Campanha com modelo
anoréxica rouba a cena na Semana de Milão

Uma campanha
publicitária que usa uma modelo anoréxica está roubando a cena na
abertura da Semana Internacional da Moda de Milão.
Os anúncios, expostos em jornais
e outdoors italianos, mostram uma modelo nua sob os dizeres "No
Anorexia" ("Não Anorexia"). A modelo é a jovem francesa Isabelle
Caro, que pesa apenas 31 quilos.
A campanha é cria do italiano Oliviero Toscani, conhecido pelas
polêmicas campanhas da Benetton nos anos 80 e 90 que usavam fotos
abordando temas como Aids, guerra e racismo.
Em entrevista à BBC Brasil, Toscani defendeu a nova campanha,
dizendo que, em contraste com o corrente no mundo da publicidade de
moda, ela busca uma aproximação com a "condição humana".
"Toda a publicidade de moda e as revistas e os jornais de moda se
afastaram dela, se tornaram abstratas, esvaziaram o ser humano. A
gente olha essas campanhas e vemos o vazio, e dizemos a nos mesmo:
essas pessoas são como garrafas vazias", diz Toscani.
Prioridade
A campanha, da griffe de moda Nolita,
contou com o aval do Ministério da Saúde da Itália.
A luta contra a anorexia é uma das prioridades do governo do premiê
Romano Prodi. Hoje, cerca de 2 milhões de italianos sofrem da doença
e de bulimia.
A ministra da Saúde Lívia Turco afirmou, em nota oficial, que “uma
iniciativa como esta é importante para abrir um canal de comunicação
privilegiado com o público jovem, através de uma mensagem clara e
capaz de chamar a responsabilidade para este drama”.
Oliviero Toscani criou a campanha tendo em vista um público muito
mais amplo do que os consumidores de moda.
“A idéia não é uma campanha para o povo da moda, mas sim para quem
olha para moda, para as meninas, as jovens, as estudantes, todos os
públicos. O rei está nu”, disse ele.
O fotógrafo, que já tinha abordado o tema em um filme que chegou a
ser apresentado no festival de Locarno, acha que "a responsabilidade
deste problema não é apenas do mundo da moda".
"Existem as mães, a família, a desilusão de quem não se identifica
com a imagem projetada pela mídia. Uma garota vê uma foto de moda ou
uma imagem da televisão e pensa consigo mesma: 'Eu não poderia nunca
ser assim', e assim tenta desaparecer, se auto-destruir, é um
drama”, afirmou Toscani.
Ele conta que não foi difícil encontrar uma menina anoréxica. “Eu a
procurei com um diretor de cinema busca uma atriz para um filme.”
'Imoral'
Mas vender roupa usando como imagem quem
não tem como vesti-la não foi uma estratégia fácil de ser colocada
no mercado. O principal jornal da Itália, o Corriere della Sera,
se recusou a estampar a fotografia.
A campanha também ficou longe das ruas da França, sendo vetada nos
outdoors. “A justificativa era de que a imagem era imoral. Não
somos, ainda, civilizados“, afirmou Toscani.
Toscani acredita que, mesmo com a polêmica em
torno da campanha, ela deve ter bons resultados.
“Acho que isso pode ser o começo de um novo ciclo de publicidade,
vamos ver o que acontece. Não são tantos os clientes que possuem a
coragem de fazer uma campanha como esta. Todos pensam que a
comunicação publicitária deve ser falsa ou artificial, mas eu acho
que se pode fazer algo interessante e tirar vantagens econômicas ao
mesmo tempo.”
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