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Imprensa trata pouco de direitos
humanos*
José Reinaldo Marques
8/12/2006
A celebração do Dia Internacional dos
Direitos Humanos, em 10 de dezembro (data da aprovação da
Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948), nos leva a
uma reflexão sobre o espaço que os principais veículos da mídia
brasileira dedicam ao tema nos seus noticiários. O assunto foi
debatido em diversas redações do País, com base na pesquisa
“Mídia e direitos humanos”, que foi realizada pela Agência de
Notícias dos Direitos da Infância (Andi) e mostra um panorama da
atuação da imprensa em relação à agenda dos direitos humanos no
País e assuntos correlatos.
Para chegar ao resultado da pesquisa — que teve o apoio da
Unesco e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da
Presidência da República — a Andi analisou 1.315 textos de 57
jornais de todos os estados brasileiros, publicados ao longo do
ano de 2004. E concluiu que, embora 50,8% das matérias mencionem
a expressão “direitos humanos” e 80% usem a palavra “direitos”,
somente 0,5% do material é explícito na conceituação do tema e
2,1% abordam a perspectiva histórica da Declaração Universal.
Textos que falam de denúncias de violação de direitos
representam 2,7% do noticiário e as matérias investigativas
(2,6%) são menos freqüentes. Geralmente, as reportagens não
relacionam direitos humanos com os processos de desenvolvimento
social, fazendo com que outros itens vinculados aos direitos
individuais e coletivos — questões ambientais, de gênero, etnia,
expectativa de vida, renda, sexualidade etc. — recebam
tratamento editorial reduzido.
Diálogo
Um dos aspectos positivos do trabalho da Andi foi o interesse
demonstrado pelos jornalistas em aprofundar o debate sobre a
presença da agenda dos direitos humanos no noticiário. Por isso
foram realizadas, em várias redações do País, oficinas sobre
valores conceituais, legislação e importância histórica dos
direitos humanos. Os encontros aconteceram entre julho e
setembro, com especialistas no assunto fazendo palestras para
chefes de redação, editores, repórteres, redatores e pauteiros
dos seguintes veículos: TV Globo (RJ), O Globo (RJ),
Estadão, Folha, Grupo Verdes Mares (CE),
Correio Braziliense (DF), Sistema Radiobrás (DF), Grupo RBS,
CBN, Grupo A Tarde (BA) e Organizações Rômulo Maiorana (PA).
De acordo com o cientista político Guilherme Canela —
Coordenador de Relações Acadêmicas da Andi e responsável pela
pesquisa — nos últimos dez anos a cobertura da imprensa tem
melhorado, principalmente por causa das iniciativas de
colaboração com os jornalistas:
— A estratégia de colaboração com a imprensa tem dado resultados
positivos e por isso, desde 1996, tem melhorado a cobertura da
agenda social brasileira. Nas visitas que fizemos às redações,
percebemos como os jornalistas estão ávidos por informações. Não
tivemos nenhuma dificuldade para realizar os workshops, porque a
imprensa está aberta a esse tipo de diálogo.
Para ele, só o que pode atrapalhar esse processo de ampliação da
pauta de direitos humanos é o enxugamento das equipes:
— Mas em quase todas as empresas de comunicação houve adesão dos
diretores de Jornalismo e uma grande preocupação das chefias de
Reportagem em garantir participação nos encontros.
Correlação
No Rio, cerca de 70 jornalistas do jornal O Globo
participaram da palestra da Procuradora do Ministério Público do
Estado de São Paulo Flávia Piovesan, que também é professora
doutora da PUC-SP nas disciplinas Direito Constitucional e
Direitos Humanos:
— O encontro foi relevante principalmente porque acho que a
imprensa faz uma abordagem mais adequada dos direitos humanos do
que a TV e o rádio. Apesar disso, as matérias de jornais e
revistas estão sempre mais vinculadas aos direitos civis e
políticos, deixando de fora os direitos econômicos e sociais e
as políticas públicas, como se essas questões não tivessem
qualquer relação com as outras.
De acordo com a Procuradora, boa parte dos jornalistas
demonstrou ter acúmulo de conhecimento histórico sobre os
direitos humanos, mas pouca informação sobre alguns documentos
elaborados pela ONU:
— Percebi a existência de uma lacuna conceitual sobre o que vem
a ser direitos humanos e conhecimento incipiente sobre os
principais tópicos da Declaração Universal de 1948. Mas a
realização do workshop provou que podemos avançar com o
intercâmbio, pois os jornalistas demonstraram interesse no
diálogo construtivo e isso reforça o meu pressentimento de que o
jornal está à frente da mídia televisiva.
Preconceito
Nos textos pesquisados pela Andi, as organizações da sociedade
civil aparecem como fonte em apenas 8,9%, enquanto o Governo é
citado em 54,1% das matérias. Porém, para Adriana Carranca,
repórter do caderno Metrópole, do Estadão, isso não
significa que as instituições não-governamentais não estão sendo
ouvidas pela imprensa:
— Não acredito que elas estejam perdendo espaço na mídia. Quando
as organizações têm informações consistentes, elas são ouvidas e
ganham espaço, sim. O que acontece é que, muitas vezes, elas têm
discurso vazio e sem embasamento em fatos.
A jornalista acha que o público que representa os movimentos de
defesa e promoção dos direitos humanos geralmente não está
preparado para falar com a imprensa, que tem a missão
“questionar, duvidar e esclarecer”:
— Diferentemente do que acontece em Londres, onde as entidades
investem em comunicação para lidar com jornalistas, as
organizações não-governamentais brasileiras geralmente não
dispõem de informações concretas, como dados numéricos e
pesquisa. Isso provoca na imprensa um certo preconceito, pois o
jornalista vê nelas fontes menos qualificadas.
Desrespeito
Para Mário Augusto Jakobskind, Conselheiro da ABI e
integrante da Comissão de Direitos Humanos e Liberdade de
Expressão da Casa, os dados mostrados na pesquisa não
surpreendem, pois o tratamento do tema na imprensa tem deixado a
desejar:
— Nas áreas carentes, os moradores têm sido desrespeitados a
todo instante em seus direitos humanos, sob o pretexto do
combate à criminalidade. E por que, na prática, a mídia não
denuncia como deveria este desrespeito aos direitos humanos? A
tortura, que na época da ditadura afetava os combatentes pela
liberdade, não existe mais em termos de ocorrências políticas.
Mas continua sendo uma prática corriqueira nas delegacias
policiais brasileiras. O que significa silenciar diante disso?
Significa que a sociedade está conivente com a tortura e o
desrespeito aos direitos humanos, pois quem cala consente.
Para Jakobskind e muitos especialistas em direitos humanos — e a
pesquisa demonstra isso — os jornais abordam o tema de maneira
generalizante e com foco na violência, ignorando o aspecto
social:
— A mídia é conservadora, tem uma visão preconceituosa sobre
direitos humanos e sociais. Geralmente, os movimentos sociais
são tratados de forma criminalizada, como nas recentes
coberturas de eventos relacionados à reforma agrária — por
sinal, atrasada em mais de 200 anos no Brasil. Que este Dia
Internacional dos Direitos Humanos, que se comemora no domingo,
dia 10, sirva de reflexão para os jornalistas de um modo geral.
E que as batidas policiais em áreas carentes sejam cobertas sem
preconceito.
* Artigo publicado originalmente na
Revista da ABI (Associação Brasileira de Imprensa).
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| Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher |
NOVA |
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo
companheiro
§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa
como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade
§ 64% acham que o agressor deveria ser preso
§ 75% consideram as penas aplicadas em casos de violência
contra a mulher são irrelevantes
§
Nove em cada 10 mulheres lembram de
ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou
rádio
Leia mais
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