"Mulher ainda tem medo de ser malfalada"
Maria Luiza Heilborn em entrevista a Jairo Costa Júnior
A antropóloga carioca Maria Luiza Heilborn, 51 anos, há décadas estuda
o
comportamento sexual dos brasileiros. Professora do Instituto de
Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e
coordenadora do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos
Humanos (Clam), Maria Luiza é conhecida por teses que desmistificam
paradigmas arraigados na sociedade em relação ao sexo, sobretudo, na
juventude. Foi sob sua coordenação que se publicou este ano uma das mais
significativas pesquisas sobre o tema já realizadas no país: Gravidez na
adolescência: um estudo multicêntrico sobre jovens, sexualidade e
reprodução no Brasil (Gravad), feita pela Uerj, em conjunto com a
Universidade Federal da Bahia (Ufba) e Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRS). Em entrevista por telefone ao Correio da Bahia, a
especialista falou sobre exibicionismo e erotização de jovens na
internet, machismo, quebra de tabus como a virgindade, diferenças
comportamentais entre a juventude de várias regiões e o papel da mulher
como elemento modernizador das relações. Disse ainda que, apesar de ser
um problema, a gravidez na adolescência não é o mal que se noticia.
CORREIO DA BAHIA - Em entrevista recente ao jornal Folha de S. Paulo,
você diz que a exibição de uma transa na internet por jovens do sexo
masculino, apesar de chocante, não surpreende (Maria Luiza foi
entrevistada sobre o caso dos dois adolescentes do Colégio Santo Inácio,
reduto da classe média carioca, que fotografaram um deles transando com
a colega e disseminaram as imagens na rede). O que está por trás disso?
MARIA LUIZA HEILBORN - O que acontece é que se tem uma mudança de
comportamento sexual no Brasil nas últimas três décadas. Uma delas é a
perda do valor da virgindade feminina para honra da própria família ou
da moça. Isso não mais implica em ela estar fadada a não se casar. O que
era impensável há três, quatro décadas, aqui no Brasil. E se observa
isso através da diminuição da idade mediana de entrada na vida sexual,
que tem caído por aqui. Hoje em dia as moças transam com seus namorados,
sem que isso reflita necessariamente qualquer coisa do ponto de vista da
moral. Contudo, embora ocorra o que nós chamaríamos de uma mudança de
comportamento, permitindo a entrada das jovens e das adolescentes no
exercício da sexualidade, coisa que do ponto de vista histórico os
rapazes já faziam, por que sempre se iniciaram mais cedo do que as moças
- agora é que está ocorrendo uma equiparação -, eles faziam isso com as
profissionais do sexo, empregadas domésticas, falando em camadas médias.
Hoje não, eles transam com suas namoradas. Entretanto, essa mudança não
tem se traduzido no aumento de uma percepção por parte dos rapazes,
sobretudo os de camadas superiores, em relação ao lugar da mulher na
relação afetiva. A moça de hoje transa, mas se tiver mais de um parceiro
ela ainda será malfalada. A virgindade perdeu o seu valor como uma coisa
moral, mas a classificação moral das moças permanece existindo em função
do número de parceiros. Não é percebida a idéia de uma liberdade sexual
para as meninas. Razão pela qual esse menino (o que liberou as imagens
na internet) se deu ao direito de fazer isso. Há um elemento de profundo
desrespeito, e mesmo um conteúdo de violência sexual, no fato de ele ter
exposto a menina a ser fotografada e depois colocar isso na internet.
CB - O que isso traduz?
MLH - Um profundo desrespeito em relação à individualidade da menina e à
forma com a qual ela consentiu ter relações com ele. Constitui uma
violação da privacidade dela. Nesse sentido, isso é profundamente
característico da maneira como as relações entre gêneros estão
constituídas, sobretudo entre jovens de camadas médias. A moça transa
com um rapaz ao qual define como sendo namorado - portanto tem um
vínculo afetivo, não é um ficante apenas, ou uma coisa de um episódio
qualquer -, e ele expõe isso como uma bravata, como efeito de exibição
de masculinidade, para provar que ele é macho, e espalha a imagem da
menina. O ato em si revela a maneira como ele vê a moça. E essa maneira
implica em desrespeito e na não valorização da menina pelo fato de ela
consentir ter relações sexuais com ele. E não faz com que ele evite
expô-la.
CB - A bravata masculina é algo que existe há muito tempo, o que parece
ter mudado foi só o meio. Agora tem a internet, mas antes isso era feito
de boca em boca, não?
MLH - Veja só, tenho um artigo chamado A primeira vez nunca se esquece,
publicado em 1995, que fala sobre isso. É o seguinte: assim que os
rapazes transam, eles contam para os amigos. A iniciação sexual e as
relações seguintes são elementos fundamentais para construção da
identidade masculina. Então, contar para os colegas é uma maneira de se
afirmar como homem, e isso é uma coisa bastante tradicional na sociedade
brasileira. No caso da exibição na internet, ele combina
tradicionalismo, a tentativa da afirmação da virilidade através do fato
de tornar público que ele já tem relações sexuais, com o uso da
tecnologia moderna. É uma combinação das duas coisas. Mas é bom dizer
que essa difusão de relações sexuais na internet não é uma coisa de
jovens, está disseminada em várias faixas etárias.
CB - Qual o papel da internet nessa história toda? Especialistas não se
cansam de dizer que a grande rede modificou comportamentos sexuais, mas
até que ponto? Existem agora novos paradigmas?
MLH - O que a gente vê na internet é uma fenômeno, no sentido da
exposição de imagens sexuais. Isso é inegável, mas não é o único meio.
Por exemplo, na pesquisa Gravad detectamos que uma forma de socialização
para a sexualidade é vendo filmes pornôs. Hoje é fácil alugar ou baixar
um filme pela internet. A visualização das relações sexuais se tornou
uma coisa que integra a socialização, sobretudo masculina, para a
sexualidade. É algo de escandaloso se imaginar que os filmes pornôs são
uma espécie de roteiro de aprendizado para os meninos. Aquilo é uma
ginástica (risos).
CB - A busca pela erotização é muito maior hoje por causa da internet ou
é uma demanda da própria sociedade contemporânea?
MLH - A sexualidade é um tema fundamental da contemporaneidade. E ela
não afeta só os jovens, mas o conjunto da população. No caso dos jovens,
eles estão no período formativo, se formando como pessoas, se
socializando. Eles estão sendo, claro, influenciados por essas novas
formas. Uma coisa é ver um vídeo, uma revista masculina, mas qual é o
impacto disso na mudança de comportamento? Por exemplo, comparando com
outras gerações, o que se percebe é uma iniciação na vida sexual mais
cedo e uma experimentação sexual de práticas que estão sendo mais
difundidas, sobretudo o sexo oral. Principalmente as moças declarando
que fazem. Antes, elas podiam até fazer, mas existia um pudor maior em
declarar isso. E isso está sendo encarado como uma prática que integra o
repertório sexual.
CB - Ao que se deve essa maior liberalidade em relação ao sexo oral por
parte dos jovens?
MLH - No momento, ela existe nitidamente em função de uma mudança de
mentalidade na cultura, trazida pelos meios de comunicação. E no caso
das mulheres das novas gerações - isso em todo mundo - deixou de ser uma
atividade considerada imoral para as moças. Antigamente, só as
profissionais do sexo faziam sexo oral. Virou uma prática socializada. E
essa é uma das grandes mudanças de comportamento sexual.
CB - Na pesquisa Gravad, você conclui que há uma relação mais respeitosa
com as garotas por parte dos meninos de classes sociais menos
favorecidas. Por que isso acontece?
MLH - Não é que os rapazes de camadas sociais mais baixas são todos eles
mais respeitosos. Mas quando se comparam as declarações masculinas de
pessoas com até o nível fundamental de escolaridade, com os rapazes que
estão na universidade - isso falando de jovens de 18 a 24 anos -, se
observa que os rapazes de menor instrução, de camadas populares, têm
relativamente com suas namoradas uma posição mais respeitosa, visível na
maneira como ele escolheram suas repostas, com relação aos rapazes de
camadas médio/superiores.
CB - Qual a evidência que aponta nessa direção?
MLH - É como se tivesse nos rapazes de camadas médio/superiores um certo
tipo de "desprezo" em relação a uma posição mais respeitosa frente à
questão da igualdade. É como se eles se permitissem zombar do ideal da
igualdade entre sexos, como se houvesse uma combinação de poder
aquisitivo com a capacidade de ser mais machistas ainda, enquanto forma
de expressão da virilidade. Isso não é para todos, é para uma parcela.
Mas tem um nicho de rapazes - tipo os pittboys -, para quem o poder
econômico se acopla com o desprezo a idéias de igualdade, à intolerância
com a homossexualidade. É como se a posição de ter recursos os
autorizasse a ser mais preconceituosos. Articulam dominação de classe
com dominação masculina.
CB - Isso não é um paradoxo? Imagina-se que quanto mais recursos e grana
se tem, o natural é que se fosse mais bem informado...
MLH - Veja só, o que estou dizendo é que há uma parcela. Não são todos
os jovens de classe média. Mas certamente existe uma combinação perversa
entre o fato de estar no topo da pirâmide social e ser "homem". É o
rapaz que aposta no fato de ser um garanhão, por exemplo, como forma de
construção de uma identidade. Mas nem todos de classe média fazem isso.
Embora nos questionários e entrevistas, se percebe que existe esse
perfil de masculinidade.
CB - O machismo ainda alcança altos índices nos homens dessa nova
geração?
MLH - Existe machismo, sim. Mas hoje em dia, e isso é bem interessante,
quem tem mais coragem de se assumir como machista são os de alta classe
social e alguns segmentos de camadas populares. Freqüentemente vai
aparecer isso, nas camadas populares, entre pessoas que abandonaram os
estudos muito cedo, e entre indivíduos com carreiras ligadas à
criminalidade e ao tráfico.
CB - Seria pertinente dizer que, enquanto as mulheres evoluíram no campo
sexual, os homens ainda se prendem a valores arcaicos?
MLH - Não gosto do termo evolução; prefiro dizer mudança nos costumes
sexuais. As mulheres apresentam hoje uma entrada na vida sexual mais
cedo, o que é uma forma de eqüidade entre gêneros. Mas ainda há o medo
de ser malfalada, recriminada. Tem avanços, porém esses avanços não são
totais. Mas o avanço na modernização é das mulheres. Há uma enorme
resistência dos homens em acompanhar o comportamento feminino. E tem um
outro dado importante que tem que ser levado em conta: as mulheres são
mais expostas à escolarização do que os homens, e nesse ponto elas são
elementos de modernização muito mais fortes. O que não quer dizer que
elas não queiram um príncipe encantado que as sustente.
CB - Essa mudança foi acompanhada também pela forma como a família
enxerga a questão da sexualidade na juventude?
MLH - Com certeza. As mudanças na sexualidade juvenil só podem ser
compreendidas por que houve mudanças nas relações interdirecionais. Os
pais compreendem mais, certamente. Houve um avanço no sentido de que os
pais sabem ou fecham os olhos ao fato de que os filhos adolescentes
tenham relações sexuais. Mas a pesquisa mostra que quanto mais alta a
mãe está na hierarquia social, sobretudo em relação ao grau de
escolaridade, mais elas conversam sobre sexualidade com os filhos. Os
pais ainda interferem pouco, e nisso nota-se que as mulheres novamente
têm um papel de elemento modernizador.
CB - Em seu artigo Ultra-som de uma tragédia nacional você diz que a
gravidez na adolescência não é o mal que se noticia. O que de certa
forma é um contra-senso do que diz a maioria dos especialistas da área.
Baseado em que você afirma isso?
MLH - Quando a gente define gravidez na adolescência, falando do ponto
de vista das estatísticas de saúde, estamos tratando de dois grupos: de
10 a 14, e 15 a 19 anos. E ao se falar de gravidez na adolescência no
Brasil, sobretudo na mídia, se põe no mesmo saco coisas muito
diferentes. O percentual de gravidez de 10 a 14 anos que encontrei na
minha pesquisa foi de 1,9%. De 15 a 19 anos, está entre 15% a 18%. E de
18 a 19 anos está em torno de 30%. Você percebe então que as meninas
estão se tornando grávidas nas idades mais altas daquilo que estamos
chamando de adolescência. Só que quando a mídia e os formuladores de
políticas públicas falam em gravidez na adolescência, os exemplos
trazidos são das meninas de 12 ou 13 anos. Mas elas não são o
contingente expressivo de quem está ficando grávida no Brasil. Há uma
distorção dos dados. A gravidez na adolescência é um problema sim, mas
não é o drama, a tragédia que se fala.
CB - Sua pesquisa colhe depoimentos e entrevistas de jovens de três
grandes capitais do país, e de regiões distintas: Rio de Janeiro, Porto
Alegre e Salvador. Quais as principais diferenças entre elas?
MLH - Salvador é bem mais conservadora do que o Rio e Porto Alegre. A
idade sexual de iniciação para as moças está em Porto Alegre, não é nem
no Rio de Janeiro. Das três cidades, Salvador é o lugar onde é mais
tardia a iniciação sexual. O segundo ponto é que, para Salvador, a
família tem muito mais importância na maneira como os jovens descrevem a
tomada de decisões. O grau de respeito em relação à figura da mãe é
muito forte na Bahia. A categoria "mainha" é muito importante em
Salvador. Esse material não aparece nos materiais gaúcho e carioca. A
diferença da idade de iniciação sexual entre rapazes e moças é mais alta
em Salvador, e eu tenderia a dizer que a virgindade em Salvador
permanece com um valor um pouco mais forte do que nas outras duas
cidades pesquisadas.
Maria Luiza Heilborn
Jairo Costa Júnior
A antropóloga carioca Maria Luiza Heilborn, 51 anos, há décadas estuda o
comportamento sexual dos brasileiros. Professora do Instituto de
Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e
coordenadora do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos
Humanos (Clam), Maria Luiza é conhecida por teses que desmistificam
paradigmas arraigados na sociedade em relação ao sexo, sobretudo, na
juventude. Foi sob sua coordenação que se publicou este ano uma das mais
significativas pesquisas sobre o tema já realizadas no país: Gravidez na
adolescência: um estudo multicêntrico sobre jovens, sexualidade e
reprodução no Brasil (Gravad), feita pela Uerj, em conjunto com a
Universidade Federal da Bahia (Ufba) e Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRS). Em entrevista por telefone ao Correio da Bahia, a
especialista falou sobre exibicionismo e erotização de jovens na
internet, machismo, quebra de tabus como a virgindade, diferenças
comportamentais entre a juventude de várias regiões e o papel da mulher
como elemento modernizador das relações. Disse ainda que, apesar de ser
um problema, a gravidez na adolescência não é o mal que se noticia.
CORREIO DA BAHIA - Em entrevista recente ao jornal Folha de S. Paulo,
você diz que a exibição de uma transa na internet por jovens do sexo
masculino, apesar de chocante, não surpreende (Maria Luiza foi
entrevistada sobre o caso dos dois adolescentes do Colégio Santo Inácio,
reduto da classe média carioca, que fotografaram um deles transando com
a colega e disseminaram as imagens na rede). O que está por trás disso?
MARIA LUIZA HEILBORN - O que acontece é que se tem uma mudança de
comportamento sexual no Brasil nas últimas três décadas. Uma delas é a
perda do valor da virgindade feminina para honra da própria família ou
da moça. Isso não mais implica em ela estar fadada a não se casar. O que
era impensável há três, quatro décadas, aqui no Brasil. E se observa
isso através da diminuição da idade mediana de entrada na vida sexual,
que tem caído por aqui. Hoje em dia as moças transam com seus namorados,
sem que isso reflita necessariamente qualquer coisa do ponto de vista da
moral. Contudo, embora ocorra o que nós chamaríamos de uma mudança de
comportamento, permitindo a entrada das jovens e das adolescentes no
exercício da sexualidade, coisa que do ponto de vista histórico os
rapazes já faziam, por que sempre se iniciaram mais cedo do que as moças
- agora é que está ocorrendo uma equiparação -, eles faziam isso com as
profissionais do sexo, empregadas domésticas, falando em camadas médias.
Hoje não, eles transam com suas namoradas. Entretanto, essa mudança não
tem se traduzido no aumento de uma percepção por parte dos rapazes,
sobretudo os de camadas superiores, em relação ao lugar da mulher na
relação afetiva. A moça de hoje transa, mas se tiver mais de um parceiro
ela ainda será malfalada. A virgindade perdeu o seu valor como uma coisa
moral, mas a classificação moral das moças permanece existindo em função
do número de parceiros. Não é percebida a idéia de uma liberdade sexual
para as meninas. Razão pela qual esse menino (o que liberou as imagens
na internet) se deu ao direito de fazer isso. Há um elemento de profundo
desrespeito, e mesmo um conteúdo de violência sexual, no fato de ele ter
exposto a menina a ser fotografada e depois colocar isso na internet.
CB - O que isso traduz?
MLH - Um profundo desrespeito em relação à individualidade da menina e à
forma com a qual ela consentiu ter relações com ele. Constitui uma
violação da privacidade dela. Nesse sentido, isso é profundamente
característico da maneira como as relações entre gêneros estão
constituídas, sobretudo entre jovens de camadas médias. A moça transa
com um rapaz ao qual define como sendo namorado - portanto tem um
vínculo afetivo, não é um ficante apenas, ou uma coisa de um episódio
qualquer -, e ele expõe isso como uma bravata, como efeito de exibição
de masculinidade, para provar que ele é macho, e espalha a imagem da
menina. O ato em si revela a maneira como ele vê a moça. E essa maneira
implica em desrespeito e na não valorização da menina pelo fato de ela
consentir ter relações sexuais com ele. E não faz com que ele evite
expô-la.
CB - A bravata masculina é algo que existe há muito tempo, o que parece
ter mudado foi só o meio. Agora tem a internet, mas antes isso era feito
de boca em boca, não?
MLH - Veja só, tenho um artigo chamado A primeira vez nunca se esquece,
publicado em 1995, que fala sobre isso. É o seguinte: assim que os
rapazes transam, eles contam para os amigos. A iniciação sexual e as
relações seguintes são elementos fundamentais para construção da
identidade masculina. Então, contar para os colegas é uma maneira de se
afirmar como homem, e isso é uma coisa bastante tradicional na sociedade
brasileira. No caso da exibição na internet, ele combina
tradicionalismo, a tentativa da afirmação da virilidade através do fato
de tornar público que ele já tem relações sexuais, com o uso da
tecnologia moderna. É uma combinação das duas coisas. Mas é bom dizer
que essa difusão de relações sexuais na internet não é uma coisa de
jovens, está disseminada em várias faixas etárias.
CB - Qual o papel da internet nessa história toda? Especialistas não se
cansam de dizer que a grande rede modificou comportamentos sexuais, mas
até que ponto? Existem agora novos paradigmas?
MLH - O que a gente vê na internet é uma fenômeno, no sentido da
exposição de imagens sexuais. Isso é inegável, mas não é o único meio.
Por exemplo, na pesquisa Gravad detectamos que uma forma de socialização
para a sexualidade é vendo filmes pornôs. Hoje é fácil alugar ou baixar
um filme pela internet. A visualização das relações sexuais se tornou
uma coisa que integra a socialização, sobretudo masculina, para a
sexualidade. É algo de escandaloso se imaginar que os filmes pornôs são
uma espécie de roteiro de aprendizado para os meninos. Aquilo é uma
ginástica (risos).
CB - A busca pela erotização é muito maior hoje por causa da internet ou
é uma demanda da própria sociedade contemporânea?
MLH - A sexualidade é um tema fundamental da contemporaneidade. E ela
não afeta só os jovens, mas o conjunto da população. No caso dos jovens,
eles estão no período formativo, se formando como pessoas, se
socializando. Eles estão sendo, claro, influenciados por essas novas
formas. Uma coisa é ver um vídeo, uma revista masculina, mas qual é o
impacto disso na mudança de comportamento? Por exemplo, comparando com
outras gerações, o que se percebe é uma iniciação na vida sexual mais
cedo e uma experimentação sexual de práticas que estão sendo mais
difundidas, sobretudo o sexo oral. Principalmente as moças declarando
que fazem. Antes, elas podiam até fazer, mas existia um pudor maior em
declarar isso. E isso está sendo encarado como uma prática que integra o
repertório sexual.
CB - Ao que se deve essa maior liberalidade em relação ao sexo oral por
parte dos jovens?
MLH - No momento, ela existe nitidamente em função de uma mudança de
mentalidade na cultura, trazida pelos meios de comunicação. E no caso
das mulheres das novas gerações - isso em todo mundo - deixou de ser uma
atividade considerada imoral para as moças. Antigamente, só as
profissionais do sexo faziam sexo oral. Virou uma prática socializada. E
essa é uma das grandes mudanças de comportamento sexual.
CB - Na pesquisa Gravad, você conclui que há uma relação mais respeitosa
com as garotas por parte dos meninos de classes sociais menos
favorecidas. Por que isso acontece?
MLH - Não é que os rapazes de camadas sociais mais baixas são todos eles
mais respeitosos. Mas quando se comparam as declarações masculinas de
pessoas com até o nível fundamental de escolaridade, com os rapazes que
estão na universidade - isso falando de jovens de 18 a 24 anos -, se
observa que os rapazes de menor instrução, de camadas populares, têm
relativamente com suas namoradas uma posição mais respeitosa, visível na
maneira como ele escolheram suas repostas, com relação aos rapazes de
camadas médio/superiores.
CB - Qual a evidência que aponta nessa direção?
MLH - É como se tivesse nos rapazes de camadas médio/superiores um certo
tipo de "desprezo" em relação a uma posição mais respeitosa frente à
questão da igualdade. É como se eles se permitissem zombar do ideal da
igualdade entre sexos, como se houvesse uma combinação de poder
aquisitivo com a capacidade de ser mais machistas ainda, enquanto forma
de expressão da virilidade. Isso não é para todos, é para uma parcela.
Mas tem um nicho de rapazes - tipo os pittboys -, para quem o poder
econômico se acopla com o desprezo a idéias de igualdade, à intolerância
com a homossexualidade. É como se a posição de ter recursos os
autorizasse a ser mais preconceituosos. Articulam dominação de classe
com dominação masculina.
CB - Isso não é um paradoxo? Imagina-se que quanto mais recursos e grana
se tem, o natural é que se fosse mais bem informado...
MLH - Veja só, o que estou dizendo é que há uma parcela. Não são todos
os jovens de classe média. Mas certamente existe uma combinação perversa
entre o fato de estar no topo da pirâmide social e ser "homem". É o
rapaz que aposta no fato de ser um garanhão, por exemplo, como forma de
construção de uma identidade. Mas nem todos de classe média fazem isso.
Embora nos questionários e entrevistas, se percebe que existe esse
perfil de masculinidade.
CB - O machismo ainda alcança altos índices nos homens dessa nova
geração?
MLH - Existe machismo, sim. Mas hoje em dia, e isso é bem interessante,
quem tem mais coragem de se assumir como machista são os de alta classe
social e alguns segmentos de camadas populares. Freqüentemente vai
aparecer isso, nas camadas populares, entre pessoas que abandonaram os
estudos muito cedo, e entre indivíduos com carreiras ligadas à
criminalidade e ao tráfico.
CB - Seria pertinente dizer que, enquanto as mulheres evoluíram no campo
sexual, os homens ainda se prendem a valores arcaicos?
MLH - Não gosto do termo evolução; prefiro dizer mudança nos costumes
sexuais. As mulheres apresentam hoje uma entrada na vida sexual mais
cedo, o que é uma forma de eqüidade entre gêneros. Mas ainda há o medo
de ser malfalada, recriminada. Tem avanços, porém esses avanços não são
totais. Mas o avanço na modernização é das mulheres. Há uma enorme
resistência dos homens em acompanhar o comportamento feminino. E tem um
outro dado importante que tem que ser levado em conta: as mulheres são
mais expostas à escolarização do que os homens, e nesse ponto elas são
elementos de modernização muito mais fortes. O que não quer dizer que
elas não queiram um príncipe encantado que as sustente.
CB - Essa mudança foi acompanhada também pela forma como a família
enxerga a questão da sexualidade na juventude?
MLH - Com certeza. As mudanças na sexualidade juvenil só podem ser
compreendidas por que houve mudanças nas relações interdirecionais. Os
pais compreendem mais, certamente. Houve um avanço no sentido de que os
pais sabem ou fecham os olhos ao fato de que os filhos adolescentes
tenham relações sexuais. Mas a pesquisa mostra que quanto mais alta a
mãe está na hierarquia social, sobretudo em relação ao grau de
escolaridade, mais elas conversam sobre sexualidade com os filhos. Os
pais ainda interferem pouco, e nisso nota-se que as mulheres novamente
têm um papel de elemento modernizador.
CB - Em seu artigo Ultra-som de uma tragédia nacional você diz que a
gravidez na adolescência não é o mal que se noticia. O que de certa
forma é um contra-senso do que diz a maioria dos especialistas da área.
Baseado em que você afirma isso?
MLH - Quando a gente define gravidez na adolescência, falando do ponto
de vista das estatísticas de saúde, estamos tratando de dois grupos: de
10 a 14, e 15 a 19 anos. E ao se falar de gravidez na adolescência no
Brasil, sobretudo na mídia, se põe no mesmo saco coisas muito
diferentes. O percentual de gravidez de 10 a 14 anos que encontrei na
minha pesquisa foi de 1,9%. De 15 a 19 anos, está entre 15% a 18%. E de
18 a 19 anos está em torno de 30%. Você percebe então que as meninas
estão se tornando grávidas nas idades mais altas daquilo que estamos
chamando de adolescência. Só que quando a mídia e os formuladores de
políticas públicas falam em gravidez na adolescência, os exemplos
trazidos são das meninas de 12 ou 13 anos. Mas elas não são o
contingente expressivo de quem está ficando grávida no Brasil. Há uma
distorção dos dados. A gravidez na adolescência é um problema sim, mas
não é o drama, a tragédia que se fala.
CB - Sua pesquisa colhe depoimentos e entrevistas de jovens de três
grandes capitais do país, e de regiões distintas: Rio de Janeiro, Porto
Alegre e Salvador. Quais as principais diferenças entre elas?
MLH - Salvador é bem mais conservadora do que o Rio e Porto Alegre. A
idade sexual de iniciação para as moças está em Porto Alegre, não é nem
no Rio de Janeiro. Das três cidades, Salvador é o lugar onde é mais
tardia a iniciação sexual. O segundo ponto é que, para Salvador, a
família tem muito mais importância na maneira como os jovens descrevem a
tomada de decisões. O grau de respeito em relação à figura da mãe é
muito forte na Bahia. A categoria "mainha" é muito importante em
Salvador. Esse material não aparece nos materiais gaúcho e carioca. A
diferença da idade de iniciação sexual entre rapazes e moças é mais alta
em Salvador, e eu tenderia a dizer que a virgindade em Salvador
permanece com um valor um pouco mais forte do que nas outras duas
cidades pesquisadas.
Aqui Salvador, Correio da Bahia, 16.07.2005
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