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Ceará: autocrítica sobre parcialidade da mídia

Por Angela Freitas*
Blog Mulheres de Olho, 13/02/08.
 
 

 
A assistente social e coordenadora do Fórum Cearense de Mulheres Beth Ferreira, sugeriu que o Mulheres de Olho comentasse a crítica em relação à parcialidade da cobertura sobre o lançamento da Campanha da Fraternidade 2008 feita pelo jornal O Povo, “o mais respeitado do Ceará e de maior circulação em Fortaleza”.

Um dado importante é que esta crítica partiu do ombudsman do jornal, Paulo Verlaine, no artigo “E o princípio da divergência?”, publicado na última sexta-feira, 09. Este título resgata os termos da Carta de Princípios do jornal, que reconhece o “papel superior da Imprensa, posta a serviço da verdade, na defesa da livre manifestação das idéias, do princípio da divergência e do espírito crítico, como condição da preservação das prerrogativas democráticas da cidadania”.

A proposta de exclusão da criminalidade do aborto, em pauta no Congresso Nacional, tem sido sistematicamente combatida pela mídia cearense, e o jornal O Povo não fugiu à regra e “entrou também no ritmo da ofensiva antiaborto”. Verlaine cita enumera exemplos recentes:

    na coluna de Valdemar Menezes, publicada no domingo, 09, destaca a resistência do editor de Opinião do jornal a respeito do aborto legal ao afirmar que “mesmo quando essa vida for fruto de um estupro, isso não modifica a situação do ponto de vista moral. Nesse caso, o máximo que a mulher pode fazer, é entregar o filho para outros criarem”.

    na edição da Quarta-Feira de Cinzas (6/2) a coluna Vertical traz uma nota com o título: “Xô, aborto!”

    a editora-assistente do caderno Vida & Arte, Regina Ribeiro, escreveu o artigo “Aborto é saída para quem?”, publicado em Opinião (6/02), afirmando - “Sou contra o aborto por considerá-lo uma violência”.

    o texto de uma reportagem na seção nacional da mesma edição afirma que a Igreja Católica coloca como dever dos profissionais da saúde a oposição ao aborto.

Para Verlaine:

“falta nas páginas deste jornal um contraponto de pessoas (alguns católicos, inclusive) que defendem o aborto, em casos especiais e dramáticos (estupro, gravidez com perigo de morte para a mãe, feto sem cérebro) e outras que simplesmente querem que a interrupção artificial da gravidez não seja mais considerada crime”.

“Há uma rede bem articulada”

Em conversa com o Mulheres de Olho, Beth Ferreira acrescentou que Fortaleza hoje concentra a ação de grupos antiabortistas, sempre com muita visibilidade nas televisões, rádios e jornais impressos, que publicam “artigos e pequenas notas toda semana”. Como em outras cidades brasileiras, foi criado em Fortaleza, em setembro de 2007, um Comitê Cearense Brasil sem Aborto; duas frentes antiabortistas estão em atividade - uma na Câmara e outra na Assembléia Legislativa - promovendo audiências públicas que contam com a cobertura fiel da TV Assembléia e ganham matéria de capa nos jornais. Um visitante freqüente à cidade tem sido o deputado federal espírita Luis Bassuma (PT/ BA), líder de uma das frentes parlamentares contra o aborto criadas na Câmara Federal.

Exposição itinerante contra o aborto foi inaugurada em um shopping center de Fortaleza, organizada pela ONG espírita Estação da Luz e financiada por várias empresas de segurança e pela Unimed de Fortaleza. O evento teve ampla visibilidade, com chamadas no circuito de TV do Aeroporto e divulgação nos jornais e na televisão local.

Movimento de mulheres rema contra a maré – Na contramão dessa maré retrógrada, o movimento de mulheres se mobiliza:

“Tivemos uma ação intensa no ano passado. Realizamos, por exemplo, um ato no mês de maio, na Assembléia Legislativa, em protesto contra a atuação do deputado que preside a frente parlamentar antiabortista, cuja postura é extremamente homofóbica. Conseguimos apenas uma nota em um jornal impresso”.

No marco do Dia 28 de Setembro (Dia Latino-americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização do Aborto), além de dezenas de rodas de conversa com a população, que culminaram com um ato e caminhada no centro de Fortaleza, o movimento de mulheres organizou uma audiência pública na Assembléia Legislativa sobre a questão do aborto. Desta vez houve visibilidade na imprensa, mas houve também gestões para que as mulheres aceitassem a presença de representantes da frente contra o aborto na mesa, o que estaria correto dentro das regras democráticas, se nas audiências organizadas pelo outro lado a recíproca fosse verdadeira, como diz Beth Ferreira:

“Quando as mulheres conseguem o espaço lidam com a exigência de que é preciso ouvir o outro lado. É difícil a opinião não estar contaminada. Temos dois jornais importantes, que se colocam como imparciais, mas não o são… e as televisões locais e rádios que pautam o tema - com exceção da Universitária – pouco espaço dão para o contraponto do movimento feminista…”.

* Angela Freitas é editora do Blog Mulheres de Olho/Instituto Patrícia Galvão.

 
Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher
 
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram que as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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