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Cremesp critica lobby das
bebidas na Câmara
Folha de S.Paulo, 09/05/08.
Diretor de conselho de medicina diz que adiar votação
sobre anúncio de bebidas colabora para que famílias sigam "sendo dizimadas"
Representantes da indústria de cerveja, de agências de
publicidade e de emissoras de TV estiveram, em abril, quase todos os dias no
Congresso
RICARDO WESTIN
DA REPORTAGEM LOCAL
ANGELA PINHO
MARIA CLARA CABRAL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A principal entidade médica de São Paulo disse que
"famílias continuarão sendo dizimadas" pelo fato de a Câmara dos Deputados
ter retirado o status de urgente do projeto de lei que tira as propagandas
de bebidas alcoólicas do rádio e da TV entre as 6h e as 21h.
A tramitação da proposta agora pode se arrastar por meses e até anos.
"Famílias continuarão sendo dizimadas, a violência doméstica continuará
sendo freqüente e o Brasil seguirá como o campeão em acidentes
automobilísticos. Tudo isso por causa do álcool", disse Desiré Callegari, um
dos diretores do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São
Paulo). "Infelizmente, é o aspecto econômico que está norteando a política
brasileira de bebidas."
Representantes da indústria de cerveja, de agências de publicidade e
principalmente de emissoras de TV estiveram quase cotidianamente no
Congresso no último mês para pressionar parlamentares a tirar o texto da
pauta de votação.
"Tínhamos um representante, não saímos daí", admitiu Marcos Mesquita,
superintendente do Sindicato da Indústria de Cerveja. "Já fui procurado por
grupos ligados ao Ministério da Saúde, organizações não-governamentais
contrárias e favoráveis e empresas de comunicação", disse o líder da minoria
na Câmara, deputado Zenaldo Coutinho (PSDB-PA).
Deputados também afirmaram, sob a condição de não serem identificados, que
foram procurados por lobistas da Associação Brasileira das Agências de
Publicidade. O presidente da entidade, Dalton Pastore, nega qualquer tipo de
articulação no Congresso. "Toda a nossa manifestação contrária foi feita
publicamente", disse.
A retirada do projeto da pauta ocorreu numa reunião anteontem em que
estiveram presentes, além do líder da minoria, o presidente da Câmara,
Arlindo Chinaglia (PT-SP), e os deputados Henrique Fontana (PT-RS), Maurício
Rands (PT-PE), Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), detentor de concessões de
rádio e televisão, e Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), cuja família é
dona da TV Bahia.
O projeto é de autoria da Presidência da República. O presidente da Câmara
acabou com a urgência da proposta com o aval do ministro das Relações
Institucionais, José Múcio.
"É triste ver o Congresso se curvar frente às redes de TV", disse o médico
Ronaldo Laranjeira, que coordena a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da
Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
No ano passado, a indústria da cerveja teve um faturamento bruto de R$ 26
bilhões.
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