”
E na história das mulheres estão outros fatos não visibilizados pela
mídia, como mostrado pelo vídeo “Loira gelada”, apresentado pela
consultora: as mulheres representam 70% da população pobre do planeta; 2
milhões de mulheres e meninas sofrem mutilação por ano, em sua maior
parte na Ásia e África; no Peru, 70% de todos os crimes são contra
mulheres; no Estado de Pernambuco, uma mulher é morta a cada 28 horas;
estima-se que 800 mil a 1 milhão de abortos são realizados por ano no
Brasil.
Cúpula e
Fórum Global
No âmbito
das agendas, informaram Magaly e Beatriz, as mulheres têm de ficar
atentas também a um acontecimento de importância global: no período de
12 a 15 de novembro, o Rio de Janeiro receberá o Fórum sobre a
Governança da Internet (do inglês
Internet Governance Forum - IGF),
que terá
como foco A Governança da Internet para o Desenvolvimento.
Beatriz explicou que o Fórum nasceu com a Cúpula Mundial da Sociedade
da Informação (World Summit on
Information Society – WSIS)
– criada pela Organização das Nações Unidas –, e dele fazem parte não só
governos, mas também a sociedade civil organizada, empresas e academia.
“É uma oportunidade importante ter o Fórum aqui no Rio, para que
possamos fazer pressão, mesmo que seja do lado de fora, pois é um espaço
internacional de decisão que decidirá o futuro da Internet. É importante
para fazer com que sejamos de fato protagonistas deste processo.”
A agenda, conforme destacou Magaly, inclui debates que vão desde
aspectos estritamente técnicos da camada física e de transporte da
Internet, até a camada mais externa, relacionada aos conteúdos, mas que
também estão ligados com os aspectos técnicos, seja de tecnologia da
informação ou jurídicos – em que estão assuntos como cibercrime,
pedofilia, privacidade, segurança. E como se alinham as forças políticas
neste Fórum?, problematizou Magaly. “Tal qual ocorre em outras arenas:
há governos e empresas querendo garantir seu quinhão; outros, querendo
garantir que não haverá interferência nas suas formas de expressão; mas
há aqueles atores que têm atuado na esfera global contra a autonomia das
mulheres e que usam táticas de alerta como a de que a Internet pode ser
arriscada para as mulheres. Temos de prestar a atenção nisto”.
Nesse debate, Beatriz ressaltou o papel centralizador da norte-americana
ICANN (Internet Corporation for Assigned Name and Numbers), responsável
pelo sistema de registro de nomes de domínio. Em contrapartida, mostrou
a importância do Comitê Gestor da Internet brasileiro (CGI.br): criado
em 1995, é um dos poucos espaços constituídos por eleição, do qual
participam membros de governo, do setor empresarial, da sociedade civil
organizada (“terceiro setor”) e da comunidade acadêmica e para o qual
cada entidade se inscreve para poder votar, com alguns requisitos nos
seus respectivos pares. Agora, o CGI está em processo de eleição para
seu próximo mandato. “é um espaço de forte disputa de poder, porque
dentro do setor sociedade civil entram vários tipos de entidades, como
as ligadas ao setor bancário”.
Nota da redação:
Saiba
mais sobre Internet e acompanhe discussões de âmbito mundial pelo site
da Rede de Informações do Terceiro Setor (Rits):
www.rits.org.br.
Nesse site, estão disponíveis links importantes, para as instâncias que
debatem a Internet no Brasil e no mundo – como o CGI.br (http://www.cgi.br)
e o NIC.br, entidade criada para implementar as decisões e projetos do
Comitê Gestor da Internet no Brasil
(http://www.nic.br).
Sobre a
democratização da comunicação: acompanhe debates atuais pelo site do
Intervozes:
www.intervozes.org.br
e pelo Observatório do Direito à Comunicação:
www.direitoacomunicacao.org.br
(Acesse a apresentação de
Magaly Pazello/411 Kb)
16h
– Debate
Silêncio
eloqüente
Angela Freitas

Às vezes “o silêncio diz mais do que
muitas palavras”. Assim que se abriu o debate, as primeiras intervenções
expressaram perplexidade com o volume de novidades trazidas pela Mesa 4,
para uma audiência repleta de profissionais e militantes com experiência
no uso da internet e das novas tecnologias de comunicação. “A mesa
descortinou um universo enorme e é preciso uma alfabetização das
mulheres neste assunto”, foi a reivindicação da psicóloga Rachel Moreno
à SPM.
Adriana Coutinho, coordenadora do Centro de Referência e Atendimento à
Mulher, de Petrópolis/RJ, considerou que o grande desafio para as
feministas não se encontra no desenvolvimento de conteúdos, pois
há uma trajetória de mais de 30 anos, com uma produção consistente. Para
ela “a grande novidade, bem detectada no Seminário A Mulher e a Mídia,
é a necessidade de debater aquilo sobre o que não temos propriedade: a
máquina, o novo instrumento, a fronteira pesada que Magaly Pazello
trouxe, da qual dependo no meu trabalho, no estudo, na vida com os
filhos e o marido. (...) Não falemos só na TV digital e pública. Não se
pode prever o que nos aguarda com relação às novas mídias e à concepção
de quarto poder”.
Janaína, uma jovem jornalista, expressou logo de início sua preocupação
com o futuro da profissão, indagando: “Se jornalista já não é mais o
ator principal, como podemos nos colocar nesse espaço de mídia que já
não é mais nosso?” Ao que o palestrante Caio Túlio Costa respondeu: “Nós
vamos ter que entender que vamos ser coadjuvantes. Não seremos mais
atores principais. Para a velha mídia, e para os jornalistas na nova
mídia, o único espaço que sobra é o espaço ético. Fazer comunicação de
uma maneira moralmente defensável. É a única fronteira que nos resta”.
Controlar ou não controlar: eis a questão
O principal foco do debate foi a questão do
controle ou não-controle dessas novas fronteiras, à luz de episódios que
mostram enormes possibilidades, e riscos, que as tecnologias de
comunicação e informação trazem para as pessoas.
Preocupada com este tema, e com a necessidade de conhecer os canais que
regulam esses conteúdos, a assessora de imprensa Micheline Américo, da
Secretaria da Mulher do Estado de Pernambuco,
lembrou o episódio dos "torpedos" enviados por celular no dia da
votação para o Senado Federal em 2006. Foram milhares de mensagens
dizendo para não votar na candidata Jandira Feghali (PCdoB/RJ)
por ser uma "assassina", favorável ao aborto. Feghali vinha
bem nas pesquisas e perdeu as eleições. Certamente a campanha contra
ela, feita por organizações ligadas à Igreja Católica, foi fator
decisivo para a virada. As tentativas de levar o caso à justiça caíram
no vazio. Será que deveria haver controle sobre este tipo de campanha?
Poderíamos nós, movimento de mulheres, utilizarmos mecanismos como este?
Quais são os riscos do controle e as possibilidades do descontrole, para
potencializar nossa ação?
Dois casos trazidos pela jornalista carioca Denise Viola ilustram as
possibilidades de um casamento produtivo da internet com a velha
tecnologia do rádio. “Na Iugoslávia um ditador foi derrubado a partir de
uma elite universitária que, através de uma rádio comunitária, começou a
colocar informações no ar. A reação de inconformismo da população fez
com que o ditador tirasse a rádio do ar. Os universitários foram então
para a internet, buscar mecanismos de proteção da rede internacional. O
ditador interferiu novamente, preferindo voltar atrás e permitir os
programas de rádio, que lhe pareciam menos ameaçadores do que uma
mobilização internacional. A rádio retornou fortalecida, agora com
retaguarda da rede internacional. O Globo noticiou em primeira
página a verdadeira revolução da população chegando a pé, de caminhão,
para dizer que não queria mais o ditador. E deu destaque ao trabalho dos
universitários”.
A outra experiência foi a do Cemina, ONG feminista do Rio de Janeiro que
desenvolveu o projeto Ciberela, visando “tirar as mulheres da cozinha do
rádio para colocar no ciberespaço aliando as duas tecnologias”. Foram
feitos treinamentos, com oferta de computadores e ferramentas para fazer
o casamento rádio/internet. Hoje a Rede de Mulheres no Rádio está
fortalecida por conta dessa experiência.
Viola indaga: “Por que não nos apropriamos desses espaços e fazemos
também uma campanha a favor da legalização do aborto pelo celular?
Quanto mais entendemos essa linguagem e o que ela proporciona, os riscos
de controle, as possibilidades do descontrole, mais podemos ter domínio desse espaço e de fato contribuir para a construção de uma
sociedade melhor para a gente, através da comunicação e da informação”.
Caio Túlio foi incisivo: “O tema do controle é de extrema gravidade e
graças a Deus as coisas estão como estão. Poderiam estar piores. Estou
falando em termos de controle. O que diferencia a nova realidade, da
antiga realidade de controle? Antigamente era possível censurar uma
carta, não permitir que ela chegasse ao destinatário”. Ele citou como
hoje é difícil censurar um celular dentro da prisão, mas não impossível.
E problematizou: “quando pensamos no criminoso comum não queremos que
tenha acesso (a celular); já se for preso político queremos que tenha
acesso”, para lembrar que há diferentes maneiras de ver a questão do
controle. Mas foi incisivo:
“Eu não quero nenhum controle. E não haverá controle, por mais que as
empresas se concentrem no ponto de vista que a Magaly mostrou. Se a lei
do Eduardo Azeredo passa, e todo mundo que entra na internet tenha que
se registrar, nós vamos entrar por fora, através de provedores de outros
países que não exigem registro (Uruguai, Argentina, Paraguai, Estados
Unidos). Não é possível controlar, e esta é a riqueza da rede. Sua
dispersão leva ao descontrole. Está certo que há a questão da
concentração econômica, do poder regulatório do Estado, da nossa
responsabilidade enquanto cidadãos, da responsabilidade da sociedade
civil. Esta questão nos obriga a exigir que não haja controle, sob o
risco de alguém decidir que é permitido fazer campanha contra o aborto
mas não a
favor do aborto. Não quero que ninguém me diga isto, e ninguém nesta
sala quer isto. Essa é a grande riqueza da nova mídia – até agora não
conseguiram controlar. E não tenham dúvida que vão querer controlar,
para o bem ou para o mal”.
O jornalista contou que a tecnologia da internet foi pensada para um
momento de guerra, de modo a permitir a transferência de dados de, e
para, determinado lugar o tempo inteiro (no caso de ataques múltiplos).
Isto permite que os dados estejam em todo lugar, em todo mundo. “É
diabólico”, afirmou, lembrando que hoje o acesso à internet ainda está
caro, mas que daqui a pouco vai estar barato, o que é “uma das grandes
coisas, que a gente não vê, mas que o capitalismo nos deu”: o
crescimento em escala que barateia tudo.
Caio Túlio Costa trouxe estatísticas recentes do Brasil, com seus 120
milhões de celulares e 50 milhões de brasileiros com acesso à internet.
Isto porque o preço dos celulares está accessível e há acesso gratuito à
internet. “Só nas dez grandes regiões metropolitanas brasileiras temos 6
e meio milhões de internautas navegando em escolas ou locais públicos”,
completou, dizendo que a rede, por si, “pressupõe uma liberdade
democrática total” e que grandes corporações, governos de direita ou de
esquerda vão querer controlar, mas até agora não conseguiram. Esta rede
pressupõe uma liberdade democrática total e tem sido imune ao controle.
A jornalista Beatriz Barbosa, do Intervozes, complementou os dados
mostrando o avanço brutal, entre 2005 e 2006, dobrando o número de
municípios com provedores de internet. Mas este aumento segue os ventos
do mercado. Ligada na democratização, Barbosa lembrou os 3 bilhões de
reais do FUST (Fundo de Universalização dos Serviços de
Telecomunicações), que poderia garantir acesso em banda larga para
cidades e escolas que ainda não têm esta facilidade. Parece que 0,1%
deste montante será finalmente utilizado para este fim. A inclusão
digital está, portanto, intrinsecamente ligada às decisões no âmbito das
políticas públicas.
No que diz respeito ao controle, Barbosa concorda com Costa que este
pode ser usado para o bem e para o mal. E cita um exemplo de
impossibilidade de acionar o Google por conta de veiculação de crimes de
pedofilia, em razão de a empresa controladora estar localizada em outro
país, com outra legislação: “Não defendo o controle, mas é preciso
problematizar”, concluiu.
Concordando que há exemplos positivos e negativos, Magaly Pazello
recordou os ataques do 11 de setembro no Estados Unidos, que
possibilitaram a aprovação de um Ato (Patriot Act) que viola as
liberdades civis, mas dada a situação de comoção nacional essas
violações foram consentidas e, assim, desde esta época a rede é vigiada
por poderosos softwares. Citou também o caso do Irã, onde uma ONG de
Direitos Humanos bastante ativa nos debates sobre internet e novas
tecnologias de informação e comunicação foi fechada, vários integrantes
foram presos e um deles, seu colega de ativismo, está desaparecido: “não
é tão simples assim escapulir deste controle”. Na Guatemala é assim, no
Azerbaijão, no Cazaquistão, acrescentou Pazello.
Pesquisando novas fronteiras para chegar ao
controle dos corpos
Pazello retomou a questão das “novas
fronteiras”, afirmando mais uma vez que é importante que o movimento de
mulheres se aproprie desta agenda: “este é um campo de interseção que
produz coisas interessantes, mas também perversas”. É preciso
explorar de dentro este ponto de interseção. Há
uma briga de gato e rato no campo digital que envolve celular,
internet, rádio com sinal analógico, e “quando se fala de internet, o
que existe é uma complexidade que nos joga para um novo momento da
História humana”. Pesquisando sobre o tema, ela encontrou uma notícia
sobre uma grande invenção tecnológica: um tocador de MP3 instalado
numa prótese de silicone para o seio. Pazello interroga sobre quais
fantasias estão por detrás deste produto, que foi inclusive patenteado.
Outro exemplo foi o registro feito por Bill Gates, algo mais ou menos
como uso do corpo humano para transmissão de dados, um dispositivo
de música que pode ser usado sob a pele humana e apreendido pelo ouvido.
Para Magaly Pazello, explorar as fronteiras do desenvolvimento
tecnológico é como está descrito por Clarice Lispector em um trecho de
Água Viva (1973): “Cada coisa tem o
instante em que ela é. Eu quero apossar-me é da coisa. Pois o próximo
instante é desconhecido”.
Ela entende que a rede nasceu livre, mas seus dispositivos de
controle ameaçam a defesa da democracia, dos direitos humanos. Esta
briga “nos diz respeito, particularmente na trincheira mais dura e mais
longa da nossa autonomia e direitos a nossos corpos, à sexualidade, à
reprodução”. A campanha da Igreja Católica contra a candidatura de
Jandira Feghali estaria inserida neste contexto. Ela resultou na eleição
de Dornelles, um conservador que está legislando no Senado e que já deu
mostras a respeito do lado em que se encontra nessas temáticas.
Entretanto, este episódio seria um ponto ínfimo, se considerarmos a
forma como a hierarquia da Igreja Católica vem se posicionando nas
discussões técnicas da internet. Por que tamanho interesse? Seria
controle? O que mais seria? É preciso ficar de olho. O Opus Dei
mostra interesse em defender a criação do domínio .fam (de
família) na internet; esta proposta seria apresentada na ICANN,
organização gestora dos nomes de domínio e da estabilidade da internet
entre outros temas. A estudiosa afirma que essa proposta não tem futuro,
até mesmo porque já foi apresentada anteriormente, mas lembra que este
mercado levanta bilhões de dólares ao ano.
A título de conclusão
A coordenadora da mesa, jornalista Mafoane
Santos, elogiou a presença da juventude no Seminário – com o
papel importantíssimo que tem nesta questão e suas formas diferentes de
trabalhar; e não pôde deixar de apontar a ausência do recorte de
diversidade sexual e racial. Ficam os desafios para o próximo capítulo.