O ano de 1964
interferiu na vida de todos os brasileiros e deixou marcas e
lembranças. 64, da Editora Brasiliense, reúne contos da escritora
Fernanda Pompeu, uma das crianças que tiveram a infância
interrompida pelo medo durante os tempos da ditadura.
Todos têm uma história para
contar sobre os anos de chumbo. Fernanda Pompeu tem
64.
A ditadura é o que entrelaça os 64 contos da autora, criança naquela
época, que conta, agora, um pouco do que viu, viveu ou criou sobre
esse tempo. O livro da Brasiliense chega às livrarias em novembro.
Não se trata de um relato sobre a
ditadura com depoimentos dos que viveram esses anos conturbados.
Apesar de ser uma obra de ficção com personagens inventadas, é
autobiográfico, já que Fernanda era garota quando viu sua casa ser
invadida por policiais do exército que levaram seu pai. A menina
acompanhou a luta da mãe para encontrar o presídio onde ele estava
preso e depois a luta dos dois para viver com o pouco que conseguiam
com os empregos temporários, os únicos possíveis, até a Anistia, em
1979.
É essa atmosfera de medo,
apreensão, angústia, pequenas alegrias e esperança que marca a obra
de Fernanda Pompeu, publicada com tiragem reduzida pela primeira vez
em 2004 e agora lançada pela Editora Brasiliense para o grande
público. Para essa edição, a autora incluiu uma curva do tempo
ajudando o leitor menos familiarizado com a época a entender os
fatos que marcaram essa fase da história do Brasil.
Nos contos, várias passagens
marcantes: o ano de 1964 com o golpe militar; a promulgação da Lei
de Imprensa; a decretação do AI-5, em1968; o assassinato de
Marighella no ano seguinte; a prisão, em 1971, e o desaparecimento
de Rubens Paiva; a bárbara invasão à PUC em 1977; a promulgação da
Anistia em 1979; as Diretas Já em 1984; a Constituição Federal de
1988; a descoberta de 1049 ossadas de vítimas do esquadrão da morte
e de desaparecidos políticos no Cemitério Dom Bosco, em São Paulo,
em 1990. Os fatos chegam até 1995, ano marcado pelo nascimento da
internet comercial no Brasil. Além dessas informações históricas, no
final do livro a autora preparou uma espécie de glossário crítico
sobre a época.
64 histórias
“Durante anos, a ditadura militar foi um peso sobre mim e minha
família e, de alguma forma, precisava tirar isso de mim”, diz
Fernanda Pompeu. Ela conta que a idéia do livro surgiu 38 anos
depois do Golpe, durante uma viagem de trem pela Itália. “Olhando as
estações, pensando nas guerras e no que as pessoas tinham para
contar, tive a sensação de que era hora de contar a minha versão e
resolver essa questão do meu passado”.
Escreve,
então, histórias curtas, sensíveis e vivas. Os personagens são
diversos e se encontram em contos diferentes. Fernanda dá voz a
Vitória, Nikita, Isadora, Pedro Paulo, Flora, Nélia e muitos outros
para a relembrar esses momentos. Relembrar, nem sempre. Grande parte
dos contos se passa no tempo presente do leitor e as marcas da
ditadura aparecem sutilmente no perfil ou no comportamento de
determinado personagem, como por exemplo no caso de Pedro Paulo,
filho de algum coronel daquela época.
Vitória é a
editora de revista que quando criança viu a mãe queimando os livros
do pai, perseguido pela polícia. Quando ele enfim volta para casa, a
menina se impressiona: “Nossa, ele chora”. Pouco envolvida com
política, Isadora estava no grupo que fotografou um cemitério
clandestino de desaparecidos políticos e depois disso passou a ser
convidada a participar de eventos pelos direitos humanos. Só foi se
engajar de verdade quando se apaixonou por Nikita, que com o
seqüestro e desaparecimento do pai, perdeu a infância, a casa e o
mar do Rio de Janeiro. Isadora trabalhava com Orlando, 12 anos mais
velho, apaixonado por Vitória, e que lia Maiakovski quando foi
decretado o AI-5.
Flora é tida
pela família como desaparecida política. Aproveitou o momento e se
mudou para Milão para trabalhar como prostituta. Adélia é
desaparecida de fato. A mãe ainda lembra do último dia em que viu a
filha, com uma pontada no coração. A frase dita pela menina, antes
de desaparecer atrás da porta e da vida: “Um dia, mãe, não haverá
injustiça nesse país”. Disso a mulher ainda duvida, mas segue
buscando os ossos da filha morta.
Nelia não
conheceu o pai, morto antes dela nascer. Determinada em realizar seu
sonho, virou modelo, virou Jéssica e deixou a vida para trás.
“Quando
falamos em perseguidos pela ditadura não podemos pensar apenas nos
indivíduos. Para cada preso sofriam pais, filhos, irmãos,
companheiros e companheiras”, diz a autora.
64
é contado pela voz desses e de tantos outros personagens. São as
cicatrizes, as lembranças e as heranças deles que fazem essa ficção
criada por Fernanda se avivar na memória dos que têm alguma coisa
para contar dos anos de chumbo e dos que querem conhecer mais esse
período.
Sobre a autora
A escritora
Fernanda Pompeu nasceu no Rio de Janeiro, mas mora em São Paulo há
mais de 30 anos. É roteirista, redatora e editora. Escreveu para a
TV Cultura alguns episódios da série Mundo da Lua. Já publicou
contos, crônicas, artigos para diversos jornais e revistas.
Atualmente, trabalha em um outro livro de contos.
64
Fernanda Pompeu
Editora Brasiliense
Número de páginas: 92
Preço: R$19,90
Mais informações
para a imprensa com Maria Fernanda Rodrigues (Lu Fernandes
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