MARIA DA PENHA
NASCIMENTO
(1949-2008)
A voz negra feminina do samba se cala
WILLIAN VIEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL
"Ela não mandava recado." Fosse o discurso pelo Dia
da Mulher, o grito de vitória na escola de samba ou o basta à
violência do marido -dizia sempre na cara, tudo o que pensava.
"Era o próprio discurso", diz uma das três filhas, que eram, com a
neta, a família feminina e o grande orgulho de Maria da Penha.
O marido, deixou na primeira vez que levantou a mão para lhe
bater. Foi então viver a vida, "baladeira" que era, nos bailes da
zona leste de São Paulo. Onde cresceu, sambou e se politizou.
Costureira até se aposentar, a negra de óculos e cabelos curtos
subia seu 1,75 m em outros muitos centímetros de salto, vestindo
turbantes e roupas coloridas que deixariam uma africana com
inveja, e mostrava os dentes brancos em grandes sorrisos ou
discursos políticos. Petista feminista, era de uma dezena de
organizações sociais; do movimento negro a associações de
mulheres.
Mas no samba é que se realizava. Foi uma das fundadoras da Leandro
de Itaquera. Na escola, foi passista, destaque, tesoureira, da
comissão de frente e chefe de harmonia. E qual não foi sua
decepção ao vê-la cair do grupo especial em 2006.
Foi seu último Carnaval. O câncer piorou rápido. Mas ela disse,
conta a filha, que não admitia morrer sem ver a escola de volta à
elite do Carnaval. O que aconteceu em 2008, ano que devolveu a
Leandro de Itaquera ao Grupo Especial de 2009. Mas não a colorida
Maria da Penha. Ela morreu no sábado, de câncer, aos 58 anos. |