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'O
brasileiro gosta de votar'*
Para Fátima Pacheco
Jordão, especialista em pesquisa de
opinião, o eleitor não está frustrado. E sabe discernir.
* Entrevista publicada em O Estado de S.Paulo, caderno
Aliás, 30/07/06.
Mônica Manir
O PCC enfurnou a população, a taxa de desemprego
cresceu, o Congresso não se emenda, mas o otimismo de Fátima Pacheco
Jordão é inabalável: o eleitor brasileiro não vai deixar isso por isso
mesmo. Para uma especialista na arte de pesquisar, otimismo talvez
seja impreciso. Fátima acompanha ponto a ponto as intenções de voto e
a perspicácia de um eleitorado ciente dos efeitos da corrupção no
dia-a-dia: “Quando se fala em ambulância, a população sabe a falta que
faz”. Por isso, diante de mais uma pesquisa Ibope indicando vitória de
Lula no primeiro turno, ela puxa o freio de mão. Acha que a
volatilidade dos votos é grande, ainda mais com 38% de indecisos, a
maioria mulheres, que escolhem seus candidatos nos acréscimos da
prorrogação. O eleitor está à espera dos debates (“Cadeira vazia será
notada”), nem pensa em anular (“Ele gosta de votar”), pede propostas
concretas (“Quer um horizonte possível”) e exige mais consideração,
coisa de quem, aos poucos, aprende que tem o poder.
A última pesquisa do Ibope mostrou que, apesar da série de
escândalos à volta, Lula venceria a disputa no primeiro turno. O
presidente está, de fato, blindado?
Lula-candidato, contestado nas suas realizações, na sua aliança
política atual, nas promessas que fez, esse ainda não apareceu. E só
aparecerá em campanha. O processo eleitoral está no começo, e a
volatilidade do voto poderá não confirmar o favoritismo do presidente.
Ao mesmo tempo, a população não está muito interessada nos detalhes da
corrupção, pois eles foram intensamente comunicados àqueles que lêem
jornais ou possuem TV a cabo, não ao eleitor de baixa renda. Esse
eleitor começa a enxergar o processo, tanto que já ligou Lula ao
mensalão, no sentido de que ele sabia do escândalo e, por isso, tem
sua parcela de responsabilidade. Mas essa conexão só deve clarear a
partir do horário eleitoral.
Existe mesmo uma intolerância generalizada à corrupção? Ou o
eleitor está vacinado contra os escândalos?
O Brasil é, historicamente, leniente em relação ao tema porque a
corrupção está disseminada no mundo político, institucional,
empresarial. No entanto, se pensarmos em outras dimensões da
cidadania, temos uma mudança importante aí. Houve uma enorme evolução
na década de 1990, sobretudo a partir do Código de Defesa do
Consumidor. Hoje a sociedade civil se articula melhor, as empresas
investem no Serviço de Atendimento ao Consumidor, as emissoras de TV
intensificam o diálogo com o espectador. Não podemos isolar o eleitor
desse processo, é a mesma pessoa. Nós, pesquisadores, percebemos essa
tendência do eleitorado quando ele critica políticos inescrupulosos. O
eleitor tem, sim, evoluído na sua capacidade de discernimento.
Então a população deve rechaçar nas urnas os suspeitos de
envolvimento com o mensalão, ainda que absolvidos pela Câmara?
O eleitor está mais prevenido, quer esperar mais provas. Já não
existem lances que fulminam, como aquela mesa de dinheiro no escândalo
Lunus, que envolveu Roseana Sarney. Mas o mensalão teve, como
conseqüência imediata, uma deterioração na imagem do Congresso, a
instituição mais mal avaliada no Brasil. Ainda não se sabe como o
eleitor vai reagir nas urnas, porém o Tribunal Superior Eleitoral teve
uma preocupação extra desta vez e deve levar ao ar, no início do
horário eleitoral, um alerta sobre a importância de pensar bem antes
de votar. Lembra ao eleitor que o Congresso será igual a ele.
É praticamente nula a perspectiva de julgar os processos de
cassação dos parlamentares citados pela CPI dos Sanguessugas antes das
eleições. A população vai registrar esses nomes?
A população vê a corrupção além da ética e da moralidade. Também
percebe a impossibilidade dos serviços públicos. No caso dos
sanguessugas, calcula quantas ambulâncias deixaram de ser oferecidas.
Será interessante observar a reação do eleitor em relação ao candidato
ao governo de Pernambuco, Humberto Costa, ex-ministro da Saúde de
Lula. O presidente possui voto bastante distintivo no Nordeste. Quem
vai influenciar mais: o pragmatismo da população, que viu melhorias no
seu Estado, ou a suposta corrupção de um candidato? Não há um padrão
nisso. A candidatura de Celso Pitta atravessou, na fase final, os
precatórios. Para os eleitores, era complicado entender um
procedimento de ordem fiscal-financeira que transferia dinheiro para
um suposto caixa. Naquele momento, elegeram Pitta achando que não
passava de um discurso eleitoral porque, se ele tivesse culpa, teria
sido processado. E o foi, mas depois. Já na disputa entre Covas e
Maluf, o primeiro usou contra o segundo a forte impressão de que Maluf
estava associado à corrupção, isso sem entrar em detalhes, sem provar
muita coisa. Pensemos o seguinte também: por que a mídia exibe as
fotografias dos supostamente envolvidos? Não era hábito ser tão
explícita em relação aos casos políticos. Provavelmente detectou uma
pressão da sociedade em disponibilizar esse dado. Há candidatos nessa
lista que respondem bem às suas bases, que gozarão de mais imunidade.
Mas que terá algum efeito, terá. Lembro que, ao longo de seis meses,
todos os dias, o principal jornal de Volta Redonda (RJ) publicou uma
relação de 12 vereadores envolvidos numa manobra de corrupção. Nunca
mais se ouviu falar desses políticos na cidade. Ou seja, o eleitor,
definitivamente, é ativo.
Ainda segundo o Ibope, a avaliação positiva do governo Lula caiu de
44% para 39%, enquanto a negativa subiu de 19% para 23%. A crise de
segurança em São Paulo respingou no presidente?
O eleitor entendeu que esse problema não é apenas de ordem estadual. A
pesquisa Sensus mostrou, aliás, que a área de segurança era a mais
negativa de desempenho do governo federal. Mas acho que a queda na
avaliação da administração Lula tem outro fator: a mudança da
cobertura da mídia, sobretudo televisiva, a partir de 1º de julho,
quando as emissoras ficaram obrigadas a mostrar a maioria dos
candidatos. Vínhamos de uma longa campanha para a Presidência em que
só apareciam Lula e suas ações promocionais, sempre cercado de apoio e
aparentando realização. Quando se dá voz a Alckmin, Heloísa Helena,
Cristovam Buarque, o quadro passa a mudar. Claro, a questão de
segurança é presente, e a qualidade das respostas dos candidatos sobre
isso deve, sim, influir nas eleições.
Com a lei eleitoral, o eleitor sentirá falta do marketing mais
ostensivo?
Tirando as camisetas, que para a população de baixa renda é roupa, o
eleitor já via com bastante crítica os showmícios. Na verdade, eram
shows artísticos, que agregavam pessoas, mas o discurso político não
passava por lá, e sim pela TV. Tanto que os políticos, nesses eventos,
falavam o mínimo possível para não ser vaiados. A lei eleitoral
dispersou muita nuvem da frente do eleitor. Ele chega melhor ao
candidato sem esses recursos.
Mas um marketing “mais limpo” não acentuará a amnésia dos
eleitores, em especial quanto ao Legislativo?
A maioria das pessoas não lembra qual candidato escolheu na eleição
passada, mas isso não tem a ver com a informação ou o brinde que tenha
recebido. Tem a ver com o sistema não distrital, em que inexiste uma
relação direta. Vivemos o absurdo de candidatos ao Legislativo que
precisam buscar votos no Estado de São Paulo inteiro. Uma vez eleito,
o político nem tem a quem responder. Apenas agora a mídia
disponibiliza o e-mail dos deputados para o eleitor que tem computador
e que, no final das contas, representa uma parcela pequena da
população. A amnésia só sairá do horizonte eleitoral se houver reforma
política.
Há uma campanha intensa na internet a favor do voto nulo. Ela pega?
Não. É apenas num setor pequeno da classe média alta muito frustrado,
que viu todas as suas esperanças revertidas. O eleitor gosta de votar,
sabe que seu voto é importante, tanto que as pesquisas mostram um
índice bastante baixo de declaração de nulo ou em branco.
Espontaneamente ou estimulados, 9% indicam essa opção.
Quem são os 38% de indecisos identificados pela pesquisa?
Historicamente, as mulheres esperam mais pelo momento de formação da
decisão. Se pegarmos esses 38% de indecisos, a grande maioria são
mulheres. Elas usam seu meio principal, que é a TV, para comparar
mais. Enquanto um mês antes das eleições os homens já consolidaram
seus votos, até a véspera ainda sobram 10% de indecisos. Desses, 65%
são mulheres. Se as eleições estiverem definidas a partir de pequenas
porcentagens, são as mulheres que decidem. Por isso os marqueteiros
utilizam nos últimos momentos certas manobras que impactam a mulher,
seja o aborto da filha do Lula, seja a questão do “estupra, mas não
mata” do Maluf. Ao vender uma proposta de saúde com atendimento geral,
Marta Suplicy não se deu bem porque mostrou algo exagerado. A mulher,
que conhece a realidade, não caiu nessa.
O discurso antidescriminalização do aborto de Heloísa Helena pode
afastar o eleitorado feminino?
O eleitorado dela compreende uma população mais jovem e mais feminina,
justamente o segmento a favor da descriminalização do aborto. Então,
isso certamente vai decepcioná-lo. Mas esse tópico será pouco
trabalhado porque é um tema tabu. Há um pacto entre candidatos de não
se fustigarem de forma massiva quanto a assuntos difíceis. Heloísa
Helena será questionada pela internet.
Estamos preparados para uma presidente?
Quando Marta Suplicy disse anos atrás que queria ser presidente do
Brasil, foi grande a repercussão. Depois elegemos uma nordestina para
a prefeitura, governadoras. Na eleição passada, Roseana Sarney teve
uma intenção de voto expressiva. É uma questão de tempo de um lado e,
de outro, de organização partidária. O partido político, no Brasil, é
fechado às questões mais abertas da sociedade e fica difícil para a
mulher navegar nessa seara. Ela não entra nas redes mais profundas de
captação dos recursos, nas alianças mais poderosas de decisões. O
eleitor está preparado, sim. Os partidos é que não.
Carisma, puro e simples, vence eleição?
Carisma é importante em qualquer disputa. Mas há um fator ainda mais
importante na eleição: a telegenia, ou seja, a boa relação do
candidato com a lente de televisão. Por mais desprezado que seja pela
classe média alta, o horário eleitoral é a fonte de informação básica
para os eleitores de segmentos menos privilegiados, que correspondem à
maioria. Há políticos que têm carisma em palanques e nenhum no
estúdio. O Lula dos comícios e das reuniões é completamente diferente
do que falou e falará pela televisão.
Políticos que se destacaram nas CPIs, como Delcídio do Amaral e
Eduardo Paes, patinam nas pesquisas que avaliam suas campanhas. A
megaexposição na TV pode ter sido um tiro pela culatra?
Um membro importante de Comissões Parlamentares de Inquérito como o
Moroni Torgan, que chefiou a CPI do Narcotráfico, não conseguiu
enfrentar a Luizianne Lins. O eleitor ainda pressupõe que a CPI
termine em arranjo. Quem não tem acesso a grandes investigações fica
com relances, cortados pelo apresentador de TV sobre se aquilo não vai
terminar em pizza. Para o eleitor majoritário, a CPI é um potencial de
negociação, e não de esclarecimento. Nas últimas visitas ao Vale do
Paraíba, Mercadante evitou se aproximar de Angela Guadagnin. A dança
dela representa a percepção geral de acordão. Ou seja, pode até haver
uma reação negativa a quem participou de CPIs, mas não necessariamente
uma positiva.
Quem não participar de debates vai ser lembrado negativamente?
Debate, na hierarquia de importância do eleitor, vem em primeiro lugar
depois das conversas familiares e com amigos. É quando os candidatos
são submetidos ao vivo, sem nenhuma intermediação da maquiagem, da
encenação, a certas pegadinhas de jornalistas nas quais se revelam
qualidades ou defeitos. Pesquisas mostram que Lula perdeu o debate
para Collor independentemente da edição que a TV Globo fez mais tarde.
Montoro conseguiu se impor contra adversários, Marta teve tiradas em
debates muito interessantes contra Maluf ao chamá-lo de nefasto, por
exemplo. Na última eleição, no debate entre Lula e Serra, sumariamente
descrito no filme Entreatos, do João Moreira Salles, Lula não responde
a uma pergunta de Serra sobre saúde. Houve uma insurgência dos grupos
que acompanhavam a questão. Isso foi comunicado a Duda Mendonça pela
filha dele, que coordenava as pesquisas, e repassado a Lula, que
voltou atrás e tratou do assunto. Mesmo quando morno, cheio de
cláusulas de controle, o debate é inescapável porque a maioria das
eleições vai para segundo turno, incluindo a presidencial. Se a
ausência de um candidato for sistematicamente mencionada e a cadeira
dele estiver vazia, sem dúvida haverá um peso.
Há distância dos políticos em relação aos movimentos organizados?
Alguns candidatos emergem desses movimentos. E é interessante notar
que, quando eleitos, normalmente entram em atrito com o movimento
porque têm de operar numa faixa de constrangimento muito maior. A
maioria dos políticos opera por relações mais clientelistas, prefere
associações da sociedade organizada não num sentido de reivindicação
pública, mas particular. As grandes questões da sociedade civil - a
questão do negro, do meio ambiente, das minorias - são pouco
conhecidas. Os partidos estão articulados a interesses muito mais
concretos e econômicos. E a sociedade está ligada a questões muito
mais difusas e que influenciam o cotidiano. O cotidiano, no Brasil,
ainda não impactou a política.
O eleitorado quer caras e partidos novos que respondam ao seu
dia-a-dia?
Acho que não dá para caracterizar isso. Muitas vezes um político
experiente, correto, consistente renova mais por saber operar os
mecanismos da instituição, seja no Executivo ou no Legislativo, do que
uma cara nova e inexperiente. Nesta eleição, mais do que nas outras,
os candidatos precisam explicar como. O eleitor vota no futuro, não
vota no passado. Ele vota em candidatos conhecidos que tenham tido bom
desempenho, porém espera que esse candidato ou qualquer que seja
ofereça horizonte. Melhor: um horizonte possível.*
Entrevista publicada em O Estado de S.Paulo, caderno Aliás,
30/07/06.
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| Pesquisa Ibope |
NOVA |
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo
companheiro
§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa
como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade
§ 64% acham que o agressor deveria ser preso
§ 75% consideram as penas aplicadas em casos de violência
contra a mulher são irrelevantes
§
Nove em cada 10 mulheres lembram de
ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou
rádio
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