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Seminário Nacional

Rio de Janeiro, 22 e 23 de setembro de 2007

Em discussão os desafios abertos pela
TV pública

Angela Freitas

Dia 22 de setembro (sábado)

9h30 - Mesa 1
TV Pública: Ampliação dos canais de expressão para mulheres?

Valores, opinião e a invisibilidade do protagonismo das mulheres; TV e as questões que envolvem os direitos das mulheres
Ivana Bentes – Professora de Comunicação da Eco/UFRJ
Fátima Jordão – Socióloga / Assessora de Pesquisa – TV Cultura/SP
Coordenadora – Wania Sant´Anna – Historiadora / Comissão de Diversidade da Petrobrás
Debatedora – Ministra Nilcéa Freire – SPM

O Brasil entra em um novo ciclo de comunicação com a televisão digital, que oferecerá quatro canais às emissoras, com capacidade de interatividade a partir de 2 de dezembro. Somando a isto a criação de uma nova TV pública e a universidade virtual, que já é uma realidade em São Paulo e que em breve deverá ser em todo o país, a socióloga Fátima Jordão, assessora de pesquisa da TV Cultura de São Paulo sugeriu que o cidadão brasileiro terá que “aprimorar sua musculatura” para acompanhar este ritmo. Isto num país onde o conceito de público “é pouco pensado”, como afirmou Ivana Bentes, professora de Comunicação da Escola de Comunicações da UFRJ, redobrando a necessidade de um grande exercício para incidir neste processo.

Com a internet e outras modernidades comunicacionais, muitas pessoas de uma gama variada vêm se tornando “produtoras de informação e de conteúdo”, o que tornou o direito de fazer mídia mais disseminado e mais praticado, como também citou Ivana Bentes.

Coordenada pela historiadora Wania Sant´Anna, da Comissão de Diversidade da Petrobrás, a
primeira Mesa do Seminário A Mulher e a Mídia 4 - realizada sem as fundamentais presenças dos ministros Gilberto Gil (MinC), Franklin Martins (Secom) e Matilde Ribeiro (SEPPIR) - celebrou a anunciada criação pela SPM de um grupo de trabalho, com participação de organizações de mulheres, para tratar do eixo "cultura, comunicação e uma mídia não-discriminatória" como um tema central e não acessório para a produção da igualdade, como afirmou a ministra Nilcéa Freire, admitindo que esta compreensão ela desenvolveu no exercício do cargo como ministra da SPM.

Fátima Jordão sugeriu que este grupo se debruce de imediato sobre a recém-formulada Carta de Brasília - manifesto em que constam os princípios fundantes da televisão pública brasileira. Entre estes está: a promoção de formação crítica do indivíduo para a cidadania e a democracia; ser a expressão das diversidades de gênero, racial-étnica, de orientação sexual etc.; e ser um instrumento impulsor dos direitos à comunicação, à cultura, aos direitos humanos. Citando a afirmação do ministro Franklin Martins, de que a televisão pública “verá o espectador como cidadão e não como consumidor”, a palestrante recomendou uma resposta à altura, reivindicando que as mulheres querem ser protagonistas, participantes e proponentes e não espectadoras da televisão pública. Significa também participar da definição das formas de financiamento, monitorar a qualidade do discurso e dos conteúdos, desenvolver esses conteúdos.

Resgatando a vivência histórica do Brasil na criação e desenvolvimento de veículos públicos de comunicação, Jordão citou brevemente o episódio do assassinato do jornalista Wladimir Herzog – então funcionário da TV Cultura - para introduzir o tema do risco da tutela governamental quando se trata de discutir uma televisão pública legítima. Não se garante isto sem forte aliança com a cidadania. A Constituinte brasileira de 1988 definiu pela necessidade de três tipos de televisão - pública, privada e estatal -, mas a regulamentação desta lei é frágil, e concessões ainda são feitas de forma “secreta, privada, esquisita”.

Assim se referiu Fátima Jordão, antes de valorizar a audiência da TV pública brasileira, em contraposição à audiência das concessões privadas, que tem um perfil próprio de comunicação, para consumidores.

Com 45 milhões de televisores nos domicílios, a televisão pública tem entre 1% e 2% desta audiência. “Em termos de grandes totalidades e pensando o sentido hegemônico da mídia, é uma audiência pequena”. Mas pensando na multi-segmentação que hoje caracteriza o público de televisão, e pensando que esta proporção corresponde a um alcance diário de 4 milhões e meio de domicílios, não é pouco. E mais, observando a totalidade de jornais impressos em circulação - que chega a 3 milhões e 800 mil de exemplares diários – vê-se que a televisão pública tem mais audiência do que todos os jornais juntos. E tem mais audiência do que todos os canais pagos no Brasil, que alcançam uma faixa de 2 milhões e 500 mil adultos.

Quantidade não é qualidade
Ivana Bentes mencionou que a televisão comercial trabalha com a falácia de que tudo que tem audiência tem qualidade, como se grande audiência legitimasse qualquer conteúdo.

Hoje temos debates sobre controle dos conteúdos veiculados na televisão, sobre classificação dos programas por faixa etária ou sobre a instituição do direito de resposta na televisão, uma vez que há uma “assimetria absoluta”, como disse Bentes, entendendo o direito de resposta como um direito fundamental. As televisões comerciais reagem a tudo isto usando a “linguagem das lutas sobre liberdade de imprensa para criar antipatia pública diante de qualquer tentativa de controle social dos meios de comunicação”, ela lembrou. Enquanto uma grande emissora pode acabar com reputações e construir novas, a cada jornal veiculado, uma tentativa de controle pode ser tachada de censura, “ou stalinismo”. 

Nas questões que envolvem os direitos das mulheres, Bentes ironizou como nas novelas somente as vilãs e prostitutas têm sexualidade ativa ou fantasias sexuais: “Somos condenadas a determinados estereótipos”, da mulher linda, descolada, ou então submissa, sem meio termo. A mulher que não seja vilã ou prostituta não faz aborto em novela (embora na realidade a história seja outra). “A diversidade aparece no nicho de consumo, através de clichês”.

Para Nilcéa, expressões da periferia são colocadas de forma pasteurizada: “existe uma captura da expressão deste segmento, maquilada, como acontece na série Antônia ou em Cidade dos Homens”.

Nilcéa Freire exemplificou com evento recente como a mídia comercial ignora certos fatos. Foi realizada em Brasília, no dia seguinte ao encerramento da II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, a Marcha das Margaridas, com 40 mil trabalhadoras rurais e uma pauta de 107 itens. A única coisa que saiu no Jornal Nacional foi que “mais uma vez o presidente Lula ataca as elites, em encontro com o movimento da Contag”. Somente no final da matéria fala-se das mulheres trabalhadoras rurais, sem mostrar uma única imagem da Marcha propriamente dita.

Os jornais impressos de circulação nacional “noticiaram muito economicamente” o evento, e um deles estampou “maldosamente” na capa uma foto que insinuava um beijo "sexualizado" da ministra no presidente. Assim, a Marcha “não se torna agenda e pauta para a sociedade”.

O que fazer?
A televisão pública não deve ser o espelho deste modelo. O Estado está apontando para um modelo que não é privado nem estatal, mas público. E este modelo de público está por se definir, conforme ressaltou Ivana Bentes. E como fazer para incidir neste espaço e imprimir aí uma agenda mais democrática, em um momento em que há uma crise institucional das organizações sociais e em que a própria universidade está em crise. Se bem que crises podem ser momentos também de criação.

O domínio da linguagem, da internet, do discurso jornalístico, das técnicas de comunicação, são requisitos estratégicos para sair da posição de “estar meramente representada” para “fazer mídia”, “fazer televisão pública”. É preciso conhecer para interferir no modelo de gestão e impedir que este seja, mais uma vez, centralizador. Voltando ao tema da audiência, a professora Ivana Bentes afirmou que a televisão pública pode se dar ao luxo de trabalhar com nichos, segmentações de audiência e fazer experimentações. “Há coisas que não passam pela grande mídia, por exemplo o que passa na internet (You Tube), em que uma única pessoa faz uma produção que pode ser vista e ouvida por milhões de pessoas. Não se trata de fazer isto, mas de estar atenta e ciente para não cair nas armadilhas de duplicar o modelo que já existe, que trabalha com clichês, com o já sabido”. 

A ministra também ressalta a pro-atividade da sociedade como fundamental neste processo, para delimitar claramente o sentido de “público” como aquilo que está a serviço da sociedade, de todas as pessoas. E que por isso mesmo deve ser de qualidade, e com todos os recursos tecnológicos disponíveis. “Para isto, a sociedade pagará, não com assinatura ou comprando produtos, mas com os impostos que se paga”. E terminou sua fala propondo que deste seminário se produza um documento, a ser encaminhado ao grupo de pessoas que está trabalhando a televisão pública, com as reivindicações de participação de mulheres na gestão, formulação, e como massa crítica na televisão pública.
 

11h - Debate

Por uma TV pública com uma efetiva participação das mulheres
Nas novelas, as mulheres interessantes são sempre vilãs

Denise Gomide

As mulheres, seu protagonismo e participação na TV pública – e na futura TV Brasil –, controle social da mídia e TV digital estiveram no centro dos debates ocorridos após a Mesa 1 – TV pública: ampliação dos canais de expressão para mulheres?

A qualidade dos comerciais, dos conteúdos televisivos e também da imprensa em geral foram alguns dos grandes problemas apontados, juntamente com suas pautas sexistas e racistas; com estereótipos e clichês; fotos jornalísticas usadas maldosamente e distorcendo fatos; propagandas em que a mulher é mais uma mercadoria...

A coordenadora da Mesa, a historiadora Wania Sant´Anna, foi taxativa: “Qual qualidade esta TV tem? Não tem.” Para ela, este é um momento em que se deve “consumir” uma política pública de comunicação. Além disso, considerou que é imprescindível que a formulação da TV pública seja feita com tecnologia digital, qualidade e bom gosto.

Mas como intervir nessas programações e anúncios? “Se é um programa em que o foco maior são crimes contra as mulheres, eles deveriam mudar de rumo e ter como foco a violência contra a mulher”, sugeriu Gláucia Helena, gestora de Políticas para Mulheres de Contagem (MG). Ela considera que o controle social é fundamental na mídia, e não só televisiva.

Por outro lado, a gestora também lembrou como o controle social ocasionou uma reação muito grande de artistas no ano passado: em junho, por ocasião da p
ortaria tornando obrigatório o uso do chamado "Manual da Nova Classificação Indicativa" – elaborado pelo Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação e pela Agência de Noticias dos Direitos da Infância (Andi) –, artistas como Fernanda Montenegro e Tony Ramos firmaram um abaixo-assinado contra a sua aplicação. “Quando se tenta fazer uma proposta de controle social de um espaço que seja amplo e democrático, vêm aqueles ao qual assistimos e dizem não”, comentou Gláucia.

Por sua vez, Gláucia Matos Adeniké, da ONG Fala Preta e da Marcha Mundial das Mulheres, propôs: se a TV pública pode atingir de 1% a 2% da população – cerca de 4 milhões de pessoas – e se do Seminário resultar um documento, "por que não tirarmos uma estratégia para garantir o não-sexismo, o não-racismo, que esta TV não traga a xenofobia?”

Vilãs
Durante sua exposição na Mesa, Ivana Bentes mostrou como nas novelas somente as vilãs e prostitutas têm sexualidade ativa ou fantasias sexuais. Criticou, também, que as mulheres estão condenadas a determinados estereótipos – o que provocou muitos comentários. “Prostitutas e vilãs, por debaixo dos panos, fazem sucesso, mesmo com a cultura moralista”, disse Maria Amélia Freire, coordenadora da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres do Rio Grande do Norte, para quem é importante a articulação com jornalistas, com vistas a mudar o rumo das pautas.

Para Mercedes Lima, da Articulação Mulher e Mídia, a TV não cria o preconceito, ele está na sociedade. “A TV reforça os preconceitos – e mata as mulheres que lidam bem com os seus corpos.” E já que as mulheres têm a percepção crítica da imagem que fazem delas, Rachel Moreno, também da Articulação Mulher e Mídia, constatou: “Temos de ver como desmontar este discurso.”

Na opinião de Ivana, as mulheres têm de partir efetivamente para a divulgação dos temas tabus: sexualidade, novos arranjos familiares, mulheres que não querem ter filhos, idealização da maternidade... “Temos de usar um linguajar mais incisivo para abordar estes temas.” Ao salientar que é a TV que forma a audiência, ela sugeriu que as mulheres se preocupem em como esta é formada. “É importante ter mais metodologias para discutir a mídia.” Da mesma forma, apontou que no modelo da TV pública em discussão, a proposta é que 80% da produção seja independente, ou seja, a sociedade civil organizada também poderá produzir os seus próprios conteúdos.

Nesse sentido, na I Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, lembrou a ministra Nilcéa Freire, debatedora da Mesa, também houve intervenções sobre controle social e a imagem da mulher na TV. “Temos buscado alguns caminhos, mas têm sido insuficientes. E se não fizermos  agora, é difícil consertar, porque as questões se cristalizam.”

TV pública e rádios comunitárias
A TV pública pode ser o caminho para que este controle se faça de forma mais imediata, de acordo com a expositora Fátima Jordão, que ressaltou que todas/os devem prestar muita atenção à Carta de Brasília e suas propostas. “Já temos instrumentos sofisticadíssimos de medição de audiência, e isto precisa ser trabalhado em medição da qualidade de conteúdos”, propôs. “Há uma fase do controle social que tem de ser mediada por um debate paciente e maduro.”

Beatriz Barbosa, integrante da coordenação do Intervozes, lembrou que, junto com Ministério Público e outras ONGs, conseguiram em 2005, por meio de uma ação civil pública, a suspensão do programa Tarde Quente, do apresentador João Kléber. Além disso, e de verba para um Fundo dos Direitos Difusos, a Justiça concedeu às organizações um espaço para "contrapropaganda", e a Rede TV! teve de veicular, entre os dias 5 de dezembro e 13 de janeiro de 2006, programas promovendo  os direitos humanos. “Temos de interferir também na hora de fazer um comercial. E vamos ocupar o espaço da TV pública.”

Os problemas enfrentados pelas rádios comunitárias, até hoje sem solução no Brasil, também foram destacados por Zozelma Araújo dos Santos, de São Paulo, e por Inês Amarante, pesquisadora de comunicação e semiótica da PUC/SP. “A mídia é controlada pelos empresários”, frisou Inês.

“Mais do que TV pública, vivemos um momento de discussão sobre o sistema público de comunicação”, observou Denise de Vieira Viola, da Rede de Mulheres em Comunicação (RJ). “Nós, mulheres, temos cada vez mais de ocupar estes espaços, como a rádio – que chega a 98% dos domicílios brasileiros. E a mulher em casa e a caminho do trabalho faz parte desta discussão, que temos de colocar com linguagem clara.”

Propaganda e financiamento
Como deve ser o financiamento da TV pública? Ela deve ou não ter comerciais? Essas questões vieram à tona quando algumas participantes se mostraram contra as propagandas no sistema público de mídia. Porém, para a professora Ivana, achar que a TV pública não pode ter publicidade é falar que não pode ter financiamento. “Não podemos “demonizar” o mercado, nós fazemos parte do mercado e do Estado – que é tratado como se fosse uma entidade abstrata”, disse, sugerindo que as empresas com “pensamento social” podem ser fontes desse financiamento.

Fátima Jordão deu o exemplo da TV Cultura: o canal não divulga propagandas de remédios, bebidas alcoólicas e nem as que estimulam crianças ao consumo. “A questão é como combinar as fontes de financiamento”, observou. “E a salvação da TV pública é justamente ter várias fontes de financiamento, porque fazer televisão custa caro.”

TV digital
A TV Digital se instalará dia 2 de dezembro e, como a TV Brasil, o importante não é a data ou o dia, é o sistema, avaliou Fátima Jordão. No Brasil, a escolha foi pelo sistema japonês. Do ponto de vista prático, explicou, isto significa duas linhas de opção para as emissoras, para a TV pública: ter um aperfeiçoamento da imagem, com um sinal de definição quase cinematográfica; com este sistema, é possível transmitir em digital e receber em analógico.

Mas para receber em digital, alertou Fátima, é preciso ter o equipamento apropriado. “O governo imaginou produzir este equipamento por cem reais, e os fabricantes dizem que não dá para produzir por menos de 800 reais.” Com isso, relatou, a indústria acredita que, em cinco anos, somente 19% da população terá acesso ao sistema digital. “Deste total, aproximadamente 80% serão pessoas de alta renda”, criticou. “Esta nova tecnologia deve chegar rapidamente ao maior número possível de pessoas. É importante, principalmente por causa da interatividade, ou seja, a interferência direta nos programas. As pessoas farão perguntas, e os canais terão de ouvir opiniões.”

 

 

Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006
 

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram que as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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