Um dado importante é que esta crítica partiu do ombudsman do jornal, Paulo Verlaine, no artigo “E o princípio da divergência?”, publicado na última sexta-feira, 09. Este título resgata os termos da Carta de Princípios do jornal, que reconhece o “papel superior da Imprensa, posta a serviço da verdade, na defesa da livre manifestação das idéias, do princípio da divergência e do espírito crítico, como condição da preservação das prerrogativas democráticas da cidadania”.
A proposta de exclusão da criminalidade do aborto, em pauta no Congresso Nacional, tem sido sistematicamente combatida pela mídia cearense, e o jornal O Povo não fugiu à regra e “entrou também no ritmo da ofensiva antiaborto”. Verlaine cita enumera exemplos recentes:
na coluna de Valdemar Menezes, publicada no domingo, 09, destaca a resistência do editor de Opinião do jornal a respeito do aborto legal ao afirmar que “mesmo quando essa vida for fruto de um estupro, isso não modifica a situação do ponto de vista moral. Nesse caso, o máximo que a mulher pode fazer, é entregar o filho para outros criarem”.
na edição da Quarta-Feira de Cinzas (6/2) a coluna Vertical traz uma nota com o título: “Xô, aborto!”
a editora-assistente do caderno Vida & Arte, Regina Ribeiro, escreveu o artigo “Aborto é saída para quem?”, publicado em Opinião (6/02), afirmando - “Sou contra o aborto por considerá-lo uma violência”.
o texto de uma reportagem na seção nacional da mesma edição afirma que a Igreja Católica coloca como dever dos profissionais da saúde a oposição ao aborto.
Para Verlaine:
“falta nas páginas deste jornal um contraponto de pessoas (alguns católicos, inclusive) que defendem o aborto, em casos especiais e dramáticos (estupro, gravidez com perigo de morte para a mãe, feto sem cérebro) e outras que simplesmente querem que a interrupção artificial da gravidez não seja mais considerada crime”.
“Há uma rede bem articulada”
Em conversa com o Mulheres de Olho, Beth Ferreira acrescentou que Fortaleza hoje concentra a ação de grupos antiabortistas, sempre com muita visibilidade nas televisões, rádios e jornais impressos, que publicam “artigos e pequenas notas toda semana”. Como em outras cidades brasileiras, foi criado em Fortaleza, em setembro de 2007, um Comitê Cearense Brasil sem Aborto; duas frentes antiabortistas estão em atividade - uma na Câmara e outra na Assembléia Legislativa - promovendo audiências públicas que contam com a cobertura fiel da TV Assembléia e ganham matéria de capa nos jornais. Um visitante freqüente à cidade tem sido o deputado federal espírita Luis Bassuma (PT/ BA), líder de uma das frentes parlamentares contra o aborto criadas na Câmara Federal.
Exposição itinerante contra o aborto foi inaugurada em um shopping center de Fortaleza, organizada pela ONG espírita Estação da Luz e financiada por várias empresas de segurança e pela Unimed de Fortaleza. O evento teve ampla visibilidade, com chamadas no circuito de TV do Aeroporto e divulgação nos jornais e na televisão local.
Movimento de mulheres rema contra a maré – Na contramão dessa maré retrógrada, o movimento de mulheres se mobiliza:
“Tivemos uma ação intensa no ano passado. Realizamos, por exemplo, um ato no mês de maio, na Assembléia Legislativa, em protesto contra a atuação do deputado que preside a frente parlamentar antiabortista, cuja postura é extremamente homofóbica. Conseguimos apenas uma nota em um jornal impresso”.
No marco do Dia 28 de Setembro (Dia Latino-americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização do Aborto), além de dezenas de rodas de conversa com a população, que culminaram com um ato e caminhada no centro de Fortaleza, o movimento de mulheres organizou uma audiência pública na Assembléia Legislativa sobre a questão do aborto. Desta vez houve visibilidade na imprensa, mas houve também gestões para que as mulheres aceitassem a presença de representantes da frente contra o aborto na mesa, o que estaria correto dentro das regras democráticas, se nas audiências organizadas pelo outro lado a recíproca fosse verdadeira, como diz Beth Ferreira:
“Quando as mulheres conseguem o espaço lidam com a exigência de que é preciso ouvir o outro lado. É difícil a opinião não estar contaminada. Temos dois jornais importantes, que se colocam como imparciais, mas não o são… e as televisões locais e rádios que pautam o tema - com exceção da Universitária – pouco espaço dão para o contraponto do movimento feminista…”.
* Angela Freitas é editora do Blog Mulheres de Olho/Instituto Patrícia Galvão.


