Feministas e
emissoras iniciam diálogo sobre programação da TV
Agência Carta Maior, 24/04/07.
Em audiência no
Ministério Público Federal, organizações feministas criticaram a
representação da mulher feita nos meios de comunicação em massa.
Proposta é criar mesa permanente de diálogo com emissoras e
anunciantes.
Bia Barbosa – Carta Maior
SÃO PAULO – Uma
mobilização que teve início no 8 de março deste ano, Dia Internacional
da Mulher, resultou num momento considerado histórico pelas feministas
na tarde desta segunda-feira (23). Em audiência pública promovida pela
Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo, dezenas de
entidades do movimento de mulheres conseguiram abrir um diálogo
importante com as emissoras de radiodifusão acerca da representação
feminina naquele que é o meio de comunicação em massa com maior
influência no país: a televisão.
No mês passado, diversas entidades iniciaram a coleta de assinaturas
para uma representação feita junto ao Ministério Público Federal
solicitando que, durante uma semana, as emissoras de TV exibissem um
direito de resposta que garantisse a veiculação de concepções e
representações das mulheres alternativas às tradicionalmente pelos
canais comerciais. A representação foi entregue, um procedimento
administrativo foi aberto e a procuradora Adriana Fernandes decidiu,
então, pela realização de uma audiência pública para coletar subsídios
para uma eventual ação contra a programação de TV.
“Defendemos a liberdade de expressão e valorizamos a TV, que faz parte
do cotidiano das mulheres. Por outro lado, nos valorizamos diante da
TV: somos 52% da população, compomos a maioria da audiência e somos
responsáveis por 80% das decisões de consumo das famílias. No entanto,
mesmo assim, não nos vemos representadas na televisão em toda a nossa
diversidade”, explica a psicóloga Raquel Moreno, do Observatório da
Mulher.
“Sabemos que a TV não inventa comportamentos, tendências ou valores.
Mas ela captura comportamentos e decide a quais dar visibilidade,
legitimidade, importância. A partir daí, produz apelos eficientes e
valora estilos de vida. De acordo com esses valores, vende produtos,
modelos de beleza, vende até felicidade. Faz isso através de
personagens de novela, de entrevistadas, de matérias jornalísticas.
Como formamos opinião a partir do que vemos e como a televisão exerce
uma influência fundamental na formação da subjetividade - posso não
ser igual à Gisele Bunchen, mas quero ser um pouco –, é fundamental
que a mulher seja retratada de acordo com esta diversidade”, afirma
Raquel.
De acordo com as organizações que participaram da audiência, além de
muitos perfis de mulher serem invisíveis à mídia – somente em 16% das
reportagens a mulher é centro das notícias e só 15% das matérias
destacam a desigualdade de gênero –, aquele que é reforçado as retrata
de forma estereotipada. Para elas, o modelo feminino disseminado é o
da mulher bonita e burra. Há, por exemplo, mais loiras na televisão
brasileira do que na francesa.
As conseqüências desta prática são seríssimas. As brasileiras são as
que mais se sacrificam para serem belas. Em 2003, R$ 17 bilhões foram
gastos no país em cosméticos e produtos. Os levantamentos recentes
sobre número de cirurgias plásticas colocam o Brasil no topo do mundo.
Em paralelo, as tramas novelísticas seguem retratando a mulher com
base nas relações afetivas que constróem, enquanto o trabalho, por
exemplo, não é valorizado como forma de realização da mulher.
“Ao mesmo tempo em que, no jornalismo, há um aumento de matérias
esclarecedoras sobre o papel da mulher, as novelas e os programas de
TV mantêm padrões de 30 anos atrás. Ainda passam para os jovens o
casamento e a maternidade como únicos objetivos de vida das mulheres.
A realização da menina se dá, portanto, quando ela arrumar um homem.
Que sociedade é essa que estamos construindo quando passamos para os
adolescentes que a mulher só vale pelo seu corpo, pelo que compra ou
pelo homem que tem do lado?”, questiona a jornalista Terezinha Vicente
Ferreira, da Marcha Mundial das Mulheres.
Na opinião de Jacira Melo, diretora do Instituto Patrícia Galvão –
Comunicação e Mídia, a televisão não precisa ser 24 horas por dia
educativa, mas é intolerável que seja anti-educativa diante da
influência que exerce nas novas gerações. “Uma coisa sou eu assistir a
imagem de uma loira magra na TV como modelo de beleza. Outra são
crianças vendo essa imagem e os estereótipos de subordinação
representados na mídia. Como o Brasil vai vencer a violência contra a
mulher quando a TV sempre coloca a mulher em uma relação de
subordinação diante do homem? Se queremos um outro Brasil, se queremos
enfrentar a violência contra a mulher, a desigualdade e o preconceito,
temos que brigar muito com o padrão de mulher apresentado na TV”,
acredita.
O outro lado
As emissoras presentes à audiência pública desta segunda – a única que
não enviou representante foi a Rede Globo, principal alvo das críticas
das feministas – foram unânimes ao afirmar que não existe nenhuma
política de discriminação à mulher dentro de suas respectivas
programações.
“Nosso jornalismo é feito com total isenção. Cerca de 79% das pessoas
que trabalham na emissora são mulheres. Na produção, 174 de 274
funcionários são mulheres”, disse o representante do SBT. “Posso até
concordar que as agências de publicidade utilizem formas erradas de
representação da mulher, mas às vezes somos obrigados até a veicular o
que não queremos”, justificou.
Record, Rede TV! e TV Bandeirantes, assim como as demais, se disseram
abertas ao diálogo. Mas somente a Rede Mulher e a TV Gazeta já se
dispuseram a participar de uma mesa de trabalho permanente, com
participação do Ministério Público Federal, para analisar a
programação das emissoras. As demais enviarão uma resposta do MPF.
Nenhuma, no entanto, se dispôs a abrir sua grade para o direito de
resposta solicitado pelas entidades feministas.
“Comercialmente é difícil conseguir espaço pra isso na grade. Temos
espaços abertos pra fazer este debate no jornalismo e em programas de
mediação. Tenho orgulho de falar com certa tranqüilidade da TV Gazeta,
onde trabalho, porque lá não seguimos nem reforçamos os estereótipos
da TV comercial”, afirmou a advogada Nicole Hoedemaker, do
departamento jurídico da emissora.
Na avaliação das feministas, é “óbvio” que as emissoras não têm a
intenção de discriminar as mulheres, “mas discriminam, porque essa é a
ideologia da sociedade, que os meios de comunicação absorvem de forma
acrítica”, disse Tatau Godinho. “Se esta audiência pública não servir
para os representantes das emissoras pensarem como reproduzem estes
preconceitos, avançamos pouco”, completa.
Entidades cobram caráter público das
emissoras de TV
Para
feministas, meios de comunicação devem ser plurais, abertos às
críticas da sociedade e cumprir o papel de concessionários públicos
que possuem.
Bia Barbosa – Carta Maior
SÃO PAULO – A
convenção da ONU que trata da eliminação de todas as formas de
discriminação contra a mulher não traz nenhum artigo em específico
sobre a mídia, mas expõe de forma clara os papéis da sociedade e do
Estado na luta contra padrões culturais que reforçam preconceitos e
estereótipos. No caso das emissoras de rádio e TV, portanto, este
papel é duplo. Por um lado, por serem empresas e, por outro, por serem
concessionárias de um serviço público, elas não podem atuar de forma a
reforçar as desigualdades presentes na sociedade.
“Existe uma discriminação estrutural milenar contra a mulher. Sua
subalternação é histórica e atual, no Brasil e no mundo”, avalia
Silvia Pimentel, professora de Filosofia do Direito na PUC-SP,
conselheira do Comitê Latino-Americano e do Caribe para Defesa dos
Direitos da Mulher (Cladem) e membro do Cedaw, comitê da ONU
responsável pelo cumprimento da convenção das Nações Unidas sobre o
tema. “Por isso, não estamos pedindo nenhum favor, gentileza ou
concessão aos meios de comunicação. Estamos exigindo um direito”,
afirma.
Para as feministas, a mídia é o espaço onde as reivindicações das
mulheres encontram menos ressonância – se comparado, por exemplo, aos
poderes Executivo, Legislativo e até Judiciário.
“Parece que falamos sozinhas, somos ignoradas. A maioria dos veículos
é impermeável, trilha seu caminho sozinha. Não têm diversidade e não
têm crítica”, afirma Jacira Melo, diretora do Instituto Patrícia
Galvão – Comunicação e Mídia. “Eles dizem que o controle remoto é um
equipamento forte de controle de qualidade, mas uma sociedade
democrática exige mecanismos participativos não somente em relação ao
Estado mas também aos meios de comunicação de massa, em especial à TV.
No Brasil não há espaço público de debate sobre estas questões,
espaços de soma e articulação das críticas à programação. Isso é
perverso, porque, assim, nossa crítica é silenciada. Por isso viemos
ao Ministério Público Federal”, explicou Jacira durante a audiência
pública realizada nesta segunda (23).
Para as feministas, as emissoras deveriam ser, inclusive, responsáveis
pelas propagandas que veiculam quando essas ofendem a imagem da mulher
brasileira e atingem níveis “exorbitantes” de explicitação da
mercantilização da mulher. Se a lógica das emissoras é ser sustentada
pela propaganda, os canais deveriam, portanto, ser responsabilizados
também pelos anúncios que veiculam.
Uma questão de direitos humanos
A questão da invisibilidade da diversidade feminina na mídia e sua
estereotipação nos grandes meios de comunicação é considerada por
especialistas como uma forma de violência e de violação de direitos
humanos. No caso da mulher negra, a situação é ainda mais grave,
porque envolve componentes de racismo, que acabam por determinar o
lugar que as negras ocupam na televisão.
“Quando não é invisível, a mulher negra consegue uma visibilidade
perversa na mídia. Nas novelas, por exemplo, elas nunca estão no
núcleo principal. Surgem no secundário, desempenhando um papel
subalterno aos brancos. Aparecem trabalhando muito, mas em posições
inferiores”, relata a advogada Rebeca Duarte, da Articulação de
Mulheres Negras. “O que ocorre na TV é, portanto, um crime perpetuado
pela naturalização deste papel. A sociedade racista naturalizou o fato
das pessoas assistirem à novela, com a mulher negra sempre
desempenhando este tipo de papel, sem se indignar”, completa.
Ou seja, se, por um lado, a condição da mulher negra na mídia é uma
reprodução constante da violência sexista e racista que existe na
sociedade brasileira, por outro, avaliam, há uma relação direta entre
a reprodução midiática feita das negras e a violência e preconceito
permanentes que sofrem na sociedade.
“A forma como as mulheres são retratadas na mídia é inconcebível e
humilhante para qualquer ser humano. Temos que mostrar essas
humilhações e as possibilidades dos meios de comunicação, que são
concessões públicas, cumprirem com sua responsabilidade social e
respeitarem os limites da legislação pátria”, defende Teresa Cristina
Nascimento Souza, da Secretaria Nacional de Políticas para as
Mulheres.
“A comunicação é um direito humano, que pressupõe falar e ouvir, ver e
ser visto. Se vemos TV, queremos nos ver na TV. Não somos só a zona
sul do Rio de Janeiro. Um retrato mais fiel acusa a nossa realidade:
uma diversidade maior do que a mostrada na TV. Somos diversas em
conflitos, em reivindicações. Mostrar tudo isso amplia o espectro de
formação da nossa subjetividade e é um passo pra consolidação da nossa
democracia”, conclui Raque Moreno, do Observatório da Mulher.
|