A obsessão por dietas, malhação e cirurgias plásticas é para
as mulheres um estorvo comparável ao espartilho. Será que um dia
elas vão conseguir se libertar?
BEATRIZ VELLOSO E MARIANA SANCHES
Para ter uma silhueta curvilínea, as mulheres do século XIX
usavam o espartilho. Esse artefato bizarro consistia em uma armação
feita de arame, varas de madeira e barbatanas de baleia revestida de
tecido. Na frente e atrás, cordões e colchetes. A estrutura era
colocada em volta do tronco da mulher, como uma armadura, e os
cordões apertados até o limite. A tortura aparece em filmes como
Titanic e ...E o Vento Levou - neste, a escrava Mammy era a
encarregada de espremer a cintura de Scarlett O'Hara. O objetivo do
espartilho era pressionar a barriga para dentro, estufar os seios
para cima e empurrar os quadris para trás. Ficava difícil respirar.
Os movimentos se tornavam restritos. Algumas mulheres não conseguiam
se sentar ou subir escadas. Não eram raros os casos de grávidas que,
com o uso do espartilho, abortavam. O artefato causava também
problemas respiratórios e digestivos. Por que, mesmo assim, era tão
usado? Por questões culturais. O padrão de beleza no século XIX era
o corpo em forma de violão. As moças espartilhadas se tornavam
desejáveis do ponto de vista dos homens e arranjavam bons
casamentos. Quando as mulheres conseguiram se livrar dele, no início
do século XX, foi uma revolução. E um tremendo alívio.
O espartilho faz parte daqueles objetos e costumes do passado
que, vistos com olhos de hoje, parecem estranhos, anedóticos ou
mesmo bizarros. Façamos, no entanto, um exercício. Aquele proposto
pelo escritor e filósofo italiano Umberto Eco no livro História da
Beleza. Eco sugere observar os dias de hoje com o olhar de um
cronista do futuro. Você está lendo o parágrafo acima em agosto de
2006, na edição 432 da revista ÉPOCA. Imagine o mesmo parágrafo
daqui a cem anos, no número 5.632 da revista, com data de agosto de
2106:
Para manter uma silhueta delgada, as mulheres do início do século
XXI eram obcecadas por dieta, exercícios e cirurgias plásticas. De
acordo com a Organização Mundial da Saúde, apenas 16% da população
mundial estava com excesso de peso. Mesmo assim, um estudo da
Universidade Harvard e da London School of Economics, duas
prestigiadas instituições acadêmicas daquela época, dava conta de
que 87% das mulheres se sentiam acima do peso. Por causa dessa
distorção cognitiva, elas se submetiam a tremendos sacrifícios. Uma
em cada dez danificava a saúde com dietas irresponsáveis. Outras
usavam laxantes - ou, pior, drogas inibidoras de apetite obtidas sem
receita médica.
A lipoaspiração, antiga prática da medicina que consistia na
introdução de cânulas sob a pele para sugar a gordura, tomou-se o
tipo mais popular de cirurgia plástica. Nas quatro últimas décadas
do século XX, a incidência de anorexia triplicou entre as mulheres.
Estranhas roupas, como a calça jeans tamanho zero, que ficaria
apertada em emas e garças, tornaram-se uma obsessão. Para caber
nelas, as mulheres faziam mais e mais dietas e cirurgias. Qual a
razão dessa loucura? O corpo delgado era o padrão de beleza,
simbolizado pela modelo brasileira Gisele Bündchen. Gisele, pelos
critérios da Organização Mundial da Saúde, poderia ser considerada
anoréxica. Não que as mulheres se tomassem mais desejadas. Crônicas
de tempos idos mostram que os homens ainda preferiam o estilo mais 'cheinho'.
Magras, no entanto, elas se sentiam poderosas e causavam inveja às
outras mulheres".
Certamente a reportagem do futuro elencaria casos como o da
produtora paulistana Andrea Moreno, de 27 anos. Com 1,73 metro de
altura, 57 quilos, 64 centímetros de cintura e 97 centímetros de
quadril, ela tem proporções saudáveis. Mas não está feliz." Sempre
acho que tenho de perder uns 3 quilos", diz Andrea. "E as pessoas
sempre acham que sou neurótica." Sua rotina inclui pelo menos uma
hora de malhação por dia e uma alimentação que consiste em uma
xícara de café com leite pela manhã, um pãozinho e uma barra de
cereais no meio do dia e uma salada à noite. Ela já fez a dieta de
South Beach, a do Dr. Atkins, a da sopa (que inclui apenas líquidos)
e outras tantas retiradas de revistas. A publicitária fluminense
Urika Coimbra, de 28 anos, coloca as coisas em outros termos:" Gosto
de ver a calça caindo". Ela tem 1,70 metro de altura e pesa 54
quilos. Faz três horas de ginástica por dia, entre sessões de
musculação, corrida e spinning (exercício com bicicletas). Até ricas
e famosas, como a apresentadora Angélica, caem vítimas da obsessão.
Em julho deste ano, ela surpreendeu com um look mais esbelto que o
costumeiro durante a São Paulo Fashion Week. Para consegui-lo,
admitiu ter feito sacrifícios demais." Comecei a me sentir fraca,
meio caída", disse na época à revista Quem.
O caso de Angélica chamou mais a atenção por ela se tratar de uma
figura pública. Mas, exageros à parte, nem Angélica, nem Andrea, nem
Urika são casos patológicos. A preocupação delas com o peso é comum
a milhares de outras mulheres - juntas, as três refletem o espírito
do tempo. São obcecadas por magreza pelo mesmo motivo que levava as
mulheres de antigamente a usar espartilho. É uma questão cultural.
Estudiosos apontam a gênese do culto à magreza no fim do século XIX,
quando a Revolução Industrial estava a toda, os operários eram
substituídos por máquinas e a produção de alimentos atingia
quantidades sem precedentes." As pessoas tiveram ?de aprender a
lidar, ao mesmo tempo, com um estilo de vida mais sedentário e uma
abundância de comida nunca vista", diz a americana Joan Jacobs
Brumberg, professora de História da Universidade Cornell e autora do
livro Fasting Girls (Garotas em Jejum).
No início do século XX, a liberação dos costumes que se seguiu ao
final da era vitoriana engendrou um modismo que deixava corpos mais
expostos e mulheres mais preocupadas com a boa forma: o hábito de ir
à praia e tomar sol. "Espelhos e balanças passaram a ser objetos
comuns nos lares da classe média, e os níveis de auto-exigência e
insegurança aumentaram", afirma Joan. Claro que tudo teve um lado
positivo. Evitar comidas gordurosas, dosar sal e açúcar, ter uma
dieta balanceada e fazer exercício físico regularmente são hábitos
saudáveis, recomendados por qualquer médico. Uma dose sensata de
vaidade também é bem-vinda. O problema é que, depois, as coisas
saíram do controle. A linha entre o bom senso e o exagero foi
ultrapassada nos anos 60. Embaladas pelo movimento feminista e pela
revolução sexual, as mulheres passaram a negar o antigo modelo de
beleza, o corpo de violão, que misturava cinturinha fina a seios,
quadris e coxas fartos. Surgiu um estilo em que as formas femininas
eram apagadas. "Elas estavam rejeitando o papel da rnulher-objeto,
ou da fêmea de ancas largas que servia apenas para reproduzir", diz
o sociólogo Dario Caldas, da Universidade de São Paulo. Figuras como
a modelo inglesa Twiggy mostraram novas formas de ser bonita: pouco
busto, pouco bumbum, cabelos curtos, jeito de menino e muito charme.
A década de 60, quando as linhas esguias de Twiggy passaram a
conviver com as curvas de Sophia Loren, marcou também o início do
divórcio entre o padrão de beleza masculino e o feminino. No
momento, o embate entre os dois modelos pode ser representado pela
volúpia da musa deles, a atriz Cleo Pires, diante da esbelteza da
representante do novo padrão delas, a modelo Gisele Bündchen.
"Todos os dias minha namorada acorda e diz: 'Acho que engordei'.
Não consigo ver onde tem gordura, não quero que ela fique magra
demais." O comentário vem de Thiago Marques, de 26 anos, sobre a
companheira Ana Carolina Gequelin, modelo paranaense de 23 anos. Com
1,74 metro de altura e 55 quilos, ela tem formas perfeitas - o
atestado disso é que trabalha em propagandas de biquíni e lingerie.
"Se paro para pensar, sei que estou bem e tenho um corpo bonito. Mas
vivo vendo defeito na coxa, na barriga", diz Ana Carolina. A
explicação para a discrepância é simples." Os homens desejam corpos
diferentes do deles, com peito, ancas, coxas", diz Joan Jacobs
Brumberg." Mas as mulheres, como todo mundo sabe, gostam de se
enfeitar umas para as outras." A paulistana Sidinéia Schwarzwalder,
de 34 anos, confirma a teoria. O marido sempre reclama de sua mania
de se achar gorda. "Existe uma pressão social", afirma ela. "Mas a
cobrança maior é minha mesmo."
De acordo com os biólogos, o fato de os homens preferirem
mulheres mais voluptuosas tem a ver com a evolução. O darwinismo
ensina que os instintos humanos foram formados ao longo de milênios.
Aqueles que contribuíram para a preservação da espécie permaneceram.
Para os homens, as mulheres de quadris mais largos tinham maior
probabilidade de ter filhos saudáveis, pelo menos até a invenção da
cesariana. Seguindo a mesma lógica, as de seios fartos tinham leite
de melhor qualidade.
Mulheres que querem ser magras contrariam essa lógica. Segundo a
autora do livro Female Fertility and the Body Fat Connection (A
Conexão entre Gordura Corporal e Fertilidade Feminina), Rose Frisch,
professora da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, certa
quantidade de gordura é crucial para o funcionamento eficiente do
sistema reprodutivo e do desenvolvimento sexual. Segundo ela, uma
gravidez bem-sucedida necessita de 50.000 calorias a mais que as
exigências metabólicas normais. "A gordura converte o hormônio
masculino androgênio no hormônio feminino estrogênio", disse Rose em
uma entrevista à rede de televisão britânica BBC.
É claro que o divórcio entre o padrão feminino e o masculino de
beleza não pode ser explicado apenas pela necessidade de
auto-afirmação que ocorreu com o feminismo. Seria uma conclusão
simplista. Existem vários outros fatores envolvidos. No século XIX,
uma moça se casava aos 17 anos - em geral, com um homem bem mais
velho -, rinha quatro ou cinco filhos na casa dos 20 e, aos 30, já
era uma matrona. Hoje, as mulheres casam mais tarde e querem parecer
jovens por mais tempo - e magreza sempre foi associada a juventude.
Segundo esse raciocínio, as mulheres que querem ser magras estão, de
certa forma, em sintonia com o gosto masculino. Os mesmos homens que
enaltecem as cheinhas também preferem as mais jovens. O psicólogo
evolucionista americano David Buss publicou em 1989 um estudo de
preferências amorosas em 37 culturas do planeta. Em todas, os homens
preferiam as mulheres mais novas, e as mulheres os homens mais
velhos.
Além dessas questões, a influência da mídia não deve ser
subestimada. Ao longo das últimas décadas, modelos delgadas tomaram
o lugar das atrizes de Hollywood no imaginário das mulheres. Não
existe uma manequim de renome em atividade que esteja dentro do
limite mínimo de peso recomendado pela Organização Mundial da Saúde
(OMS). A medida é o índice de Massa Corporal, ou IMC, peso da pessoa
dividido pela altura elevada ao quadrado (calcule seu IMC em www.epoca.com.br).
O índice saudável está entre 18,5 e 24,9 pontos. Acima disso, o
sujeito tem sobrepeso e pode estar obeso. Abaixo, está flertando com
anemia, subnutrição e anorexia, Gisele Bündchen tem 16,85 pontos de
IMC. (Por incrível que pareça, quando ela apareceu no mundo da moda,
houve quem dissesse que rompia a ditadura da magreza com seus 88
centímetros de busto.) Ainda assim, é uma das mulheres mais
invejadas do mundo.
No Brasil, a obsessão tem uma razão a mais para existir: a
possibilidade de ascensão social. "Os meninos querem ser famosos e
ricos como os jogadores de futebol, e as meninas querem ser modelo",
afirma Mirian Goldenberg, antropóloga da UFRJ e autora do livro De
Perto Ninguém É Normal: Estudos sobre Corpo, Sexualidade, Gênero e
Desvio na Cultura Brasileira." Quando elas vêem que a Gisele
Bündchen é uma das mulheres mais bem pagas do mundo (faturou US$ 30
milhões nos últimos 12 meses, segundo a revista Forbes), topam tudo
1 para tentar a mesma sorte."
O psicólogo Marco Antônio de Tommaso tem a mesma preocupação.
"Estão tomando como padrão um tipo que representa a ínfima minoria
da população", diz. Responsável pelo acompanhamento ?psicológico das
modelos de duas grandes agências de São Paulo, ele conversa com as
moças semanalmente. "Se percebo que a questão do peso está
prejudicando a cabeça ou a saúde, recomendo terapia regular."
Foi assim que Solange Fischborn, de 32 anos, 1,70 metro de
altura, tornou-se paciente de Tommaso. Quando começou na profissão,
ela vivia insegura. "Achava que ia perder trabalho se não
emagrecesse, fiquei paranóica", diz. Solange passava quatro horas
por dia na academia e comia menos que o indicado por sua
nutricionista. "Ela recomendava quatro colheres de arroz, eu comia
duas. Vivia à base de água e me achava imensa", diz ela. O alarme
soou quando ela chegou aos 55 quilos e amigos começaram a perguntar
se estava com aids. Três anos e 6 quilos a mais depois, Solange
encontrou o equilíbrio. "Estou feliz e sei que nunca vou ser
esquelética porque minha estrutura não é assim. Faço terapia com um
profissional, e não malhando na academia", afirma.
É natural que as modelos fiquem mais apreensivas com a boa forma:
o corpo é seu instrumento de trabalho. Mas não é normal que o resto
da população feminina pense o tempo todo em emagrecer, mesmo quando
isso não é necessário - ou é até contra-indicado. A obsessão começa
a alarmar médicos e psicólogos. "A incidência de comportamentos que
podem levar a transtornos alimentares está em alta", afirma a
psiquiatra Maria Angélica Nunes, autora do livro Transtornos
Alimentares e Obesidade. Ela coordenou uma pesquisa segundo a qual
30% das mulheres fazem jejum ou tomam laxantes uma vez por mês na
tentativa de perder peso.
Mais assustador ainda é o consumo de drogas ou de remédios sem
receita médica para inibir o apetite. No momento, o perigo atende
pelo nome crystal meth, ou ice. Trata-se de um tipo perigoso de
metanfetamina, que deixa o usuário sem fome e é altamente viciante.
Os efeitos colaterais são devastadores. A droga pode afetar a
memória, o sistema respiratório, alterar os batimentos cardíacos e
até levar à morte. Crystal meth é a ponta sombria de um problema que
coloca o Brasil no primeiro lugar de um ranking nada louvável: somos
campeões no consumo de remédios para emagrecimento, à frente até dos
Estados Unidos. Segundo reportagem que será publicada na revista
Maríe Claire de setembro, mais de 2 milhões de mulheres brasileiras
já experimentaram algum tipo de inibidor de apetite - e muitas estão
ficando viciadas.
Casos de anorexia entre mulheres cada vez mais jovens são outro
sintoma do problema. "Hoje, calcula-se que 0,5% da população mundial
sofre de anorexia", diz Marcelo Papelbaum, psiquiatra do Instituto
Estadual de Diabetes e Endocrinologia do Rio de Janeiro. A
porcentagem equivale a cerca de 30 milhões de doentes no planeta. A
estatística fica ainda mais assustadora quando se acrescenta um
dado: 20% dos casos de anorexia terminam em morte - por inanição,
parada cardíaca e até suicídio.
No horário nobre da TV, de segunda-feira a sábado, o drama das
anoréxicas é apresentado pela atriz Luiza Mariani para 46 milhões de
espectadores. Ela faz Julia, personagem da novela das 7, Cobras &
Lagartos, que sofre com o transtorno. Em um capítulo, ela não
encostou no prato. "Não posso comer, estou ficando gorda", disse.
Duas semanas depois, foi parar no hospital por causa de um desmaio.
Na cena, a personagem confessou ao médico que não ficava menstruada
havia três meses. A infertilidade é uma das conseqüências da doença.
O telespectador que continuar ligado vai topar, na novela das 8,
Páginas da Vida, com Arma (Deborah Evelyn) e Giselle (Rachel de
Queiroz), mãe e filha que vivem num embate. A primeira quer que a
filha seja bailarina e estabelece um regime de terror na alimentação
da criança. "Se continuar comendo desse jeito, você vai virar um
elefante", diz ela. A menina começa a apresentar problemas
psicológicos, e desenvolve bulimia.
A história de Giselle é atual. "Os casos de bulimia estão
aumentando nos últimos anos, principalmente entre mulheres jovens",
afirma Angélica Claudino, coordenadora do Programa de Orientação e
Assistência aos Pacientes com Transtornos Alimentares da Unifesp. Na
bulimia, ao contrário da anorexia, os doentes não perdem peso. Comem
compulsivamente e depois vomitam para emagrecer. Um levantamento em
bairros de classe média alta de São Paulo, feito pelas universidades
de São Paulo (USP) e Harvard (nos EUA), apontou uma probabilidade
nove vezes maior de mulheres apresentarem bulimia, em comparação com
os homens.
É claro que a maior parte da população não sofre com esses
transtornos, e sim com uma preocupação - por vezes injustificada -
com a aparência. "A busca por magreza pode ser perigosa em mulheres
normais, porque é contrária à natureza biológica", diz o
endocrinologista carioca Walmir Coutinho. " Quando minhas pacientes
estão com o peso ideal e querem perder gordura localizada, não
recomendo dietas." A declaração deve ser ouvida com atenção por quem
tenta todo tipo de regime. De acordo com o Instituto Nacional de
Saúde dos Estados Unidos, apenas 5% das pessoas que fazem dieta
mantêm o peso. "Se esses regimes malucos fossem eficientes,
precisariam ser feitos apenas uma vez na vida", diz a psicoterapeuta
Susie Orbach, da London School of Economics, autora do livro Fat Is
a Feminist Issue (Gordura É uma Questão Feminista).
Diante da ineficácia da maioria das dietas, algumas mulheres
optam pela cirurgia plástica. Lipoaspirações já são campeãs no
ranking de procedimentos estéticos no Brasil. Somam 198 mil
intervenções por ano. "A coisa saiu de controle", diz Mirian
Goldenberg, da UPRJ. "Antes, as pessoas compravam uma camisa e
levavam uma calça para combinar. Hoje, a mulher opera os seios,
depois quer fazer barriga e culote para deixar tudo igual." Com
cirurgias cada vez mais baratas, o número de operações estéticas
tende a aumentar.
Começam, no entanto, a surgir sinais de que nem todas as mulheres
estão dispostas a se submeter à ditadura da magreza. Nos últimos
anos, marcas voltadas para o público feminino enxergaram o potencial
de mercado que existe entre as mulheres que não se identificam com o
corpo de Gisele Bündchen, São mulheres conscientes de que não há
creme, academia, dieta ou cirurgia plástica no mundo que vá
deixá-las parecidas com a modelo.
A inglesa Body Shop, de cosméticos, foi a primeira a enxergar o
filão. Criou o slogan: "Existem 3 bilhões de mulheres no mundo que
não se parecem com supermodelos". A Dove, da multinacional Unilever,
encomendou uma pesquisa mundial e lançou a Campanha pela Real
Beleza. Nela, as garotas-propaganda eram gordinhas e apareciam
exibindo suas dobras. A Dove criou até o Fundo para Auto-Estima,
cuja proposta é "estimular a auto-estima entre garotas de 8 a 14
anos". No Brasil, a Natura anuncia produtos para a "mulher bonita de
verdade". A empresa não usa modelos em seus anúncios, e sim mulheres
comuns, escolhidas nas ruas.
A venda de um dos produtos anunciados pela Dove cresceu mais de
700% no Reino Unido após a campanha. "Essas iniciativas são ótimas.
Podem ajudar a conscientizar as pessoas de que é impossível ser
perfeito", diz Joan Jacobs Brumberg. "Mas não serão suficientes para
derrubar a ditadura da magreza. As mulheres acham tudo muito
politicamente correto, muito bonito. Mas insistem em entrar num
jeans tamanho 34." Quase cem anos depois de ser abolido do
guarda-roupa feminino, o espartilho não morreu. A diferença é que
hoje ele está dentro da cabeça.
Ser atraente não é ter 1,77 metro e 50 quilos nem fazer lipo e
carregar selos inflados com 300 mililitros de silicone Ser atraente
é decisão
AILIN ALEIXO
Nem quando tinha 10 anos entrei numa calça jeans 38. Nunca me
senti feliz com os peitos reinando absolutos em uma blusa branca sem
sutiã. Me sentia uma hipopótama prenha quando teimava em vestir um
top minúsculo com a pança exposta à poluição. Jamais deixei de ter
pânico praiano no final da primavera. Mas, depois de muita terapia e
chuchu refogado, decidi: sou muito mais gostosa do que essas
esqueléticas posando de cabide maquiado em capa de revista de moda.
Porque, na vida real, gostosura não é ter 1,77 metro e 50 quilos,
nem ter sido inflada com 300 mililitros de silicone, sugada com
lipoescultura ou esticada com Botox até na pupila. Ser gostosa é
decisão.
Decida que seus culotes, apesar de não serem a coisa mais fofa do
mundo, são extermináveis. Faça um tratamento estético e acabe com
eles. Decida dar um tapa na cabeça de seu namorado sempre que ele a
chamar de "gordinha", "fofinha" ou qualquer coisa terminada em
"linha" que cause ira: você é a única pessoa que pode depreciar a si
mesma, é bom que fique claro. Decida reclamar menos do seu corpo e
aproveitar mais todas as sensações que ele pode lhe proporcionar se
você parar de se torturar com cada estria que se instalar na banda
direita da sua bunda.
Burrice é dar valor exagerado ao que é, na essência, detalhe.
Tragédia é a fome na África, o assassinato dos bebês-foca, não a
falta de elastina no seu glúteo direito. Decida chutar para a
estratosfera os padrões de beleza: os peitos da Gisele Bündchen são
dela, não seus. A barriga tanquinho da professora de aeróbica na
televisão é dela, não sua. E, na real, se ser padrão fosse tão
bacana assim, essa mulherada não viveria neurótica, bulímica,
anoréxica, com disfunção renal, cerebral, hemorroidal. No fim, todas
nós sofremos de prisão de ventre.
Decida que "osso largo", "retenção de líquido" e "gases" não são
desculpa para não ter a cintura da Jennifer Lopez - você tem outra
estrutura, simples assim. Ou prefere se afogar num sorvetão de
pistache no final de um dia estressante a encarar uma porção de
gelatina e amargar um humor tão ruim quanto as desculpas do Rubinho
em final de corrida. Não dá para ser leoa com pelagem de
jaguatirica. Mas dá para ser uma leoa deslumbrante.
Decida que você, e o que existe de melhor em você, não se resume
àqueles 2 ou 3 ou 10 quilos de banha que insistem em não sair do seu
quadril. Quem acha o contrário deve ser posto sumariamente de
quarentena na sua vida. E se for você que pensa assim? De duas, uma:
Freud ou Jung. Não, três: pode ser Lacan, também.
Se você decidir que quer mais é ter a barriga sarada, a bunda
dura, o peito empinado e a coxa marmórea, vá em frente. Malhe. Feche
a boca. Gaste com cirurgias, mas não se engane pensando que depois
disso sua felicidade será plena, porque alegria e auto-estima não
vêm de brinde com a lipoaspiração. Lembre-se de que o embrulho do
presente acaba sempre indo para o lixo.
Então, para descomplicar e desneurotizar minha existência, decidi
que sou gostosa. Compro roupas que valorizam o que tenho de bom e
não pago o mico de me vestir feito um manequim de vitrine da Dior: o
máximo que conseguiria seria parecer um espantalho fashion louco.
Não me abalo mais com comentários testosteronentos e babões diante
de corpos fenomenais: eles são visualmente dignos de urros de tesão,
mas não dediquei minha vida a ter um daqueles, por isso não posso
querer ter um daqueles. Não passo três horas diárias na academia,
não tenho personal trainer, não gasto as tardes no shopping
passeando com meu cachorrinho e com minhas amigas loiras-saradas que
parecem saídas de uma linha de produção de Barbies. Nunca vou ter um
corpo daqueles porque isso não é minha prioridade. O prazer que um
jantar de risoto de pêra com gorgonzola e uma rubra taça Merlot me
proporcionam é muito maior que poder rebolar ferozmente a
buzanfa-modelo num show da Tati Quebra-Barraco.
Hoje, sou gostosa e assumo. Mas continuo odiando qualquer mulher
que fica linda de morrer num biquíni. Eu decidi ser gostosa, mas não
virei a Irmã Dulce. Ainda bem: decidi também que ser boazinha não
combina comigo.