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Exposição da fotógrafa carioca Claudia Ferreira quer contribuir para acabar com a imagem rançosa do movimento feminista

O Globo, 08/03/08.
 

Bety Orsini

A fotógrafa Claudia Ferreira não suporta mais a imagem que venderam do movimento feminista: a de um bando de mulheres mal-amadas que odeia homens e, como destemidas amazonas, querem criar uma sociedade onde o sexo masculino é preterido. É esta visão rançosa que ela critica em “Mulheres e movimentos”, inaugurada ontem, no Shopping Vertical, e que segue até 28 de março.

O projeto nasceu em 89, quando Claudia, que já morou alguns meses na Tunísia e em Paris, apurou seu olhar sobre o movimento.

— Naquele momento, desmanchava-se o estereótipo da feminista que eu criei na minha cabeça. Elas estavam em todas as classes sociais, níveis intelectuais, idades, etnias, e tinham experiências de vida distintas. Descobri que era uma delas — diz a fotógrafa, que ganhou sua primeira câmera, uma Kodak 400, da mãe.

Registrar esses movimentos que envolvem os direitos da mulher virou uma espécie de obsessão.

— Eu fotografava simplesmente porque sentia um prazer enorme de ser observadora e participante dessa história. Na exposição, tento mostrar um movimento feminista mais humano, sem aquele clichê de mulheres neuróticas que não gostam de homens, e sim de mulheres que lutam por seus direitos.

As 25 fotos que estarão espalhadas pelos andares do shopping traçam um panorama do feminismo no mundo. Cliques em lugares distintos como Pequim e Dubai revelam diferentes realidades, mas expõem o mesmo pano de fundo: a incessante luta pelos direitos da mulher. Claudia, que começou sua carreira em 77, prefere fotografar em preto-e-brando, assim como seus ídolos na arte de capturar o efêmero, como os franceses Cartier-Bresson e Robert Doisneau e, tematicamente, o brasileiro Sebastião Salgado.

A última parada da exposição foi a galeria multimídia Riverside Studios, em Londres, em novembro passado.

— Tive um retorno muito grande do público, que teve sua curiosidade despertada tanto por eu ser brasileira quanto por ter escolhido um tema como o feminismo — diz Claudia, que já levou o projeto a cidades como São Paulo, Porto Alegre, Brasília, Salvador e João Pessoa.

Suas imagens, ao mesmo tempo fortes e delicadas, transitam por universos tão distintos quanto o momento em que uma mulher indígena faz a maquiagem tradicional de sua tribo, ou o flagrante de um menino chinês calçando os sapatos da mãe, ao mesmo tempo em que carrega uma arma. É sua foto preferida.

— Além de ser uma bela imagem, ela sugere, com o sapato alto e a arma, a inocência dessa criança, que brinca com os dois indistintamente. Fiz a foto quando caminhava por um dos hutongs de Pequim, espaços antigamente destinados aos nobres e que hoje se transformaram em cortiços.

O projeto “Mulheres e movimentos” vai além da exposição. Consiste em um livro homônimo — com 260 fotografias, lançado pela Aeroplano, com textos da socióloga Claudia Bonam, edição de Heloísa Buarque de Hollanda e apresentação da ministra da Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres, Nilcéa Freire — e um futuro site com imagens de movimentos sociais.

 

Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher
 
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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