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Por que elas querem ser tão magras?

Época, edição nº 432 , 28/08/06.

A obsessão por dietas, malhação e cirurgias plásticas é para as mulheres um estorvo comparável ao espartilho. Será que um dia elas vão conseguir se libertar?

BEATRIZ VELLOSO E MARIANA SANCHES

Para ter uma silhueta curvilínea, as mulheres do século XIX usavam o espartilho. Esse artefato bizarro consistia em uma armação feita de arame, varas de madeira e barbatanas de baleia revestida de tecido. Na frente e atrás, cordões e colchetes. A estrutura era colocada em volta do tronco da mulher, como uma armadura, e os cordões apertados até o limite. A tortura aparece em filmes como Titanic e ...E o Vento Levou - neste, a escrava Mammy era a encarregada de espremer a cintura de Scarlett O'Hara. O objetivo do espartilho era pressionar a barriga para dentro, estufar os seios para cima e empurrar os quadris para trás. Ficava difícil respirar. Os movimentos se tornavam restritos. Algumas mulheres não conseguiam se sentar ou subir escadas. Não eram raros os casos de grávidas que, com o uso do espartilho, abortavam. O artefato causava também problemas respiratórios e digestivos. Por que, mesmo assim, era tão usado? Por questões culturais. O padrão de beleza no século XIX era o corpo em forma de violão. As moças espartilhadas se tornavam desejáveis do ponto de vista dos homens e arranjavam bons casamentos. Quando as mulheres conseguiram se livrar dele, no início do século XX, foi uma revolução. E um tremendo alívio.

O espartilho faz parte daqueles objetos e costumes do passado que, vistos com olhos de hoje, parecem estranhos, anedóticos ou mesmo bizarros. Façamos, no entanto, um exercício. Aquele proposto pelo escritor e filósofo italiano Umberto Eco no livro História da Beleza. Eco sugere observar os dias de hoje com o olhar de um cronista do futuro. Você está lendo o parágrafo acima em agosto de 2006, na edição 432 da revista ÉPOCA. Imagine o mesmo parágrafo daqui a cem anos, no número 5.632 da revista, com data de agosto de 2106:

Para manter uma silhueta delgada, as mulheres do início do século XXI eram obcecadas por dieta, exercícios e cirurgias plásticas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, apenas 16% da população mundial estava com excesso de peso. Mesmo assim, um estudo da Universidade Harvard e da London School of Economics, duas prestigiadas instituições acadêmicas daquela época, dava conta de que 87% das mulheres se sentiam acima do peso. Por causa dessa distorção cognitiva, elas se submetiam a tremendos sacrifícios. Uma em cada dez danificava a saúde com dietas irresponsáveis. Outras usavam laxantes - ou, pior, drogas inibidoras de apetite obtidas sem receita médica.

A lipoaspiração, antiga prática da medicina que consistia na introdução de cânulas sob a pele para sugar a gordura, tomou-se o tipo mais popular de cirurgia plástica. Nas quatro últimas décadas do século XX, a incidência de anorexia triplicou entre as mulheres. Estranhas roupas, como a calça jeans tamanho zero, que ficaria apertada em emas e garças, tornaram-se uma obsessão. Para caber nelas, as mulheres faziam mais e mais dietas e cirurgias. Qual a razão dessa loucura? O corpo delgado era o padrão de beleza, simbolizado pela modelo brasileira Gisele Bündchen. Gisele, pelos critérios da Organização Mundial da Saúde, poderia ser considerada anoréxica. Não que as mulheres se tomassem mais desejadas. Crônicas de tempos idos mostram que os homens ainda preferiam o estilo mais 'cheinho'. Magras, no entanto, elas se sentiam poderosas e causavam inveja às outras mulheres".

Certamente a reportagem do futuro elencaria casos como o da produtora paulistana Andrea Moreno, de 27 anos. Com 1,73 metro de altura, 57 quilos, 64 centímetros de cintura e 97 centímetros de quadril, ela tem proporções saudáveis. Mas não está feliz." Sempre acho que tenho de perder uns 3 quilos", diz Andrea. "E as pessoas sempre acham que sou neurótica." Sua rotina inclui pelo menos uma hora de malhação por dia e uma alimentação que consiste em uma xícara de café com leite pela manhã, um pãozinho e uma barra de cereais no meio do dia e uma salada à noite. Ela já fez a dieta de South Beach, a do Dr. Atkins, a da sopa (que inclui apenas líquidos) e outras tantas retiradas de revistas. A publicitária fluminense Urika Coimbra, de 28 anos, coloca as coisas em outros termos:" Gosto de ver a calça caindo". Ela tem 1,70 metro de altura e pesa 54 quilos. Faz três horas de ginástica por dia, entre sessões de musculação, corrida e spinning (exercício com bicicletas). Até ricas e famosas, como a apresentadora Angélica, caem vítimas da obsessão. Em julho deste ano, ela surpreendeu com um look mais esbelto que o costumeiro durante a São Paulo Fashion Week. Para consegui-lo, admitiu ter feito sacrifícios demais." Comecei a me sentir fraca, meio caída", disse na época à revista Quem.

O caso de Angélica chamou mais a atenção por ela se tratar de uma figura pública. Mas, exageros à parte, nem Angélica, nem Andrea, nem Urika são casos patológicos. A preocupação delas com o peso é comum a milhares de outras mulheres - juntas, as três refletem o espírito do tempo. São obcecadas por magreza pelo mesmo motivo que levava as mulheres de antigamente a usar espartilho. É uma questão cultural. Estudiosos apontam a gênese do culto à magreza no fim do século XIX, quando a Revolução Industrial estava a toda, os operários eram substituídos por máquinas e a produção de alimentos atingia quantidades sem precedentes." As pessoas tiveram ?de aprender a lidar, ao mesmo tempo, com um estilo de vida mais sedentário e uma abundância de comida nunca vista", diz a americana Joan Jacobs Brumberg, professora de História da Universidade Cornell e autora do livro Fasting Girls (Garotas em Jejum).

No início do século XX, a liberação dos costumes que se seguiu ao final da era vitoriana engendrou um modismo que deixava corpos mais expostos e mulheres mais preocupadas com a boa forma: o hábito de ir à praia e tomar sol. "Espelhos e balanças passaram a ser objetos comuns nos lares da classe média, e os níveis de auto-exigência e insegurança aumentaram", afirma Joan. Claro que tudo teve um lado positivo. Evitar comidas gordurosas, dosar sal e açúcar, ter uma dieta balanceada e fazer exercício físico regularmente são hábitos saudáveis, recomendados por qualquer médico. Uma dose sensata de vaidade também é bem-vinda. O problema é que, depois, as coisas saíram do controle. A linha entre o bom senso e o exagero foi ultrapassada nos anos 60. Embaladas pelo movimento feminista e pela revolução sexual, as mulheres passaram a negar o antigo modelo de beleza, o corpo de violão, que misturava cinturinha fina a seios, quadris e coxas fartos. Surgiu um estilo em que as formas femininas eram apagadas. "Elas estavam rejeitando o papel da rnulher-objeto, ou da fêmea de ancas largas que servia apenas para reproduzir", diz o sociólogo Dario Caldas, da Universidade de São Paulo. Figuras como a modelo inglesa Twiggy mostraram novas formas de ser bonita: pouco busto, pouco bumbum, cabelos curtos, jeito de menino e muito charme.

A década de 60, quando as linhas esguias de Twiggy passaram a conviver com as curvas de Sophia Loren, marcou também o início do divórcio entre o padrão de beleza masculino e o feminino. No momento, o embate entre os dois modelos pode ser representado pela volúpia da musa deles, a atriz Cleo Pires, diante da esbelteza da representante do novo padrão delas, a modelo Gisele Bündchen.

"Todos os dias minha namorada acorda e diz: 'Acho que engordei'. Não consigo ver onde tem gordura, não quero que ela fique magra demais." O comentário vem de Thiago Marques, de 26 anos, sobre a companheira Ana Carolina Gequelin, modelo paranaense de 23 anos. Com 1,74 metro de altura e 55 quilos, ela tem formas perfeitas - o atestado disso é que trabalha em propagandas de biquíni e lingerie. "Se paro para pensar, sei que estou bem e tenho um corpo bonito. Mas vivo vendo defeito na coxa, na barriga", diz Ana Carolina. A explicação para a discrepância é simples." Os homens desejam corpos diferentes do deles, com peito, ancas, coxas", diz Joan Jacobs Brumberg." Mas as mulheres, como todo mundo sabe, gostam de se enfeitar umas para as outras." A paulistana Sidinéia Schwarzwalder, de 34 anos, confirma a teoria. O marido sempre reclama de sua mania de se achar gorda. "Existe uma pressão social", afirma ela. "Mas a cobrança maior é minha mesmo."

De acordo com os biólogos, o fato de os homens preferirem mulheres mais voluptuosas tem a ver com a evolução. O darwinismo ensina que os instintos humanos foram formados ao longo de milênios. Aqueles que contribuíram para a preservação da espécie permaneceram. Para os homens, as mulheres de quadris mais largos tinham maior probabilidade de ter filhos saudáveis, pelo menos até a invenção da cesariana. Seguindo a mesma lógica, as de seios fartos tinham leite de melhor qualidade.

Mulheres que querem ser magras contrariam essa lógica. Segundo a autora do livro Female Fertility and the Body Fat Connection (A Conexão entre Gordura Corporal e Fertilidade Feminina), Rose Frisch, professora da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, certa quantidade de gordura é crucial para o funcionamento eficiente do sistema reprodutivo e do desenvolvimento sexual. Segundo ela, uma gravidez bem-sucedida necessita de 50.000 calorias a mais que as exigências metabólicas normais. "A gordura converte o hormônio masculino androgênio no hormônio feminino estrogênio", disse Rose em uma entrevista à rede de televisão britânica BBC.

É claro que o divórcio entre o padrão feminino e o masculino de beleza não pode ser explicado apenas pela necessidade de auto-afirmação que ocorreu com o feminismo. Seria uma conclusão simplista. Existem vários outros fatores envolvidos. No século XIX, uma moça se casava aos 17 anos - em geral, com um homem bem mais velho -, rinha quatro ou cinco filhos na casa dos 20 e, aos 30, já era uma matrona. Hoje, as mulheres casam mais tarde e querem parecer jovens por mais tempo - e magreza sempre foi associada a juventude. Segundo esse raciocínio, as mulheres que querem ser magras estão, de certa forma, em sintonia com o gosto masculino. Os mesmos homens que enaltecem as cheinhas também preferem as mais jovens. O psicólogo evolucionista americano David Buss publicou em 1989 um estudo de preferências amorosas em 37 culturas do planeta. Em todas, os homens preferiam as mulheres mais novas, e as mulheres os homens mais velhos.

Além dessas questões, a influência da mídia não deve ser subestimada. Ao longo das últimas décadas, modelos delgadas tomaram o lugar das atrizes de Hollywood no imaginário das mulheres. Não existe uma manequim de renome em atividade que esteja dentro do limite mínimo de peso recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A medida é o índice de Massa Corporal, ou IMC, peso da pessoa dividido pela altura elevada ao quadrado (calcule seu IMC em www.epoca.com.br). O índice saudável está entre 18,5 e 24,9 pontos. Acima disso, o sujeito tem sobrepeso e pode estar obeso. Abaixo, está flertando com anemia, subnutrição e anorexia, Gisele Bündchen tem 16,85 pontos de IMC. (Por incrível que pareça, quando ela apareceu no mundo da moda, houve quem dissesse que rompia a ditadura da magreza com seus 88 centímetros de busto.) Ainda assim, é uma das mulheres mais invejadas do mundo.

No Brasil, a obsessão tem uma razão a mais para existir: a possibilidade de ascensão social. "Os meninos querem ser famosos e ricos como os jogadores de futebol, e as meninas querem ser modelo", afirma Mirian Goldenberg, antropóloga da UFRJ e autora do livro De Perto Ninguém É Normal: Estudos sobre Corpo, Sexualidade, Gênero e Desvio na Cultura Brasileira." Quando elas vêem que a Gisele Bündchen é uma das mulheres mais bem pagas do mundo (faturou US$ 30 milhões nos últimos 12 meses, segundo a revista Forbes), topam tudo 1 para tentar a mesma sorte."

O psicólogo Marco Antônio de Tommaso tem a mesma preocupação. "Estão tomando como padrão um tipo que representa a ínfima minoria da população", diz. Responsável pelo acompanhamento ?psicológico das modelos de duas grandes agências de São Paulo, ele conversa com as moças semanalmente. "Se percebo que a questão do peso está prejudicando a cabeça ou a saúde, recomendo terapia regular."

Foi assim que Solange Fischborn, de 32 anos, 1,70 metro de altura, tornou-se paciente de Tommaso. Quando começou na profissão, ela vivia insegura. "Achava que ia perder trabalho se não emagrecesse, fiquei paranóica", diz. Solange passava quatro horas por dia na academia e comia menos que o indicado por sua nutricionista. "Ela recomendava quatro colheres de arroz, eu comia duas. Vivia à base de água e me achava imensa", diz ela. O alarme soou quando ela chegou aos 55 quilos e amigos começaram a perguntar se estava com aids. Três anos e 6 quilos a mais depois, Solange encontrou o equilíbrio. "Estou feliz e sei que nunca vou ser esquelética porque minha estrutura não é assim. Faço terapia com um profissional, e não malhando na academia", afirma.

É natural que as modelos fiquem mais apreensivas com a boa forma: o corpo é seu instrumento de trabalho. Mas não é normal que o resto da população feminina pense o tempo todo em emagrecer, mesmo quando isso não é necessário - ou é até contra-indicado. A obsessão começa a alarmar médicos e psicólogos. "A incidência de comportamentos que podem levar a transtornos alimentares está em alta", afirma a psiquiatra Maria Angélica Nunes, autora do livro Transtornos Alimentares e Obesidade. Ela coordenou uma pesquisa segundo a qual 30% das mulheres fazem jejum ou tomam laxantes uma vez por mês na tentativa de perder peso.

Mais assustador ainda é o consumo de drogas ou de remédios sem receita médica para inibir o apetite. No momento, o perigo atende pelo nome crystal meth, ou ice. Trata-se de um tipo perigoso de metanfetamina, que deixa o usuário sem fome e é altamente viciante. Os efeitos colaterais são devastadores. A droga pode afetar a memória, o sistema respiratório, alterar os batimentos cardíacos e até levar à morte. Crystal meth é a ponta sombria de um problema que coloca o Brasil no primeiro lugar de um ranking nada louvável: somos campeões no consumo de remédios para emagrecimento, à frente até dos Estados Unidos. Segundo reportagem que será publicada na revista Maríe Claire de setembro, mais de 2 milhões de mulheres brasileiras já experimentaram algum tipo de inibidor de apetite - e muitas estão ficando viciadas.

Casos de anorexia entre mulheres cada vez mais jovens são outro sintoma do problema. "Hoje, calcula-se que 0,5% da população mundial sofre de anorexia", diz Marcelo Papelbaum, psiquiatra do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia do Rio de Janeiro. A porcentagem equivale a cerca de 30 milhões de doentes no planeta. A estatística fica ainda mais assustadora quando se acrescenta um dado: 20% dos casos de anorexia terminam em morte - por inanição, parada cardíaca e até suicídio.

No horário nobre da TV, de segunda-feira a sábado, o drama das anoréxicas é apresentado pela atriz Luiza Mariani para 46 milhões de espectadores. Ela faz Julia, personagem da novela das 7, Cobras & Lagartos, que sofre com o transtorno. Em um capítulo, ela não encostou no prato. "Não posso comer, estou ficando gorda", disse. Duas semanas depois, foi parar no hospital por causa de um desmaio. Na cena, a personagem confessou ao médico que não ficava menstruada havia três meses. A infertilidade é uma das conseqüências da doença. O telespectador que continuar ligado vai topar, na novela das 8, Páginas da Vida, com Arma (Deborah Evelyn) e Giselle (Rachel de Queiroz), mãe e filha que vivem num embate. A primeira quer que a filha seja bailarina e estabelece um regime de terror na alimentação da criança. "Se continuar comendo desse jeito, você vai virar um elefante", diz ela. A menina começa a apresentar problemas psicológicos, e desenvolve bulimia.

A história de Giselle é atual. "Os casos de bulimia estão aumentando nos últimos anos, principalmente entre mulheres jovens", afirma Angélica Claudino, coordenadora do Programa de Orientação e Assistência aos Pacientes com Transtornos Alimentares da Unifesp. Na bulimia, ao contrário da anorexia, os doentes não perdem peso. Comem compulsivamente e depois vomitam para emagrecer. Um levantamento em bairros de classe média alta de São Paulo, feito pelas universidades de São Paulo (USP) e Harvard (nos EUA), apontou uma probabilidade nove vezes maior de mulheres apresentarem bulimia, em comparação com os homens.

É claro que a maior parte da população não sofre com esses transtornos, e sim com uma preocupação - por vezes injustificada - com a aparência. "A busca por magreza pode ser perigosa em mulheres normais, porque é contrária à natureza biológica", diz o endocrinologista carioca Walmir Coutinho. " Quando minhas pacientes estão com o peso ideal e querem perder gordura localizada, não recomendo dietas." A declaração deve ser ouvida com atenção por quem tenta todo tipo de regime. De acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, apenas 5% das pessoas que fazem dieta mantêm o peso. "Se esses regimes malucos fossem eficientes, precisariam ser feitos apenas uma vez na vida", diz a psicoterapeuta Susie Orbach, da London School of Economics, autora do livro Fat Is a Feminist Issue (Gordura É uma Questão Feminista).

Diante da ineficácia da maioria das dietas, algumas mulheres optam pela cirurgia plástica. Lipoaspirações já são campeãs no ranking de procedimentos estéticos no Brasil. Somam 198 mil intervenções por ano. "A coisa saiu de controle", diz Mirian Goldenberg, da UPRJ. "Antes, as pessoas compravam uma camisa e levavam uma calça para combinar. Hoje, a mulher opera os seios, depois quer fazer barriga e culote para deixar tudo igual." Com cirurgias cada vez mais baratas, o número de operações estéticas tende a aumentar.

Começam, no entanto, a surgir sinais de que nem todas as mulheres estão dispostas a se submeter à ditadura da magreza. Nos últimos anos, marcas voltadas para o público feminino enxergaram o potencial de mercado que existe entre as mulheres que não se identificam com o corpo de Gisele Bündchen, São mulheres conscientes de que não há creme, academia, dieta ou cirurgia plástica no mundo que vá deixá-las parecidas com a modelo.

A inglesa Body Shop, de cosméticos, foi a primeira a enxergar o filão. Criou o slogan: "Existem 3 bilhões de mulheres no mundo que não se parecem com supermodelos". A Dove, da multinacional Unilever, encomendou uma pesquisa mundial e lançou a Campanha pela Real Beleza. Nela, as garotas-propaganda eram gordinhas e apareciam exibindo suas dobras. A Dove criou até o Fundo para Auto-Estima, cuja proposta é "estimular a auto-estima entre garotas de 8 a 14 anos". No Brasil, a Natura anuncia produtos para a "mulher bonita de verdade". A empresa não usa modelos em seus anúncios, e sim mulheres comuns, escolhidas nas ruas.

A venda de um dos produtos anunciados pela Dove cresceu mais de 700% no Reino Unido após a campanha. "Essas iniciativas são ótimas. Podem ajudar a conscientizar as pessoas de que é impossível ser perfeito", diz Joan Jacobs Brumberg. "Mas não serão suficientes para derrubar a ditadura da magreza. As mulheres acham tudo muito politicamente correto, muito bonito. Mas insistem em entrar num jeans tamanho 34." Quase cem anos depois de ser abolido do guarda-roupa feminino, o espartilho não morreu. A diferença é que hoje ele está dentro da cabeça.

Sou gostosa e assumo

Ser atraente não é ter 1,77 metro e 50 quilos nem fazer lipo e carregar selos inflados com 300 mililitros de silicone Ser atraente é decisão

AILIN ALEIXO

Nem quando tinha 10 anos entrei numa calça jeans 38. Nunca me senti feliz com os peitos reinando absolutos em uma blusa branca sem sutiã. Me sentia uma hipopótama prenha quando teimava em vestir um top minúsculo com a pança exposta à poluição. Jamais deixei de ter pânico praiano no final da primavera. Mas, depois de muita terapia e chuchu refogado, decidi: sou muito mais gostosa do que essas esqueléticas posando de cabide maquiado em capa de revista de moda. Porque, na vida real, gostosura não é ter 1,77 metro e 50 quilos, nem ter sido inflada com 300 mililitros de silicone, sugada com lipoescultura ou esticada com Botox até na pupila. Ser gostosa é decisão.

Decida que seus culotes, apesar de não serem a coisa mais fofa do mundo, são extermináveis. Faça um tratamento estético e acabe com eles. Decida dar um tapa na cabeça de seu namorado sempre que ele a chamar de "gordinha", "fofinha" ou qualquer coisa terminada em "linha" que cause ira: você é a única pessoa que pode depreciar a si mesma, é bom que fique claro. Decida reclamar menos do seu corpo e aproveitar mais todas as sensações que ele pode lhe proporcionar se você parar de se torturar com cada estria que se instalar na banda direita da sua bunda.

Burrice é dar valor exagerado ao que é, na essência, detalhe. Tragédia é a fome na África, o assassinato dos bebês-foca, não a falta de elastina no seu glúteo direito. Decida chutar para a estratosfera os padrões de beleza: os peitos da Gisele Bündchen são dela, não seus. A barriga tanquinho da professora de aeróbica na televisão é dela, não sua. E, na real, se ser padrão fosse tão bacana assim, essa mulherada não viveria neurótica, bulímica, anoréxica, com disfunção renal, cerebral, hemorroidal. No fim, todas nós sofremos de prisão de ventre.

Decida que "osso largo", "retenção de líquido" e "gases" não são desculpa para não ter a cintura da Jennifer Lopez - você tem outra estrutura, simples assim. Ou prefere se afogar num sorvetão de pistache no final de um dia estressante a encarar uma porção de gelatina e amargar um humor tão ruim quanto as desculpas do Rubinho em final de corrida. Não dá para ser leoa com pelagem de jaguatirica. Mas dá para ser uma leoa deslumbrante.

Decida que você, e o que existe de melhor em você, não se resume àqueles 2 ou 3 ou 10 quilos de banha que insistem em não sair do seu quadril. Quem acha o contrário deve ser posto sumariamente de quarentena na sua vida. E se for você que pensa assim? De duas, uma: Freud ou Jung. Não, três: pode ser Lacan, também.

Se você decidir que quer mais é ter a barriga sarada, a bunda dura, o peito empinado e a coxa marmórea, vá em frente. Malhe. Feche a boca. Gaste com cirurgias, mas não se engane pensando que depois disso sua felicidade será plena, porque alegria e auto-estima não vêm de brinde com a lipoaspiração. Lembre-se de que o embrulho do presente acaba sempre indo para o lixo.

Então, para descomplicar e desneurotizar minha existência, decidi que sou gostosa. Compro roupas que valorizam o que tenho de bom e não pago o mico de me vestir feito um manequim de vitrine da Dior: o máximo que conseguiria seria parecer um espantalho fashion louco. Não me abalo mais com comentários testosteronentos e babões diante de corpos fenomenais: eles são visualmente dignos de urros de tesão, mas não dediquei minha vida a ter um daqueles, por isso não posso querer ter um daqueles. Não passo três horas diárias na academia, não tenho personal trainer, não gasto as tardes no shopping passeando com meu cachorrinho e com minhas amigas loiras-saradas que parecem saídas de uma linha de produção de Barbies. Nunca vou ter um corpo daqueles porque isso não é minha prioridade. O prazer que um jantar de risoto de pêra com gorgonzola e uma rubra taça Merlot me proporcionam é muito maior que poder rebolar ferozmente a buzanfa-modelo num show da Tati Quebra-Barraco.

Hoje, sou gostosa e assumo. Mas continuo odiando qualquer mulher que fica linda de morrer num biquíni. Eu decidi ser gostosa, mas não virei a Irmã Dulce. Ainda bem: decidi também que ser boazinha não combina comigo.

 

Pesquisa sobre Violência Contra a Mulher

NOVA
Pesquisa Ibope
Instituto Patrícia Galvão
2006

§ 51% conhecem ao menos uma mulher que é ou foi agredida pelo companheiro

§ 33% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade

§ 64% acham que o agressor deveria ser preso

§ 75% consideram as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes

§ Nove em cada 10 mulheres lembram de ter assistido ou ouvido campanhas contra a violência à mulher na TV ou rádio
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