"Alcançar a igualdade de gêneros é um processo de
esmagadora lentidão, pois desafia uma das mais profundamente
arraigadas atitudes humanas. O quadro ainda é desolador, na medida
que requer muito mais do que mudanças em leis ou políticas
estabelecidas. A ONU (Organização das Nações Unidas) estima que só
em 2490 as mulheres estarão em situação de igualdade com os homens."
O texto acima não é de nenhuma feminista. Faz parte do
"Ranking sobre Disparidade de Gêneros 2006" que o jornal O Estado de
S.Paulo divulgou no caderno feminino (será que o assunto só
interessa a mulheres?).
No ranking da desigualdade, a mulher brasileira só
iguala ou supera os homens nos setores em que todos são mal servidos,
como saúde e educação. Em saúde, o nível de igualdade chega a 97%. E, na
educação, as mulheres ganham dos homens: o nível de instrução feminino
supera em 37% o masculino.
Presentinho para os poodles
Com saúde igual e educação superior, era de se supor
que a mulher estivesse melhor no mercado de trabalho e conquistasse uma
participação política maior. Mas são justamente esses dois tópicos que
puxam o Brasil para o 67º lugar:
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O índice de igualdade
no mercado de trabalho é de apenas 60% e as mulheres ainda ganham cerca
de 30% a menos que os homens.
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A participação
política das mulheres é de apenas 6%, bem abaixo do índice mundial, que
é de 15%.
O reflexo desta "arraigada atitude humana" pode ser
medido pela forma como a imprensa trata as mulheres. Semana passada, por
exemplo, o destaque recebido por uma ministra do STF não se deveu a um
parecer ou decisão importante. Ela apareceu nos jornais porque ousou
mudar o figurino: "Carmem Lúcia, de conjunto preto, põe fim a um tabu na
mais alta corte", diz o título da matéria no Estado de S.Paulo
(16/3/2007), que revela:
"Pela primeira vez no Supremo Tribunal Federal
(STF), uma ministra da mais alta corte do País participou de uma
sessão plenária de julgamentos vestindo uma calça comprida... Carmem
Lúcia surpreendeu ao aparecer no plenário com calça e casaco pretos.
Os cabelos estavam, como sempre, soltos. A presidente do tribunal
vestia um conjunto de saia e blusa, também pretos, e usava seu
tradicional coque."
Outro destaque feminino é a foto de uma advogada com
dois poodles em um shopping de São Paulo. O que ela tinha a
dizer? "Sempre que viajo trago um presentinho para os meus poodles."
Entre as lembrancinhas , diz o jornal, está uma coleira Gucci com
pingente da Tiffani, gravado com o nome dos bichinhos.
Discriminação na imprensa
Futilidades à parte, os jornais também reservaram um
espaço para as mulheres pobres. Mas, estas, só no noticiário policial,
de preferência sem foto. Foi o caso, por exemplo, de Daniele Toledo
Prado, de 22 anos, que perdeu filha, parte da visão e da audição. E os
direitos. É aquela moça acusada de ter colocado cocaína na mamadeira do
bebê. Foi presa, apanhou e não mereceu, por parte da imprensa, uma
chance de se defender. "Por causa da exposição na mídia como assassina
da própria filha (e isto está dito no jornal), Daniele não sai de casa.
Teme que alguém a aponte com desconfiança."
A esperança, tanto para a juíza do STF como para a
mocinha do interior, é que no ano de 2490 as mulheres, que terão
atingido plena igualdade com os homens, serão tratadas de forma mais
digna pela imprensa. A juíza, por exemplo, aparecerá na mídia por seu
trabalho. Quanto à mocinha, a situação será bem diferente: terá
oportunidade de se formar, conseguirá um bom trabalho e, se tiver
filhos, vai ter quem cuide deles. E, em caso de doença, poderá ir a um
hospital particular, onde, medicada a tempo, a criança será curada.
Isso, é claro, se em 2490 ainda houver imprensa. Isso,
é claro, se ainda houver gente no planeta preocupada com a igualdade
entre os sobreviventes do aquecimento global.